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“A voz de Clementina é o elo entre o Brasil e a África”

Clementina e Hermínio durante a produção do espetáculo
Clementina e Hermínio durante a produção do espetáculo "Rosa de Ouro", na década de 1960

Há 30 anos morria Clementina de Jesus, conhecida por evocar, com o tom grave de sua voz, a ancestralidade africana em sambas, corimás, partidos-altos, jongos e cantos de trabalho. Para celebrar a memória da sambista, o Sesc Pompeia apresenta, nos dias 17 e 18 de fevereiro, o show-tributo “Rainha Quelé – 30 Anos sem Clementina de Jesus”, que reúne Paula Lima, Nêga Duda, Nãnãna da Mangueira e Karla da Silva no palco do Teatro.

Da esquerda para a direita: Paula Lima, Nãnãna da Mangueira, Nêga Duda e Karla da Silva. Montagem: Guilherme Barreto

Para entendermos a importância do resgate da obra de Clementina, conversamos com o carioca Hermínio Bello de Carvalho que, em 1963, produziu o show “Rosa de Ouro”, primeiro contato da sambista com a carreira artista. À época, ela era uma empregada doméstica de 62 anos de idade e foi ouvida por Hermínio, por acaso, na Taberna da Glória, no Rio de Janeiro.

Em uma trajetória profissional breve, porém consagrada, Clementina gravou com grandes nomes da música brasileira, como Martinho da Vila, Milton Nascimento, Clara Nunes, Paulinho da Viola e Pixinguinha. Hoje, 30 anos depois de seu falecimento, ela ainda continua sendo alvo de releituras e homenagens que a mantêm viva na história da música brasileira.

Para Hermínio, o que explica a atualidade de Clementina é a verdade que sua voz carrega. “Antes dela, não havia um elo musical tão grande entre o Brasil e a África. Isso é o que faz sua obra resistir ao tempo. A voz de Clementina são os tambores da África”.

Em um momento de manifestações de intolerância cultural e racial, Hermínio considera importante continuarmos cantando uma sambista mulher, negra, pobre e idosa. “A música tem o poder de fortalecer a voz coletiva. O resultado do Carnaval carioca pode explicar a relevância de continuarmos discutindo os temas cantados por Clementina” (Hermínio se refere às escolas de samba Beija-Flor e Paraíso de Tuiuti, que conquistaram, respectivamente, o primeiro e o segundo lugares na apuração dos votos ao retratarem as mazelas sociais brasileiras, como corrupção, escravidão, desigualdade, violência e intolerâncias de gênero, racial e religiosa).

Clementina de Jesus. Foto: Hipólito Pereira

Imponente na realeza do samba, Clementina era conhecida pelos apelidos Rainha Ginga e Quelé, tendo sido pioneira no protagonismo feminino do samba. Segundo Hermínio, “ela contribuiu para o cenário da mulher sambista, no qual Jovelina Pérola Negra e Dona Ivone Lara, com suas vozes ‘metrosas’, também estão inseridas”.

Apesar de ter sido “descoberta” somente após os sessenta anos, “Clementina foi reverenciada por toda a classe artística por trazer ao cenário musical uma carga de informações que passaram a pertencer ao patrimônio brasileiro”, como explica Hermínio. O produtor musical que “apenas prestou atenção” em Clementina, como ele mesmo gosta de definir sua relação com Quelé, educou seu ouvido para a música negra a partir de referências como a americana Billie Holliday (1915-1959) e a espanhola Pastora Pavón, “La Niña de los Peines” (1890-1969).

Mais sobre Hermínio Bello de Carvalho
Compositor, poeta, produtor musical e ativista cultural, Hermínio nasceu em 1935, no Rio de Janeiro (RJ), e foi um dos responsáveis pelo impulso nas carreiras de vários artistas, entre eles Clementina de Jesus, Paulinho da Viola e Elton Medeiros. Entre seus parceiros musicais, estão nomes ilustres, como Cartola e Carlos Cachaça ("Alvorada no Morro"), Pixinguinha ("Fala Baixinho", "Isso é que é viver", "Isso não se faz"), Paulinho da Viola ("Sei lá Mangueira"), Baden Powell ("Valha-me Deus"), Dona Ivone Lara ("Mas quem disse que eu te esqueço"), Sueli Costa ("Cobras e Lagartos"), Martinho da Vila ("Retrós e Linhas"), Zé Ketti ("Cicatriz"), João de Aquino ("Patuá") e Vital Lima ("Judiarias, "Pastores da Noite"). Poeta, lançou os livros "Chove azul em teus cabelos" (1961), "Ária e percussão" (1962), “Novíssima poesia brasileira” e "Poemas do amor maldito", ambos de 1964. Atuou também como jornalista e cronista na Revista da Música Popular, nO Pasquim e na Leitura.

Prepare-se para o show deste fim de semana ouvindo o repertório de Clementina de Jesus: 

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