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Paulista Aberta – um novo paradigma de smart city

*Por Natália Fontes Garcia

É um domingo de 2015. Saio da estação Consolação do metrô e caminho por aquele velho conhecido hardware – a avenida Paulista – apreciando o software novo em operação – a Paulista Aberta, cheia de crianças de poucos anos aprendendo a pedalar em bicicletas minúsculas, famílias passeando, músicos de rua, alguns brilhantes, outros barulhentos. Vejo uma ciclofaixa de lazer patrocinada por um banco, um artista errante vendendo suas impressões de serigrafia e noto como a formalidade e a espontaneidade encontraram aqui uma rara harmonia.

Nos últimos dez anos, tenho estudado o que melhora a experiência humana de viver em cidades. Um estudo que se dá na teoria, no campo e em projetos especiais – como o Cidades para Pessoas, com o qual percorri mais de 100 cidades no Brasil e no mundo coletando práticas que tenham impactado positivamente a vida urbana, e o Brechas Urbanas, evento mensal que discute a vida na cidade numa perspectiva artística, no Itaú Cultural. E uma das coisas que pude aprender é que a existência de espaços onde pessoas diversas se encontram, como a Paulista Aberta, contribui para que uma cidade seja mais inteligente.

Muitos autores têm escrito sobre o que faz uma cidade ser mais inteligente (o termo smart cities está na moda). Gosto muito do que escreve o autor Steven Johnson no livro “Emergence”, em que ele procura compreender o que faz a inteligência emergir nos sistemas complexos. O grande insight desse livro sobre a vida urbana (e sobre por que a Avenida Paulista está contribuindo para São Paulo ser mais inteligente) vem de um lugar pouco provável: o estudo de como as colônias de formigas se organizam.

O início do livro é uma visita de Johnson à pesquisadora Deborah Gordon, que revolucionou a compreensão humana sobre as formigas. Até Gordon, tudo o que se sabia sobre formigas era que elas se comunicam através das antenas, tocando-se ou sentindo os rastros de feromônio deixados pelas colegas na trilha. Cada uma dessas interações é bem simples e transmite informações como reconhecimento de tarefas (“minha tarefa é a colheita”); atração na trilha (“há comida ali”); comportamento de alarme (“fuja!”) e comportamento necrófito (“vamos nos livrar dessas colegas mortas”). O que Gordon fez de inédito foi observar uma colônia de formigas ao longo de vários anos, descobrindo que ela fica mais inteligente ao longo dos anos.

É que todas as formigas tomam milhares de pequenas decisões por dia a partir das interações entre si, e isso vai criando uma inteligência no organismo que é formado por essa colônia. O segredo dessa inteligência descentralizada está nos “feedbacks” locais que as formigas trocam entre si quando interagem no espaço. E esse comportamento evolui com o tempo. Gordon estima que uma colônia dure aproximadamente 15 anos e afirma que ela vai efetivamente ficando mais inteligente – para procurar comida, fugir de ameaças, manter o ambiente limpo – ao longo desse tempo. Um dos aspectos que faz essa inteligência aumentar é que a colônia toda vai se desenvolvendo parar criar mais “esbarrões" entre indivíduos, o que, por sua vez, aumenta a transmissão das informações que beneficiarão toda a colônia. É o encontro entre indivíduos que faz a colônia ficar mais inteligente.

Johnson defende que as cidades funcionam de maneira muito parecida – só que a partir de interações muito mais complexas do que esses poucos sinais químicos emitidos entre formigas. Mas a regra fundamental é a mesma: as pessoas aprendem com seus vizinhos e as interações locais criam comportamentos globais.

É claro que esse é um estudo teórico. Quando se estuda a vida na cidade, logo se descobre que a realidade é sempre mais complexa do que as ideias sobre ela. Se Johnson estiver certo (e, nesse caso, acredito que esteja), essa evolução da Avenida Paulista ao longo da última década – que inclui a criação da ciclofaixa de lazer, da ciclovia no canteiro central e do programa Paulista Aberta – está criando um campo de inteligência (ou seja, de encontros entre pessoas diversas) que pode inspirar o resto de São Paulo o outras cidades pelo Brasil. E estou curiosa para ver o que a inauguração do Sesc trará para essa equação.

*Natália Fontes Garcia é jornalista

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