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Intervenção de dança Fio do Meio explora a relação do humano com a cidade

Entrevistamos Paulo Emílio Azevedo, fundador da Cia Gente, criador e diretor da intervenção de dança Fio do Meio que, após estrear na Bienal de Dança 2017, em Campinas, traz o experimento ao Sesc Pompeia. A intervenção é gratuita e acontece nos fins de semana entre os dias 20 de janeiro e 4 de fevereiro, sempre às 17h.

Cada canto de uma cidade carrega consigo uma história cheia de sentimentos. Até a composição mais corriqueira — como o cimento, o asfalto, as curvas e as poças — faz parte desse enredo rotineiro, que é complementado pelas pessoas: a forma como interagem com cada espaço urbano e, também, com seus semelhantes. “O corpo é o mediador para voltarmos a olhar a cidade”, explica.

"[O espetáculo] é mais uma representação da infinitude do ser humano, bem como a cidade, que se apresenta em contínua construção. Nessa via de mão dupla, estamos em movimento e em pausa observando a cidade que nos atravessa. Esses percursos, esses caminhos, as ruas, ou aderência aqui são chamados de dança”, completa. Para o diretor, é dessa forma que se estabelece o diálogo entre os espaços urbanos e a dança. É uma experiência aberta a mudanças, vindas das interferências externas do espaço, sejam elas inesperadas ou não, e da arquitetura.

Nesta entrevista, Paulo relata como foi contruir 'Fio do Meio', sua visão sobre as possibilidades arquitetônicas relacionadas com a arte, sua relação com a cidade do Rio de Janeiro — onde a intervenção foi pensada a princípio — e o envolvimento de Eduardo Hermanson "Willow" e Lucas Graça "Zina", os dançarinos, na complementação da experiência.

Processo de criação do 'Fio do Meio' na Praça da Cinelândia, no Rio de Janeiro

Como se deu o início da sua pesquisa com dança em espaços públicos?

Essa pergunta me fez pensar que a minha relação direta com o espaço urbano vem muito antes do processo criativo em dança especificamente. Talvez o que haja de mediador, protagonizando essas incursões, seja o corpo. Não é coincidência, por exemplo que eu tenha optado por imaginar 'Fio do Meio' na Praça da Cinelândia. Era em seu entorno que grande parte da minha infância e adolescência se passara. Tantas e tantas vezes perdia-me propositalmente nas vielas desses espaços e lugares da praça — espaços inventados e lugares imanentes —, encantado e curioso pela urbanidade latente e vigorosa e a diversidade dos sujeitos que habitavam as esquinas do centro do Rio. Sem ainda ter noção exata do que observava e que um dia isso poderia ser material à produção criativa, essas memórias me atravessam no processo intersubjetivo — já atuava como um antropólogo no sentido de "andar, ver e escrever".

A partir da década de 1990, com o boom de imagens e informações contidas em videoclipes, me senti afetado em mobilizar pessoas da minha cidade [Macaé] para começarmos algum tipo de interferência no espaço público. Ocupamos praças, passarelas, pontos de ônibus... Mas tudo ainda era embrionário. Desse modo, pode-se dizer que, a partir de 1999, quando idealizo uma escola de Dança de Rua, que essas interferências passam a se desenhar com uma articulação mais potente. E, finalmente em 2002, compreendendo que a arquitetura me mostrava não apenas o cimento que estrutura o prédio, mas também a história que recorta a planta de cada edifício. A dança se mostrou uma possibilidade. Logo em seguida, foi criada a obra 'Meio Fio'. Era a hora de fazer o percurso de volta, costurando por outras linhas. Quinze anos depois, nasceu 'Fio do Meio'.

Como foi a experiência de realizar 'Fio do Meio' no Rio de Janeiro?

Só há sentido na arte se ela me possibilita uma experiência estética. Ficar imerso por 70 dias na Praça Cinelândia não é uma tarefa agradável, mas é, sobretudo, urgente. As situações que atravessaram o cotidiano (violência, sensação de violência, medo, antemedo, humor, desafeto, sofrimento, poesia, malícia, amor) foram elementos importantes na composição da obra. Desse modo, o conceito de percurso que sustenta 'Fio do Meio' se faz nesse "entre", em que a ideia de performance ganha destaque no processo.

A performance não está apenas na tradução de movimentos daqueles que são intérpretes da criação, mas também no corpo e no olhar de quem nos estranha e de quem nos olha. Essa percepção é fundamental para não cair na cilada de que se institua uma atuação vertical entre o artista e a cidade. Por fim, cabe situar que a partir de tal experiência, os envolvidos saem modificados pela intensidade dos fenômenos desse intercâmbio.


"O Pompeia faz parte da cidade, mas a cidade também é parte do Pompeia", explica Paulo em relação à experiência na unidade.
 

De que maneira a intervenção pretende se relacionar com a arquitetura do Sesc Pompeia? 

Atuar no Sesc Pompeia é, ao mesmo tempo, um desafio e uma descoberta. A disposição estética e os fluxos que percorrem a unidade produzem uma via de mão dupla de atravessamento. Nesse sentido, o Pompeia faz parte da cidade, mas a cidade também é parte do Pompeia. Não obstante, esse cruzamento entre a rua da unidade e os galpões produzem territórios em que cada um deles tem vida própria. A impressão que se dá é de veias e artérias distribuídas no espaço de um corpo. Muitas vezes, quando passamos pelo mesmo lugar, deixamos de perceber os detalhes e a força que existe em cada cantinho, que compõe esse "corpo". A dança, talvez, possa fazer com que ao invés de apenas passarmos por esses lugares, elem também nos atravessam.

Você poderia fazer uma breve introdução sobre os dançarinos que estarão atuando na intervenção?

'Fio do Meio' foi concebido para ser um único projeto desmembrado para muitos atos. Desse modo, eu precisava de um protagonista e, a cada ato, um convidado para servir de contraponto. Esse protagonista tinha que reunir qualidades como: vivência profissional, vigor cênico, inquietação abundante e, sobretudo, capacidade de se sentir desafiado pela proposta. Não tive dúvida que esse artista deveria ser o "Willow" (Eduardo Hermanson) — se fosse uma série de cinema, ele atuaria como um 007.

E para cada episódio, é necessário um provocador para se alcançar o resultado da narrativa. No 1º ato, chamado 'A Crise das Borboletas', entendi que esse provocador, o intérprete convidado, tinha que reunir, na contra-mão do "Willow", outras formas de relação com a cidade, talvez uma inocência, mas também uma verve. Isto é um tesão pela urbe. Assim encontrei o Lucas Graça "Zina", que já atuava numa outra obra ('Mòdio') sobre a minha direção e que percorre os trens do Rio realizando performances, todavia com um planejamento para cada ação, tanto do ponto de vista da atuação quanto da organização de trabalho. Em comum, ambos vêm de repertório das danças urbanas, sendo que "Willow" se confunde com a própria história da dança urbana no Rio de Janeiro e "Zina" é fruto dela.

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