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Não sou turista, eu moro aqui!

Ilustração: Elisa Carareto
Ilustração: Elisa Carareto

*Por Thiago Allis

Vivemos em um mundo crescentemente urbano: para além da forma cidade, é preciso reconhecer que as rotinas pessoais, institucionais e produtivas já se ancoram em lógicas essencialmente urbanas. Urbano também é o turismo, não importando se as práticas turísticas se dão apenas em cidades, já que promovemos nossos modos de ser urbanos ao nos deslocarmos de Paris a Mamirauá ou de Xangai ao Serengueti...

Nas últimas décadas, assim como o processo de urbanização vai alcançando cifras imparáveis (hoje cerca de 54% dos habitantes da Terra vivem em cidades), também viajamos cada vez mais: em 2017, sem contar os fluxos domésticos, o número de viagens internacionais ultrapassou 1,3 bilhão. Se voltarmos às origens do turismo moderno, como expressão de fuga de cidades insalubres e deformadas pela industrialização, não deixa de ser irônico que, atualmente, boa parte dos fluxos turísticos busquem ambientes urbanos (grandes e conhecidas metrópoles globais, novos e viçosos centros urbanos, pequenas cidades históricas, urbanizações à beira mar, etc.).

Ocorre que, se por um lado, comemoramos a entrada de um número crescente de pessoas no universo das mobilidades turísticas – que alguns arriscam chamar de “democratização do turismo” –, por outro, deparamo-nos, com frequência cada vez maior, com tensões e preocupações relacionadas à escala que este fenômeno assume – especialmente no que se refere aos encontros entre comunidades visitadas e hordas de forasteiros. Tanto é assim que, ao longo dos últimos anos, emergiram movimentos de resistência ao turismo como resposta à saturação em determinadas localidades (especialmente europeias) – fenômeno que vem sendo chamado de “turismofobia”.

Assim, é urgente pensar e discutir a participação do turismo nos processos urbanos contemporâneos, inclusive porque o turismo cresce nos e dos vários quadrantes do globo e se coloca como pauta prioritária para muitas comunidades ora entusiasmadas, ora assustadas com as transformações decorrentes da atividade.


* Thiago Allis é professor da Escola de Artes, Ciências e Humanidades da Universidade de São Paulo, com atuação junto ao Bacharelado em Lazer e Turismo e ao Mestrado em Turismo. Possui graduação em Turismo, mestrado em Integração da América Latina e doutorado em Arquitetura e Urbanismo pela USP. Suas pesquisas tratam principalmente de temas de mobilidades e turismo, com destaque para questões urbanas contemporâneas

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Sobre o Seminário

O "Seminário Internacional Turismo e Direitos num Mapa de Contradições” acontece entre os dias 12 e 13 de Junho, no Sesc 24 de Maio, propondo uma reflexão sobre a democratização do acesso e os impactos das práticas turísticas.

Conversamos com Thiago Allis, que irá mediar uma das mesas do evento intitulada "“Não sou turista, eu moro aqui” — dilemas do direito à cidade", para nos contar um pouco mais sobre este tema:

O seminário, que compõe as ações comemorativas aos 70 anos do Turismo Social no Sesc em São Paulo, pretende investigar as relações entre turismo e direitos humanos, partindo da percepção já mundial de que se trata de um panorama com graves desequilíbrios. Estão previstos no Seminário debates sobre o significado de desenvolvimento (já que frequentemente a atividade turística é defendida como proposta de prosperidade para os municípios); sobre as políticas de inclusão ou exclusão dos públicos no turismo; sobre os conflitos causados pelo exercício do turismo com relação ao direito dos moradores a suas cidades; sobre os processos que acentuam diversas vulnerabilidades sociais a partir da atividade turística. Para refletir sobre esses temas o seminário recebe estudiosos do Chile, Argentina, Espanha, Austrália, Canadá, México e do Brasil.

As vagas para o Seminário estão esgotadas, mas quem não conseguiu se inscrever ainda pode participar das atividades associadas que estão com inscrições abertas.

Saiba mais em sescsp.org.br/turismoedireitos

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