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Cena do espetáculo “Lênin” do Coletivo núcleozonaautônoma.
Cena do espetáculo “Lênin” do Coletivo núcleozonaautônoma.

Apreciação Crítica do Espetáculo “Lênin” do Coletivo núcleozonaautônoma.
Mostra de Teatro Político no ABC: identidade e resistência.
Apresentação no teatro do Sesc Santo André – 13 de abril de 2018. 

Um ano após a comemoração do centenário da Revolução Russa, o núcleozonaautônoma propõe no contexto do projeto “Teatro Político no ABC: identidade e resistência”, promovido pelo do Sesc de Santo André, um espetáculo intitulado Lenin. A referência ao revolucionário russo, assim como as muitas menções ao contexto brasileiro recente, busca construir uma perspectiva para examinar não apenas as possibilidades de ação e resistência política, mas também a posição do tempo presente em relação à história do país nas últimas décadas.

A conexão entre passado e presente é também um ângulo favorável ao exame da trajetória mesma do grupo teatral, como indica o vídeo de uma encenação do mesmo Lênin em 2009 projetado no fundo da cena. Esses dois momentos, separados por nove anos de história do grupo, correm em paralelo graças aos recursos de encenação e sugerem tanto a retomada do passado pelo presente quanto a persistência das mesmas questões a animar o trabalho teatral. Na construção da cena, a opção do grupo é pelo alargamento da dimensão teatral do espetáculo. Afinado com algumas tendências do teatro contemporâneo, o espetáculo distancia-se daquele teatro centrado no diálogo, de modo a incorporar o espetáculo musical à sua dinâmica. Enquanto uma atriz e um ator protagonizam cenas em torno da militância política e de seus desdobramentos mais violentos, uma banda de rock (voz, bateria e guitarra) assume um papel que vai muito além do mero acompanhamento musical.

A banda se encarrega de situar e comentar as cenas, pautando o andamento do espetáculo e inserindo observações a respeito do contexto político em que se inserem as diversas cenas. Aqueles com alguma familiaridade com o teatro épico, em particular o brechtiano, que acompanha a trajetória de muitos grupos teatrais de esquerda da Grande São Paulo desde os anos 90, perceberão que a banda assume em muitas ocasiões a função de um narrador. Privilegiada por uma perspectiva mais abrangente dos acontecimentos, ela regula as conexões entre a particularidade das cenas e o contexto social e político que as explica, chamando a atenção do público para as implicações mais gerais. Vale mencionar, contudo, que essa perspectiva externa não é privilégio do grupo musical, mas também é compartilhada pela atriz e pelo ator no tratamento de seus papéis.

O posicionamento inicial da banda, assim como algumas estratégias de atuação, confere ao espetáculo do núcleozonaautônoma algumas características próprias a um teatro político de caráter pedagógico. Mas o modo particular como o grupo encaminha esses arranjos também implica diferenças importantes, as quais decorrem de certas decisões tomadas de antemão. É particular ao teatro didático uma certa frieza oriunda da perspectiva distanciada assumida pelos participantes. É esse distanciamento, aliás, que permite o confronto de perspectivas diversas a respeito de situações em cena e posições teóricas e políticas. Desse jogo conflituoso, ao qual o próprio público é convidado como participante interessado, depende o esclarecimento das questões.

Em Lênin, a força sonora da banda, que é desde o início o elemento predominante em cena, pode ser vista como sinal de uma escolha do grupo em potencializar um ponto de vista específico em detrimento da conjugação de perspectivas. Com isso, os recursos épicos trocam de sinal e transformam o palco num mecanismo de reiteração de uma posição política unívoca a respeito da história recente do país. O fato de o vocalista assumir e potencializar constantemente a voz de muitos dos que sofrem com os mecanismos de dominação social, inclusive das personagens em cena, é um sinal dessa escolha.

O enredo montado pelo grupo com um personagem da história política do país vai na mesma direção. O grupo monta uma trama com o intuito de executar no palco um “doutor”, tão ingênuo quanto traidor, presente na militância de esquerda dos anos 1980. Em pouco tempo se esclarece que se trata do ex-presidente FHC. Os episódios são sucintos, mas muito eloquentes a respeito das intenções da peça. Ele ganha de uma militante uma camiseta com a estampa da figura e de frases de Lênin. O pedido de um beijo, que o coloca na posição de assediador, é respondido com um espancamento em cena. Em outro momento, em que se viaja no tempo, ele se vê levado pela polícia para um dos porões da ditadura após ser flagrado em uma manifestação com a camisa de Lênin. Tido como comunista por seus torturadores, ele é executado com um tiro. As implicações da trama para se pensar a política brasileira são várias.

O espetáculo adota o ponto de vista dos que tem sucessivamente sofrido com as forças de direita no país. Para confrontá-las, elege um inimigo e o submete à pior violência que essas mesmas forças promoveram – a tortura e o assassinato. A peça não só sugere que é possível representar por meio de uma única pessoa a barbárie que impera no país há séculos, mas também identifica esse representante num político associado à redemocratização do país. a apresenta isso como um dado, e não como um objeto para discussão. As consequências mais drásticas para a política decorrem, porém, de uma outra escolha do grupo. Ao confrontar o seu inimigo, o grupo mobiliza os recursos à disposição (a própria encenação) com o intuito de submetê-lo à pior barbárie (espancamento e morte). Ao levá-lo a um porão da ditadura para ser executado, o espetáculo não tem como escapar a um mínimo de cumplicidade com os mesmos métodos empregados pela ditadura.

Essas escolhas pressupõem uma guerra entre campos claramente demarcados e elegem a violência como estratégia de resistência e confronto. Salvo engano, o espetáculo é unívoco a esse respeito. Não são apenas as várias vozes em cena que convergem nesse ponto, mas também outras vozes reforçam essa posição ao recorrer enfaticamente a fatos que marcam derrotas da esquerda, do assassinato da vereadora Marielle Franco à prisão de Lula. Por mais que esses fatos exijam reação urgente, o espetáculo não indica outras alternativas além da violência. A agressividade das cenas potencializada pelo som da banda dirigido contra a plateia também não deixa dúvidas. Essa forma de agressividade no palco, contudo, tem uma especificidade. Ela faz mais sentido quando os inimigos estão sentados na plateia. Quando não é esse o caso, o espetáculo reverte-se numa afirmação das próprias certezas, em que todos, atuantes e plateia, são chamados para eliminar o inimigo ausente. Com as sucessivas derrotas da esquerda e a dificuldade de organização dos grupos mais progressistas, caberia perguntar quais são as estratégias capazes de fortalecer uma cultura política democrática. Mas ao escolher métodos de resistência à barbárie que ameaçam arrastá-la para junto da própria barbárie, a peça aproxima-se perigosamente daqueles que ela nomeia como inimigos.

Por Luciano Gatti.

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