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Lugar estratégico

Ilustração: Elisa Carareto
Ilustração: Elisa Carareto

*Por Danilo Santos de Miranda
(Diretor Regional do Sesc São Paulo)

 

A aventura humana é uma mescla de ações, crenças e saberes que, a despeito de suas conexões, são encaixadas em categorias mais ou menos arbitrárias. Um dos resultados é uma apreensão fragmentada da realidade, assim como a hierarquização entre tipos de conhecimento: haveria aqueles que, em tese, deveriam interessar a todos, em detrimento de outros, restritos a peritos. Vale a pena considerar o turismo à luz desse panorama.

Quem pensa, atualmente, o turismo? Os milhões de viajantes que, diariamente, rasgam os territórios em busca de algo que seus cotidianos não proporcionariam? Entre monumentos e museus, compras e restaurantes, a impressão é que a experiência turística predominante desestimularia posturas reflexivas, ensejando no seu lugar insistentes referências à sociedade de consumo. Colabora para esse quadro o fato de o turismo estar ligado às ideias de lazer ou tempo livre, ocasiões nas quais o senso comum recomendaria abrandar as pretensões intelectuais.

Assim, é factível supor que o turismo seja pensado principalmente por aqueles que, de um ponto de vista profissional ou acadêmico, tornaram-se especialistas no assunto. Aos demais (ou seja, à imensa maioria), caberia apenas “turistar”.

Entretanto, considerar o turismo um objeto de reflexão permite compreender dinâmicas que vão muito além da atividade turística. Os contrastes socioeconômicos entre os que viajam e os que acolhem, os impactos urbanísticos e ambientais nos lugares de visitação, a reconfiguração dos sentidos de diversidade cultural a partir do aumento dos deslocamentos – esses são alguns dos aspectos que evidenciam a conexão entre pensar o turismo e investigar o mundo em que vivemos.

Jogar luz sobre os dilemas envolvidos nas diversas modalidades do turismo permitiria, nesse sentido, iluminar a contrapelo questões que desafiam a humanidade. Em que medida o contato com outras culturas acentua ou mitiga estereótipos? Quais parâmetros podem balizar as intersecções entre economia e turismo sem que a mercantilização da vida se imponha como inexorável?

Como denominador comum, tais questões exibem sua faceta ética, já que não oferecem respostas prontas – ao contrário, demandam o engajamento dos sujeitos. Afinal, as situações que habitam com especial contundência o terreno da ética são aquelas que, a exemplo das práticas turísticas, podem romper com a aparente transparência do cotidiano e desnaturalizar distâncias e desigualdades.

Nessa seara, estamos duplamente implicados: como turistas e como cidadãos. Portanto, ampliar a discussão sobre o turismo para além dos círculos especializados representa uma maneira de expandir as possibilidades de entendimento e, consequentemente, de intervenção na realidade. Esta edição dos Cadernos Sesc de Cidadania, cujo mote é a ética no turismo, pretende colaborar para isso, reiterando a convicção do Sesc de que leituras transversais do mundo, refutando saberes compartimentalizados, aproximam os indivíduos e os contextos que os cercam.