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A floresta que ensina o amor pela vida

Acervo Sesc Bertioga
Acervo Sesc Bertioga

Texto: Afonso Capelas Júnior

Em 1984, o biólogo norte-americano Edward Osborne Wilson fez florescer a hipótese da biofilia. A palavra é formada pela junção do grego bios (vida) e philia (amor). Pode ser traduzida literalmente como “amor pela vida”. Wilson considera que temos uma ligação emocional genética com a natureza.

A Reserva Natural Sesc em Bertioga, no litoral de São Paulo, foi criada com a intenção de potencializar essa relação. Seu objetivo é integrar o ser humano ao meio ambiente como forma de inspirar valores de cidadania gerando bem-estar por meio de um vínculo maior com os ambientes naturais. Encravada em uma região urbana, a reserva de cerca de 60 hectares de Mata Atlântica, com uma rica variedade de fauna e flora típicas de floresta alta de restinga, está prestes a tornar-se uma Reserva Particular do Patrimônio Natural (RPPN). Ela permite o desenvolvimento de inúmeras atividades de educação e turismo, integração com as comunidades locais, além de pesquisas científicas.

No estado de São Paulo, a Fundação Florestal, órgão ligado à Secretaria de Estado do Meio Ambiente, é responsável pelo reconhecimento de áreas naturais como RPPN. Além da análise documental, a fundação realiza visitas técnicas para constatar se essas áreas possuem importância ecológica que justi quem seu reconhecimento. Toda unidade de conservação (reserva, parque, estação ecológica...), seja ela pública ou privada, deve elaborar um plano de manejo, que é o documento técnico de referência para a gestão da área. O plano de manejo da Reserva Natural Sesc foi elaborado mesmo antes do reconhecimento como RPPN e ficou pronto em março de 2016. Nele constam os objetivos da área, seu zoneamento e os possíveis usos, de acordo com as características do ambiente local.

“Bertioga é um município com muitas áreas protegidas, mas nem todas são acessíveis ao público. Nesse sentido, a criação da RPPN, aliada aos objetivos do Sesc, terá um forte potencial de transformação local com a abertura à visitação e o estímulo às práticas e diálogos sobre sustentabilidade”, reconhece Guilherme Rocha Dias, comunicólogo que coordenou o plano de manejo da futura RPPN do Sesc, realizado pelo Instituto Ecofuturo.

Durante as etapas de elaboração do plano de manejo, a participação da comunidade local, que ultrapassa os três mil habitantes e está vizinha à Reserva Natural Sesc, foi estimulada com a realização de diversas entrevistas, rodas de conversa, reuniões, encontros diagnósticos, entre outras estratégias participativas, que buscaram conhecer a percepção e as expectativas das pessoas sobre esta área. A partir desse diálogo com a comunidade, fomentou-se a criação de um Coletivo Educador para ampliar a reflexão sobre as questões socioambientais de Bertioga e propor ações no campo da educação ambiental. São encontros de diversas instituições locais que buscam a transformação de seu entorno em territórios sustentáveis.

{''A reserva será de grande importância para a conservação de um trecho precioso de Mata Atlântica, aliada à educação ambiental''} - Márcia Hirota, diretora-executiva da Fundação SOS Mata Atlântica

“Esse contato criativo mostrou que as instituições queriam se conhecer melhor, pensar juntas as questões socioambientais da cidade e propor projetos e possibilidades de ação conjunta”, comenta Séfora Tognolo, agente de educação ambiental do Sesc Bertioga. Hoje as instituições se reúnem mensalmente e, dentre outros assuntos, elaboram o projeto político-pedagógico sob orientação de pesquisadores associados à Universidade de São Paulo (USP). “O processo de criação da reserva tem produzido discussões sobre temas como participação, qualidade de vida e conservação ambiental, gerando maior interesse pela natureza e o sentimento de pertencimento das pessoas com o local onde vivem”, resume Séfora.

O monitor ambiental Marildo Cassiano, conhecido como Saracura, participou ativamente desde os primeiros encontros para elaboração do plano de manejo. Antigo morador da região, Marildo garante que o envolvimento dos seus vizinhos antes do coletivo educador era quase nenhum. “Até então ninguém discutia nossos problemas. Hoje estamos mais unidos para cobrar medidas que melhorem a qualidade de vida na cidade”.

O propósito de a Reserva Natural do Sesc em Bertioga manter uma relação permanente com a comunidade inclui o desenvolvimento de uma série de iniciativas parte de um processo de transformação social por meio da ação educativa continuada. Os objetivos de manejo da Reserva tratam desde a proteção da biodiversidade até a valorização das identidades culturais locais, além do incentivo à pesquisa científica e diálogo com demais unidades de conservação. Também pretende desenvolver programa de educação ambiental que envolverá vivências, convivências e oportunidades de interação com o ambiente, proporcionando experiências transformadoras.

Da junção destes objetivos, aliada à intenção de garantir acessibilidade às áreas naturais protegidas, surgiu uma iniciativa diferenciada: o curso de trilha com desenho universal. Usando metodologias participativas, o curso resultou na produção de conteúdos e compartilhamento de conhecimentos a partir da interação de moradores de Bertioga com profissionais especialistas em trilhas interpretativas, acessibilidade em espaços culturais e trilhas acessíveis.

Durante cinco dias estes profissionais interagiram com os participantes, para desenhar o traçado da primeira trilha da Reserva Natural Sesc. O maior desafio foi aliar experiências significativas na natureza pensando em públicos com diferentes de ciências, assim respeitando critérios de acessibilidade. Para tanto, todo o processo de concepção e implantação da trilha, seus recursos informativos e os serviços foram planejados cuidadosamente. A trilha pioneira da Reserva terá 950 metros lineares e será equipada com deques suspensos de madeira que permitirão o acesso e convívio das pessoas com a biodiversidade da Mata Atlântica. “A RPPN do Sesc em Bertioga será de grande importância para a conservação de um trecho precioso de Mata Atlântica, e para a educação ambiental”, comemora Marcia Hirota, diretora-executiva da Fundação SOS Mata Atlântica.

{''A trilha pioneira da reserva terá 950 metros lineares e vai propiciar experiências significativas de contato com a natureza''} - Marcia Hirota, diretora-executiva da Fundação SOS Mata Atlântica

SAIBA MAIS

“A maior parte do que resta do bioma está em mãos de particulares que são verdadeiros guardiães da natureza e defensores da causa ambiental”.

A definição de Coletivos Educadores

“Coletivos Educadores são conjuntos de instituições que atuam em processos formativos permanentes, participativos, continuados e voltados à totalidade e diversidade de habitantes de um determinado território. O Coletivo Educador é, ao mesmo tempo, resultado e realizador do Programa Nacional de Educação Ambiental (ProNEA) e do Programa Nacional de Formação de Educadoras e Educadores Ambientais (ProFEA). O papel de um Coletivo Educador é promover a articulação institucional e de políticas públicas, a reflexão crítica acerca da problemática socioambiental, o aprofundamento conceitual, e criar condições para o desenvolvimento continuado de ações e processos de formação em Educação Ambiental com a população do contexto, visando à sinergia dos processos de aprendizagem que contribuem para a construção de territórios sustentáveis. Os Coletivos Educadores favorecem a continuidade das propostas de formação, a otimização de recursos locais, regionais e federais, e a articulação de programas e projetos de desenvolvimento territorial sustentável. Para que o desenvolvimento de processos educacionais amplos, continuados, sincrônicos e permanentes perpassem todo o tecido social, há a necessidade da conjunção de recursos e competências que dificilmente se encontram numa única instituição.”

(Fonte: Ministério do Meio Ambiente)

A experiência da construção participativa em Bertioga

Aberto, fortalecido por participação efetiva, exercício de cidadania, autonomia, pertencimento e ação, o Coletivo Educador de Bertioga acolhe e impulsiona as discussões sobre sustentabilidade no território. O grupo começou a formar-se ainda durante a construção do plano de manejo da Reserva Natural Sesc, que incluiu diagnóstico participativo com reuniões, rodas de conversa e entrevistas com moradores, instituições do poder público, privado e sociedade civil organizada. Hoje conta com participantes de instituições, como Associações de Monitores Locais de Bertioga, Senac Bertioga, Programa Clorofila de Educação Ambiental, Parque Estadual da Restinga de Bertioga, Seção de Educação Ambiental da Secretaria Municipal de Meio Ambiente, estudantes e diretores de escola – além do Sesc Bertioga. Os encontros são mensais e, desde janeiro, incluem um processo de formação com Semíramis Biasoli, pesquisadora do Laboratório de Educação e Política Ambiental - oCA-EsAlQ/usp, que tem orientado a construção do projeto político-pedagógico do grupo. Estão previstos novos encontros com a comunidade para a realização de um amplo diagnóstico participativo, buscando agir concretamente e com a contribuição dos principais atores envolvidos.

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