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Você se lembra da tragédia de Mariana?

Cena da peça Hotel Mariana, que traz relatos dos sobreviventes da tragédia (Foto: Allan Bravos)
Cena da peça Hotel Mariana, que traz relatos dos sobreviventes da tragédia (Foto: Allan Bravos)

A peça Hotel Mariana, com sessão única no Sesc São José dos Campos, coloca a tragédia no palco para não nos esquecermos dela

Em 15 de novembro de 2015 rompe a barragem em Mariana. Uma semana depois do rompimento, Munir Pedrosa, idealizador do projeto Hotel Mariana, foi até o local colher relatos de sobreviventes da tragédia. No total foram 40 histórias. A ideia da peça surgiu a partir daí. Em um formato de teatro-documentário chamado verbatim, que ao pé da letra significa "palavra por palavra", o espetáculo reproduz os depoimentos das pessoas na íntegra. Com fones de ouvidos, os atores escutam o texto e nos contam, respeitando os jeitos, sotaques e linguagens de cada uma delas.

O diretor do espetáculo, Herbert Bianchi, conversou com a EOnline.

Por que Hotel Mariana?


Foto: Custódio Coimbra

Ao chegar em Mariana, Munir Pedrosa encontrou os atingidos pelo desastre aguardando em pousadas e hotéis, todos relegados a uma existência de espera, colocados temporariamente em um "não-lugar", um lugar impessoal e vazio. Esse cenário deu o tom da montagem e inspirou a escolha do título. Por isso, na peça, as vítimas foram agrupadas em um único lugar, fictício mas hiper-real, o "Hotel Mariana".

A escolha pelo formato verbatim, reproduzindo fielmente o texto, é bastante particular. Por que essa escolha ao invés de uma montagem tradicional?

No verbatim, de repente, somos flagrados pela presença do outro, com suas hesitações, seus fracassos, suas alegrias, seus anseios, seus dramas e suas tragédias, em um belíssimo exercício formativo. As falas são impregnadas de uma performatividade muito própria, sem abrir mão da ludicidade inerente ao mundo do teatro, construindo com potência a noção de alteridade. Acreditamos que a técnica verbatim, por reproduzir os depoimentos de forma literal, daria conta de transpor para o palco toda a potência desses depoimentos garantindo que a mensagem original seguisse inalterada e permitindo colocar em cena os desdobramentos de um acontecimento muito recente. Com o verbatim, sentimos que o teatro cumpre uma vez mais seu papel transgressor, convidando os atores a transformarem a escuta de um áudio na emergência de uma energia vocal reprimida duramente pela vida social e convidando também a plateia a entender a necessidade vital que a voz humana tem de tomar de fato a palavra.


Foto: Custódio Coimbra

Como foi o trabalho com os atores para interpretar as particularidades de cada uma das pessoas retratados?

Os atores foram treinados para encontrar e manter um profundo estado de presença, de atenção, abrindo a escuta para os sons que iriam receber e permanecendo ativos para os impulsos físicos que pudessem surgir. A tarefa era tentar reproduzir cada depoimento da forma mais fiel possível, aproximando-se ao máximo de cada voz, levando em conta a cadência, a intensidade, a altura, o timbre, as falhas e a prosódia de cada pessoa entrevistada.

O cenário e a iluminação são bastante minimalistas, de modo que o foco recai principalmente sobre o trabalho do ator. Por que essa escolha da direção? O que se esperava ao fazê-la?


Foto: Custódio Coimbra

A montagem é predominamente estática porque os atingidos pelo desastre são representados como parte da cenografia de lama endurecida, isto é, tornam-se um dos inúmeros objetos fossilizados pelo barro e incrustados nas paredes do cenário. Tudo na peça remete à paralisia. Como o velho mestre da Folia de Reis que andava quilômetros e agora mal pode se mexer, sentado na cama de um hotel em Mariana, aguardando uma salvação que nunca virá. Depois do desastre, a vida se petrificou. As pessoas foram relegadas a uma existência de espera. A encenação procurou dar conta desse sentimento.

"Contar a história para que ela seja lembrada" - Qual a importância do teatro documentário dentro da dramaturgia? Qual, na opinião de vocês, é a diferença de alcance/ poder/ potência de um documentário no teatro e em filme?

O nosso papel como dramaturgos foi o de selecionar os depoimentos mais representativos dessa terrível tragédia e entrecruzá-los a fim de tecer uma narrativa, sempre a partir do real, mas que desse conta de transmitir toda a complexidade da situação em um panorama inédito. Esse recorte acabou por revelar um quadro complexo e delicado que ultrapassou a tragédia anunciada e mergulhou em questões sociais, políticas e históricas fundamentais para se compreender as contradições do nosso país. A potência de um documentário, seja no teatro ou no cinema, depende da maneira como os autores vão abordar o material documental. Essa abordagem, quando feita de forma ética, profunda e sensível, a serviço de uma conscientização social, tende a gerar um documentário potente.

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