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Feito em casa

Foto: Divulgação

 

Criatividade de sobra, tecnologia e conhecimento
acessível impulsionam produção audiovisual e
musical independentes

 

Se, para você, fazer um filme ainda implica uma complexa – e onerosa – produção cinematográfica e gravar um álbum musical pressupõe ser descoberto e contratado por uma gravadora do mercado fonográfico, saiba que as coisas mudaram. Há quem esteja produzindo filmes e lançando seus discos sem muitos recursos e, o melhor, de sua própria casa. Esse é o caso do multi-instrumentista Rafael Castro, que já gravou oito álbuns fazendo a residência de estúdio e tendo microfones – que lhe custaram 20 reais – conectados ao próprio computador. Caminho parecido traçou o cineasta Diego da Costa, que lançou, no último mês, o longa-metragem Os Caubóis do Apocalipse. Rodado em Socorro, interior de São Paulo, a mesma cidade onde o cineasta cresceu, o filme foi realizado com baixo orçamento, tendo a prefeitura, comércio e amigos como colaboradores.

Seja no cinema ou na música, Diego e Rafael são exemplos de artistas de uma geração que se beneficia do desenvolvimento de ferramentas tecnológicas, barateamento de tais suportes, difusão de conhecimento e autonomia criativa. Afinal de contas, quem não quer um estúdio para chamar de seu? “Acredito que para realizar os primeiros filmes, é importante trabalhar com o que se tem ao alcance. Gastar pouco e fazer rápido. Nossos primeiros filmes não serão obras-primas. Como qualquer outro ofício, só se aprende a fazer um filme fazendo um filme”, afirma Diego da Costa. Ele explica que, no cinema independente, é fundamental entender os limites técnicos e econômicos e trabalhar com o que é possível. “Dessa forma, a criatividade surge, não apenas a partir da história que queremos contar, mas das limitações que enfrentamos”, pondera.

Um dos desafios de quem experimenta essa atividade é lidar com a ansiedade e a vontade de já “pôr a mão na massa”. Há também o receio de não atingir o resultado esperado. Para esses casos, Diego ensina que há três coisas importantes: ler muito (romances, poemas, filósofos, contos, histórias, os grandes autores); assistir a muitos filmes, para entender as diferentes técnicas e estilos dos diretores. “E a terceira dica: ninguém é gênio. Ou seja, todos nós estamos aprendendo e não aprendemos sozinhos”, reforça.

Também de maneira independente e “caseira”, o músico Rafael Castro produz seus álbuns. Desde criança, gravava em fita cassete suas experimentações sonoras. “Se você tivesse um aparelho duplo deck e duas fitas, era possível gravar um violão numa fita, passar para o outro deck, e ir gravando por cima na outra fita uma guitarra, uma voz, um batuque”, recorda.

Hoje, com um estúdio montado na própria residência, Rafael segue apostando neste formato de criação artística. “A parte boa de gravar em casa é que não tem hora para acabar e o custo é praticamente zero. Você pode refazer quantas vezes achar necessário, pode testar novas sonoridades, e o melhor é que você tem sua cama e a geladeira há apenas alguns passos de distância”, brinca.

Outro artista que adotou a prática do estúdio caseiro é o cantor e MC Rael. Nascido e criado no Jardim Iporanga, na Zona Sul de São Paulo, MC Rael começou a construir sua história no rap com uma melodia na cabeça e uma pequena estrutura caseira. “Se tenho uma ideia, estou em casa e tenho um home estúdio, equipamentos que gravam profissionalmente, está valendo. Tendo isso em mãos facilita muita coisa”, defende.

 

Foto: Frank Rockita

Narrativas plurais

O acesso cada vez mais facilitado a recursos como câmeras de boa qualidade, softwares e aplicativos de edição de vídeo permite, como consequência, novas perspectivas, o que significa que outros protagonistas são vistos e ouvidos, trazendo diferentes pontos de vista sobre a sociedade. Dessa forma, registrar o que se vê e onde se transita em narrativas audiovisuais ou em letras de música também é falar de si, do seu território e do cotidiano, sem intermediários.

“O ato de olhar, um olhar criativo e crítico do que se observa, o que enquadrar e como enquadrar, isso revela a capacidade de todos nós de autorrepresentação. Esses registros espontâneos em primeira pessoa, como uma câmera subjetiva, podem revelar desde coisas mais ordinárias do dia a dia da cidade, até situações de denúncias, luta por direitos, provas de violações de direitos humanos e, principalmente, leituras de mundo pelas próprias pessoas que vivem as realidades registradas, com um ponto de vista único e afetivo”, observa Eduardo Consonni, documentarista e educador.

Cofundador e um dos diretores da produtora Complo^, Consonni vem desenvolvendo metodologias de ensino utilizando o audiovisual, com foco na investigação do cotidiano, a exemplo da oficina que ministrou no mês passado no Sesc Pompeia, Vídeo e Fotografia em Celular Como Ferramenta de Formação do Olhar. A oficina mostrou, como caso de estudo, o documentário Escolas em Luta (2017), que foi realizado em 2015, durante as ocupações nas escolas, pelos protagonistas da ação, os estudantes secundaristas, usando câmeras de celulares.

“Neste momento de democratização digital e dos meios de veiculação da informação, temos que usar esses recursos para fortalecer a produção de narrativas sobre o mundo em que vivemos”, acredita o documentarista Rodrigo T. Marques, que também é sócio da Complô. “Os jovens nasceram dentro dessa realidade digital e em rede virtual, eles já têm interesse e utilizam de forma empoderada todos os recursos que um celular e a rede oferecem, e assim criam diariamente vídeos com narrativas próprias.”

 

Foto: Divulgação

Juntos e em rede

Outro benefício destacado por quem se dedica à produção independente é o potencial de conectividade, isto é, a possibilidade de reunir artistas por meio da internet, capacitando-os e abrindo espaço para novos nomes no cenário musical, fotográfico e de produção artística. Foi o que aconteceu em Piracicaba, no interior paulista, com o projeto Músicos Conectados, idealizado pelo Espaço de Tecnologias e Artes do Sesc na cidade.

A iniciativa possibilitou atividades práticas de gerenciamento, desenvolvimento e manutenção de uma rede projetada em software livre para integrar e aproximar músicos de Piracicaba. Centenas de pessoas já passaram pelo local em atividades de captação fotográfica, audiovisual, produção de material gráfico, gestão de redes sociais e apresentações experimentais.

Nesse cenário em que ferramentas e informação estão ao alcance de todos, o músico Rafael Castro aconselha ter paciência e sede de conhecimento. “Quando a gente faz o que a gente ama, não existe essa de equipamento bom ou ruim. O que vale mesmo é entender a lógica de como produzir uma canção, as ferramentas básicas e depois é enfiar a cara e sair fazendo”, diz. “Hoje as informações estão todas acessíveis, só depende de curiosidade e dedicação diária”, arremata.

 

Foto: Juka Tavares e Thany Sanches

“A parte boa de gravar em casa é que não tem hora para acabar e o custo é praticamente zero”
Rafael Castro, músico

Foto: Diego da Costa

“Acredito que para realizar os primeiros filmes, é importante trabalhar com o que se tem ao alcance. Gastar pouco e fazer rápido”
Diego da Costa, cineasta

 

Para seguir os passos

 

SEJA NA CENA MUSICAL, seja no CINEMA, artistas provam que
é possível criar com poucos recursos e de maneira independente


Gravar uma canção ou fazer um filme tendo como suporte apenas um celular à mão não é mais algo excepcional. Pelo contrário. Novos gadgets, aplicativos, softwares, bem como cursos, palestras e oficinas (veja boxe 1, 2, 3… Valendo) provam que essas expressões artísticas estão ao seu alcance. Confira alguns nomes da música e da cena audiovisual para se inspirar:

 

MÚSICA

Silva

Antes de ganhar prêmios como o da Associação Paulista de Críticos de Artes (APCA) de Melhor Cantor em 2012, o cantor capixaba Silva compunha e produzia em casa. Uma carreira que deu os primeiros passos assim que ele voltou, em 2009, de uma viagem à Irlanda, com equipamentos e outros suportes para instalar onde morava. Sobre essa época, o músico disse em entrevistas que gravar em casa é trunfo da sua geração. Afinal de contas, complementou o músico, antes era preciso “juntar uma grana e ir para o estúdio”.


Rincon Sapiência

Nascido na Cohab I em Itaquera, Zona Leste de São Paulo, Danilo Albert Ambrosio, o Rincon Sapiência, começou a gravar em casa este que se tornaria o disco de rap mais premiado de 2017: Galanga Livre. Para chegar ao resultado deste primeiro álbum, Rincon disse, na época, que tinha uma pasta com 50 faixas inéditas. Dessas, ele “peneirou” dez para fazer parte da produção do disco.

 


CINEMA

Jamille Fortunato

Exibido e premiado em vários festivais, entre eles o Festival É Tudo Verdade de 2015, o curta-metragem Cordilheira de Amora II (2014-2015), da cineasta baiana Jamille Fortunato, foi gravado com celular e uma handCam, na Aldeia de Amambai, no interior de Mato Grosso do Sul. No documentário, a história da índia Guarani Kaiowá Carine Martines, 9 anos, que vive na vila indígena de Amambai e transforma seu quintal em um experimento do mundo. Na época da gravação, a cineasta frequentava a comunidade para ensinar os moradores a fazer cinema com o celular.

Frank Mora

A exemplo de Tangerine (2015), do diretor norte-americano Sean S. Baker, Charlote SP (2016) foi o primeiro filme nacional a ser gravado com um smartphone. O mesmo aparelho que o diretor Frank Mora usa todos os dias. Imagens e áudio foram captados pelo aparelho celular para contar a história de Charlote (Fernanda Coutinho), uma modelo internacional, filha de um empresário milionário, que, após anos morando fora do país, volta a São Paulo para se reconectar com a cidade e com a própria vida. O filme chegou a ser exibido em várias salas de cinema do país.

 

1, 2, 3… Valendo!

 

Oficinas, cursos e vivências relacionadas à produção audiovisual e musical estão na programação deste mês nas unidades do Sesc. Atividades ministradas por profissionais das áreas das artes visuais, do cinema e da música que visam capacitar e instrumentalizar os participantes.

“Aqueles que não possuem conhecimento, equipamentos ou desejam encontrar pares para construir coletivamente projetos e experimentações, podem encontrar nos Espaços de Tecnologias e Artes um ambiente propício para aprendizados e práticas”, explica o assistente técnico da Gerência de Artes Visuais e Tecnologia do Sesc São Paulo Gustavo Torrezan.“Nos ‘ETAs’, como carinhosamente chamamos, acontecem dinâmicas propícias para aprender, inventar e criar por meio de cursos, oficinas e de uma infraestrutura que conta com câmeras de foto-vídeo, computadores para edição de imagem e vídeo, refletores de filmagem, microfones, entre outros dispositivos.”


Além disso, o Espaço de Tecnologias e Artes da nova unidade do Sesc Avenida Paulista, inaugurada em abril, possui um estúdio multimídia equipado para cursos e oficinas e também para experimentações de vídeo, som e imagem.

 

Curso de Produção Musical
Sesc Presidente Prudente (até 25/5)

Ao aprenderem sobre o cenário musical atual, os participantes produzem e finalizam uma música colaborativamente, utilizando gravações, sintetizadores e samplers, assim como técnicas e práticas de mixagem e masterização. As aulas são ministradas por Gabriel Naro.

Câmera-Olho!
Sesc São Caetano (de 2/5 a 20/6)

Neste curso, Bruno Rico propõe uma introdução ao audiovisual, exercitando as principais práticas que envolvem a produção de filmes e vídeos. Desde a pré-produção, passando pela gravação, até a pós-produção (usando o software Premiere).

Produção Audiovisual para Web
Sesc Birigui (dias 29 e 30/5)

Ao unir teoria e prática, a oficina com Felipe Parra apresenta os principais mecanismos para a produção de conteúdo audiovisual para a internet com qualidade e criatividade. Os alunos aprenderão sobre interação em diferentes plataformas, roteiro, direção de arte, iluminação, gravação e edição.

Discotecagem com Vinil e Turntablism – tecnologias analógicas
Sesc Avenida Paulista (de 6 a 27/5, exceto dia 20/5)

Nesta vivência prática com o DJ ErryG, será possível conhecer a arte dos toca-discos por meio do manuseio de vinis e tecnologias analógicas. Os participantes vão aprender sobre marcação de tempo, pontos e trechos de músicas que serão mixados por meio de performatividade da discotecagem.

Documentando o Centro: práticas de minidocumentário
Sesc 24 de Maio (até 27/6)

Com o diretor e roteirista argentino Emiliano Goyeneche, os participantes aprenderão a documentar audiovisualmente a vida do Centro de São Paulo, partindo da premissa de que qualquer cidadão tem a capacidade de criar um produto audiovisual. Tendo o centro da cidade, assim como seus habitantes e frequentadores, como cenário principal, o curso busca realizar, ao final, um minidocumentário, que será feito pelos participantes.

Criação de vídeo para artistas e curiosos
Sesc Avenida Paulista (dias 5, 12, 19, 26/6)

Neste curso com o artista visual e cineasta Cesar Meneghetti serão compartilhados conhecimentos práticos da gramática e da linguagem audiovisual com foco no uso dos sistemas digitais de captação e edição de imagem para a produção de trabalhos experimentais em artes visuais.

Microdocumentários
Sesc Bom Retiro (de 6 a 28/6)

Ministrada pelo educador Leonardo França, essa oficina é voltada para a criação e a produção de microdocumentários: curtos projetos que exploram a linguagem cinematográfica para investigar e conectar acontecimentos e pessoas. Os participantes terão contato com técnicas de produção audiovisual, fotografia, edição de vídeo e áudio.

Do roteiro à edição – Como fazer um curta-metragem
Sesc Consolação (até 26/7)

Voltado ao público jovem, esse curso ministrado por Bruno Carneiro vai ensinar os principais conceitos e técnicas do audiovisual por meio da realização de um curta-metragem. Com a orientação de profissionais de direção, roteiro, fotografia e edição, os alunos aprenderão cada etapa da produção audiovisual.

 

 

 

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