Sesc SP

Matérias do mês

Postado em

Guizado celebra dez anos de carreira com shows no Sesc Avenida Paulista

Guizado tocando no Sesc Avenida Paulista | Foto: Carol Vidal
Guizado tocando no Sesc Avenida Paulista | Foto: Carol Vidal

Em 2008, Guizado lançava seu disco de estreia Punx. Foi com esse trabalho, cheio de hibridismos e sonoridades inusitadas, que o artista ganhou prestígio na cena musical paulistana. Agora, uma década depois, ele revisita o álbum no palco do Sesc Avenida Paulista, para duas apresentações nos dias 19 e 20 de julho.

A EOnline conversou com o trompetista sobre essa experiência. Confira.

EOnline: O que você estava ouvindo em 2008 que você acha que pode ser reconhecido na sonoridade de Punx?
Guizado: Em 2008, me lembro que ouvia muito produtores de música eletrônica, mais ligados ao hip-hop, artistas como Prefuse 73, Daedelus, Dimlite, esses produtores sabiam misturar uma certa dose de experimentalismo com o hip-hop e até mesmo a música pop, foi quando me interessei em usar as possibilidades dos recursos eletrônicos aliados a uma banda orgânica, foi um desafio conseguir harmonizar densas camadas de programações eletrônicas junto a uma banda completa, combinar baterias eletrônicas com a bateria acústica, melodias de sintetizadores junto às guitarras... foi um verdadeiro desafio!
Como trompetista, Miles Davis sempre foi uma referência, sua fase mais elétrica dos anos setenta me influenciou bastante nesse período.
Foi também uma época em que descobri muitas possibilidades de processamento do som do trompete, de certa forma, fazendo seu som soar como uma guitarra. Miles Davis, nos anos setenta, descobriu o som de Jimi Hendrix, e pode-se notar em alguns discos de Miles que ele tenta fazer seu trompete soar um pouco como Hendrix. Acho que eu também segui esse caminho, da minha maneira.

Outro trompetista que muito me influenciou foi Rob Mazurek, que possui uma forma de tocar bastante pessoal. Aprendi muito com ele a respeito das possibilidades de manipulação do som do trompete através de pedais, processadores e moduladores de frequência. Me fascinei com as possibilidades de fazer o som do trompete soar como se fosse um outro instrumento, uma outra voz.

Outra faceta sonora importante nessa época, foi que passei a resgatar sons que ouvia na adolescência, bandas que faziam um som pop, carregado de sintetizadores e programações, como Depeche Mode, New Order, Human League. Foi também, um período em que me apaixonei pelos sons dos sintetizadores analógicos do anos sessenta e oitenta.

Além, disso, por volta de 2008, descobri toda uma cultura musical baseada nos sons de games, essa cultura é muito forte, principalmente no Japão, e eu consegui, através de um site alemão chamado nanoloop, comprar um cartucho que transformava aquele antigo Game Boy em um sequenciador de batidas e sintetizadores. Essas sonoridades 8 bits, de baixa resolução foi o que caracterizou todas as programações de bateria eletrônica do disco, o que deu uma sonoridade suja e peculiar as batidas eletrônicas do disco.

EOnline: O que você está ouvindo hoje, 10 anos depois?
Guizado:
Sempre ouvi uma miríade de sons bastante vasta, desde os grandes mestres do Jazz, que sempre estarão presentes em minhas audições, como Miles Davis, Lee Morgan, Freddie Hubbard, Marcio Montarroyos, Raul de Souza, Bocato. Além de outros mestres mais obscuros como Charles Tolliver e Bill Dixon, músicos como esses são minhas referências ao buscar um som para o trompete, assim como seus fraseados, melodias e ideias de improvisação.

Já como compositor e produtor, tenho buscado inspirações em antigas bandas punks como Magazine, Certain Ratio, Pylon, bandas do rock alemão dos anos setenta como Can, Faust., assim como gang of four, Pil, Roxy music.
São diversas facetas e muitos estilos musicais diferentes, tenho ouvido também um pouco de rock progressivo desde os mais famosos como Yes, Deep Purple, Pink Floyd, aos mais obscuros como Van der Graaf generator,Gong.

O desafio, está em combinar estas diferentes influências, aonde cada uma contribui à sua maneira, resultando em uma música bastante pessoal, aonde toda essa vasta gama de sons, passam a fazer sentido, e se completam.

EOnline: De que forma o álbum Punx dialoga com o universo urbano de São Paulo?
Guizado: As densas camadas sonoras, as programações eletrônicas pesadas e interessantemente sujas, contrastando com o lirismo do trompete e as harmonias das guitarras criam uma paisagem que retrata muito a cidade de São Paulo. É como se a dura base rítmica eletrônica fosse o asfalto, os prédios, o concreto, e as harmonias e melodias representassem o lado humano, das pessoas que pelo asfalto transitam, que nos edifícios habitam, todas com seus sonhos, medos, amores, alegrias e solidão.

EOnline: Escolha 3 faixas do álbum. Quais situações/cenas urbanas de São Paulo essas faixas funcionariam como trilha-sonora? Descreva o que vem à sua mente.
Guizado: Como primeira faixa, gostaria de citar Vermelho, compus essa música pensando na agitação noturna da cidade, pessoas andando por todos os lados, as luzes noturnas da cidade, os carros reluzindo pelas ruas, bicicletas, skates, a efervescência das ruas.

Outra faixa que gosto muito é Areias, essa música me traz uma sensação de sonho, o sonho de algum lugar distante, um certo anseio de se conectar com algo místico talvez, o mistério, um sentimento que todos que vivem em cidades grandes já sentiram... o saudosismo pela simplicidade das coisas essenciais, uma saudade do que ainda não foi.

A terceira a ser citada é Orbitas, uma das músicas mais intimistas do disco, fala de solitude, ficar bem consigo mesmo, é uma música que me traz calma, se recolher em sua casa, fazer um chá, contemplar a vista pela janela, vendo as pessoas passando, na distância.

EOnline: Quais sensações você tem ao tocar ao álbum 10 anos depois? O que é diferente do Guizado de 2008 para o de 2018?
Guizado: Tocar esse álbum hoje, é meio que voltar no tempo, reconectar minha mente com as influências da época, estou reprogramando várias músicas, sempre sendo fiel a sonoridade original, e por conta disso, estou voltando a ouvir intensamente o disco, é interessante.

Durante os ensaios, todos nós da banda, estamos percebendo que é um disco complexo de ser executado, foi feito muita pesquisa na época para conseguirmos executar a combinação dos elementos eletrônicos e orgânicos, e hoje, estamos nos desafiando novamente, encontrando novas formas de executar o disco, o que torna esse trabalho bastante estimulante, pois não faria sentido tocá-lo exatamente como era tocado nos shows da época. Mas, por outro lado, estamos tendo todo o cuidado de respeitar as características primordiais do disco. 

Acho que, de 2008 pra cá, amadureci bastante como músico, trompetista e compositor. Porém o mais interessante, é perceber que apesar da evolução, foi mantida uma coerência na concepção essencial do trabalho.
Esse disco abriu as portas para o meu caminho como artista e compositor, por isso gosto muito dele. Foi muito importante na minha carreira, pude mostrar muito da minha personalidade, compartilhar uma visão de mundo. E neste ano de 2018, estou lançando meu quinto disco: O Multiverso em colapso. E apesar de toda uma série de mudanças na forma de compor e produzir, a essência do Punx está ali, pode ser notada nos timbres, na intensidade sonora, no lirismo. 2018 está sendo um ano emblemático e especial, por poder vivenciar o presente e o passado através da música.

Outras programações