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Rincon é chave. Abram os portões!

Fotos: Renato Stockler
Fotos: Renato Stockler

O rapper Rincon Sapiência fala sobre o resgate da estética negra, a reinvenção dos discursos do RAP e a expectativa para o show no Sesc Campo Limpo, no dia 25 de Janeiro, com seu novo e elogiado trabalho “Galanga Livre”

Aqueles ‘tiozinhos’ do bar não devem saber, mas sem querer criaram parte do nome de um dos grandes músicos da cena RAP da atualidade. Você já deve ter ouvido por aí: Rincon Sapiência (mais conhecido como Manicongo, certo?). Se pensou naquele Colombiano que jogava no Corinthians nos anos 90, você não está tão errado. Danilo Albert Ambrosio (nome de batismo) recebeu esse apelido na infância, dos ‘tiozinhos’ que ficavam no bar por onde passava no caminho para a escola, pela semelhança - diziam eles - com o jogador. Do futebol, ficaram as lembranças de treinos na Portuguesa e no Campo de várzea que jogava na Zona Leste de São Paulo.

A música foi determinando os rumos de Danilo, que assumiu o nome de Rincon Sapiência, complemento que incorporou ao apelido pelo ‘gosto e conhecimento pelas coisas divinas e humanas’. Preto, da Cohab 1 de Itaquera, bairro da periferia de São Paulo, o rapper apresenta letras potentes, verso livre e um belo jogo de palavras, exaltando a pretitude, a representatividade dos periferianos e a cultura e tradição negra. A sonoridade das músicas contém uma nítida mescla do RAP com influência de ritmos africanos, que adquiriu através de pesquisas e numa viagem que fez ao continente.

Há 17 anos na estrada, destaque de 2017, eleito artista do ano pela APCA (Associação Paulista de Críticos de Arte), artista revelação, melhor produtor e melhor capa para “Galanga Livre” no Prêmio Multishow, o músico conversou com a EOnline sobre a desconstrução de expressões racistas, o resgate da estética negra, a reinvenção dos discursos do RAP e a expectativa para o show no Sesc Campo Limpo

EOnline: Em que momento você percebeu que o RAP poderia se tornar algo profissional? Você considera “Elegância” a música que te colocou na cena? 
Rincon Sapiência: O RAP sempre foi um plano profissional, depois que a gente descobre que é uma paixão, algo que você quer pra vida, que você gosta de fazer. De fato, em 2010 quando o saiu o clipe da música “Elegância”, foi também quando eu saí do meu último emprego formal e passei a trabalhar exclusivamente fazendo RAP, fazendo shows e realmente a música “Elegância” que abriu os caminhos e a música que marcou também. Uma linguagem, uma estética totalmente diferente do que eu fazia: falar de moda, falar de brechó, os arranjos em mídia e digitais. Tudo isso foi uma vanguarda interessante para eu abrir os caminhos e passar a trabalhar com isso.

EOnline: Você estudou muito a história Africana pra chegar em “também conhecido como Manicongo”? Qual a sua ligação com a África e com os residentes africanos no Brasil?
Rincon Sapiência: A África é um estudo. Eu não me vejo como um Pan-Africanista, mas eu acredito que nós brasileiros como homens e mulheres pretas temos que fazer esse tipo de conexão, já que por decorrência da escravidão a gente veio até esse território, hoje chamado Brasil. E nossa identidade foi negada, a gente não tem referência das nossas origens, de que países de fato viemos, de que etnias somos...Então, você se conectar com a África é você se conectar com você mesmo, num país onde a maioria é preto. Esse tipo de conexão é importante, é um estudo que eu vou levar até o final da minha vida. Cada hora você descobre uma coisa interessante, uma história interessante. E eu gosto muito de história também e acabo conectando com meu EU nesse processo.

EOnline: “Galanga livre” demonstra sua maturidade poética e musical. O disco gira em torno da afirmação política e da exaltação da estética preta e afrofuturista. Como se deu?
Rincon Sapiência:
“Galanga Livre” é um disco que nasceu muito de pesquisas de história, pesquisas de música. E eu naturalmente, já é uma parada que está enraizada no meu discurso, no meu texto, que é falar sobre pretitude nas mais variadas visões, passando por gênero, auto estima, moda, tudo isso. E pra chegar no disco, nesse título, na musicalidade, ela nasceu de muito estudo. Muita gente associa com o afroturismo e coisas do tipo que são interessantes, mas eu confesso que quando eu comecei a criar eu não conhecia esses termos e nem a existência disso, foi algo que surgiu bem natural.

 

 

    "Se eu te falar que a coisa tá preta,
     A coisa tá boa. Pode acreditar!
     Seu preconceito vai arrumar treta.
    Sai dessa garoa, que é pra não molhar."


 

 

 


EOnline: Suas músicas abordam temas complexos. As letras são muito potentes e criam uma ressignificação da mensagem (como em “A coisa tá Preta”, em que você desconstrói a conotação racista da expressão). É uma reinvenção do RAP?
Rincon Sapiência: Eu de fato me vejo como uma vanguarda em vários pontos no que diz respeito a moda, ao jeito que eu rimo, ao jeito que formulo minhas métricas, a forma que eu aplico meu texto. E eu tento sempre sair do óbvio, eu cresci ouvindo muitos RAPs que falavam sobre autoestima preta e questões raciais, mas me conectando com o contemporâneo, com a juventude de hoje, com as demandas de hoje e a tecnologia, a gente precisa reinventar o nosso discurso também para que a gente consiga atingir. Eu diria que nesse processo de busca por reinvenções, por novas linguagens, eu acabo sendo uma vanguarda em alguns pontos: na forma de se aplicar o texto e de estética musical também.
 

EOnline: Em “Afro Rep” você aposta no jogo de palavras para citar o caso de racismo do Jornalista Willian Waack. A sua música é uma forma de militância contra o racismo e o conservadorismo imposto pela mídia, sobretudo na periferia?
Rincon Sapiência: A música tem esse poder de ser um porta-voz também, quando a gente fala das minorias, não minorias em quantidade, mas em representatividade. A gente vê numa demanda muito menor os pretos sendo representados, os periferianos sendo representados e a mesma casta ali tendo sua voz nas grandes mídias e tudo mais. E muitas vezes essas vozes reproduzem o racismo entre outras coisas, como nesse caso que você citou do jornalista [Willian Waack]. Então foi uma forma...às vezes pra gente ser provocador a gente pode ser muito ácido, como a gente pode ser irônico e divertido também. E por mais que tenha um tom de humor, essa rima tem um pouco de acidez pra pegar num caso gravíssimo de racismo de um jornalista influente. Eu acho que esse tipo de ideia tem que ser cobrada sim.

 

 

“Jogo com as palavras esse é meu ataque
Fazendo coisas de Cleiton 
Eu mando um salve para o William Waack"

 

 

 

 


EOnline: Você tem um bom posicionamento nas redes. Você tem a noção dessa responsabilidade de falar pro mundo, de ser um desses representantes, uma influência pra quem tá começando?
Rincon Sapiência:
Eu percebo isso, o poder de influência que a gente vem ganhando e isso tem muito a ver com a formação: livros que eu li, coisas que eu assisti, eu fui muito instigado pelo RAP, para poder me entender politicamente, conhecer literatura, coisas do tipo. O RAP me instigou a fazer isso. Então quando eu vejo que de certa forma eu tô devolvendo essa moeda, eu sinto aquela sensação que o dever está sendo bem feito, né? Porque é legal, se em algum momento, alguma pessoa, tiver um tipo de formação, de ler alguma coisa, assistir algo legal, criar uma filosofia a partir de uma provocação que vem da minha música eu fico bem feliz com isso.

EOnline: Você já fez alguns shows na Zona Sul. Como é essa recepção e a conexão do público Zona Leste / Zona Sul?
Rincon Sapiência:
Eu acho que a gente tem uma recepção máxima, uma abertura legal por toda a cidade de São Paulo. Por todos lugares que ando posso dizer, aqui em São Paulo sempre tem alguém pra dar um axé, pra dar um salve, é bem legal. E a Zona Sul, principalmente falando do ritmo da periferia, do estilo das quebradas, das ruas e das pessoas também, ela tem uma semelhança bem grande com a Zona Leste. A periferia no geral se conecta e tem suas particularidades. Mas pelas amizades que eu tenho da Zona Sul eu sinto uma semelhança bem grande com as quebradas da Zona Leste. Então a Zona Sul é sempre um lugar que a gente sempre recebe uma energia massa quando está por lá, espero que não seja diferente nos próximos encontros.

EOnline: Feriado do Aniversário de São Paulo, Sesc Campo Limpo, quebrada da Zona Sul, “território” dos parceiros Racionais MCs. O que você espera desse show?
Rincon Sapiência:
Ah! Esse é um show que eu vou estar acompanhado dos meus parceiros de banda, do meu STAFF... Então vou estar rodeado de pessoas legais. O público da Zona Sul, sempre quando a gente está na área recebe a gente muito bem. Então estou contando com um dia bem divertido de muita música, muita dança, mensagem, espiritualidade, todo tipo de energia boa, já que o show é como um ritual. A gente acaba promovendo o encontro de, não só o nosso como artista, como o do público que vem de diversos lugares, de idades diferentes, de  experiências diferentes. Você mobilizar pessoas pra se juntar, considerando que muitas vezes somos condicionados a não estarmos juntos, então a música promove isso. E a partir disso espero que seja um momento incrível, divertido. E a gente tá bem ansioso pra isso.

VIDEOCLIPE AFRO REP - Rincon Sapiência

 

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