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Um mar de gigantes: Bate-papo reúne principais nomes do surfe mundial no Sesc Avenida Paulista

Carlos Burle e Rodrigo Koxa, surfistas de ondas gigantes
Carlos Burle e Rodrigo Koxa, surfistas de ondas gigantes

No dia 13/9, três dos principais surfistas de ondas grandes do mundo estarão no Sesc Avenida Paulista para bater um papo com o público sobre a relação do turismo com o esporte, na atividade De Saquarema a Nazaré: Surfe, história e turismo. São eles: Rodrigo Koxa, responsável por surfar a maior onda da história, medindo 24,38 metros; Carlos Burle, atleta pioneiro no Brasil e campeão do primeiro campeonato da categoria, em Todos os Santos, no México (1998) e Lucas Chumbo, considerado pela World Surf League (WSL) o melhor surfista de ondas grandes do mundo atualmente.

A Eonline conversou com Koxa e Burle sobre os desafios e prazeres do esporte, além dos possíveis caminhos que o surfe pode seguir no Brasil, levando em conta as questões estruturais e o incentivo ao esporte, que atualmente só cresce.


EOnline:  Como é ser surfista no Brasil? O esporte tem crescido e se popularizado ultimamente. O que você acha que ainda falta para que mais pessoas acompanhem o surfe?


Koxa:  Ser surfista no Brasil é muito bom, pois temos uma costa enorme para explorar e praticar nosso esporte. Contudo, no Brasil, por ser um país com dimensões continentais, nem todo brasileiro tem contato com o nosso litoral, e isso acaba por não disseminar o surfe como o futebol, por exemplo. Para mais pessoas terem contato com o esporte, talvez fosse necessário mais exposição nas grandes mídias, o que vem acontecendo gradativamente hoje em dia.

Burle:  Atualmente, ser surfista no Brasil é bom. Nas competições, temos mais pessoas na disputa, porque o Brasil hoje se tornou um grande celeiro de excelentes atletas, somos a nação número 1, então também existe uma responsabilidade muito grande. 
O que falta é realmente criar categorias de base, clubes estaduais, interestaduais, para que as novas gerações venham mais bem preparadas em todos os sentidos: fisicamente, emocionalmente e psicologicamente. Assim o surfe poderia se transformar em algo cultural, em que o valor dessa cultura seja transmitido de várias formas, principalmente no âmbito educacional. Porque nenhum esporte vive só de ídolos. O esporte só tem uma relação muito positiva na sociedade quando ele transforma o indivíduo.

E: Como você decidiu que seria um surfista de ondas gigantes?


K: Desde os meus 12 anos de idade já participava de competições. Sabia que queria ser surfista profissional, mas ainda não estava me sentido satisfeito. Foi quando, aos 14 anos, li uma reportagem numa revista de surfe sobre Big Riders, que eram surfistas que viajavam o mundo atrás das grandes ondulações. Fiquei fascinado com aquilo e decidi que aquela seria a minha profissão. Com 15 anos de idade eu estava sentado na frente dos meus pais tentando convencê-los que aquela era a minha vocação. Depois disso eu comecei a viajar o mundo para apreender a surfar ondas grandes e me tornar um Big Rider.

B: Eu decidi ser surfista de ondas gigantes naturalmente. Na minha época não tinha campeonatos, patrocinadores e muito menos circuitos. Não existia uma profissão, então a gente criou isso. Com amor mesmo, gostando de superação, de adrenalina e aprendendo a evoluir com essas ferramentas. Porque pessoalmente sempre foi muito prazeroso pra mim evoluir nesse meio.


E:  Você já se machucou?  Como é a preparação para surfar ondas gigantes? Já teve medo de entrar no mar e abandonou alguma competição?

K: Sim, eu já me machuquei algumas vezes durante estes anos. A preparação para surfar ondas grandes precisa ser física e mental, sempre buscando estar atualizado com os melhores equipamentos também. Já senti medo, mas nunca abandonei nenhuma missão, procurando sempre meu espacinho dentro do universo que é o oceano.

B: O surfista de ondas grandes tem que ter um preparo cardiovascular muito forte, principalmente quando o quesito é remar, porque a gente rema na maioria do tempo. Precisa ser um cara forte e ao mesmo tempo alongado para ter as articulações protegidas, além de todo o preparo psicológico. Porque não adianta você ter força, preparo, chegar na hora H e não ter cabeça. Eu já me machuquei algumas vezes, já andei de ambulância três vezes e não é nada agradável.
Nunca passei por uma situação em que tive que abandonar a competição pelo tamanho do mar. Eu sempre tive o foco em evoluir profissionalmente por meio das competições. Inclusive, a nossa profissão é assim: você tem que estar muito bem preparado nos 365 dias do ano, porque você nunca sabe quando o mar vai chamar.

 

E: Qual o sentimento que aflora no momento da descida de uma grande onda?

K: Êxtase, plenitude... É o momento em que o presente é a coisa mais importante do mundo.


E:  Pouca gente sabe que o surfe também é um esporte coletivo. Conte um pouco sobre a sua equipe e o trabalho feito em conjunto para chegar às competições.

K: O surfe de ondas grandes é um esporte totalmente coletivo. Enquanto eu surfo, tenho vários parceiros olhando por mim, para me puxar e me resgatar da melhor maneira possível, assim como enquanto eles surfam, eu sou um dos que fazem a mesma coisa para eles. Nossa equipe precisa de muitas horas de treinos para estarmos alinhados e confiantes, em busca do objetivo de surfar as maiores ondas do mundo. Este treino traz a confiança necessária para os dias especiais.

B: O surfe de ondas grandes trouxe pra gente o cenário de trabalhar em equipe e isso foi muito bom. Na minha vida foi um turning point. E isso as pessoas não entendem, né? Que existe uma equipe fora d’água: os socorristas, treinadores, preparadores, e também assessores, managers

Hoje em dia eu sou treinador do Lucas Chumbo, que é considerado o melhor surfista de ondas grandes do mundo pela World Surf League. A gente tem um trabalho em equipe, em que treina em todas as condições. Por isso, é muito importante você poder ter acesso a profissionais de alto nível na equipe durante os treinos para que você possa ter confiança em quem está resgatando, em quem está te puxando...

 

E: Qual a grande diferença entre a estrutura turística e esportiva de Saquarema (BRA) e Nazaré (POR)?


K: Estive em Saquarema pela primeira vez este ano e fiquei surpreendido com a estrutura turística voltada ao surfe que encontrei lá. A cidade me pareceu muito com Nazaré, por conta desta atmosfera do esporte. Os governantes locais conhecem o diferencial para a prática do surfe naquele local e investem na modalidade da melhor maneira possível. Eu pude perceber o quanto o surfe de ondas grandes modificou a cidade de Nazaré nos últimos cinco anos. Estive lá pela primeira vez em 2013, em pleno inverno europeu, e a comunidade local era apenas de poucos moradores e alguns poucos surfistas de ondas grandes. De lá para cá, tudo mudou. Nazaré passou a ser roteiro turístico de Portugal e a cidade mantem o movimento de viajantes durante o ano todo. A população de surfistas também cresceu consideravelmente, inclusive a cidade passou a sediar uma das etapas do evento de ondas grandes da WSL (World Surf League). Sinto-me muito feliz em ver o crescimento deste local, que abriga as maiores ondas deste planeta.

B: As ondas de Saquarema são grandes, mas as ondas de Nazaré são enormes. A gente está falando de um país de terceiro mundo e de um país de primeiro mundo, então tem aí um gap muito grande, muito mesmo. É lógico que o Brasil não tem como principal atrativo o turismo e em Portugal, essa é uma das principais ferramentas da economia local e, consequentemente, a estrutura é bem melhor do que a que a gente encontra aqui em Saquarema.

 

E: Existem cidades brasileiras com ondas gigantes?


K:  Existem outras cidades brasileiras que podemos encontrar ondas grandes, como Jaguaruna e Praia do Cardoso em Santa Catarina, dentre outras. Mas ondas gigantes são poucos os locais no mundo que comportam estas condições e Nazaré é o maior deles.

B: Olha, ondas gigantes aqui no Brasil, a gente não tem. Tem ondas bem grandes, mas gigantes mesmo, como em Nazaré, não temos. Existe um fator geográfico muito positivo para que ondulações como as da cidade portuguesa aconteçam. O Brasil não tem essas condições, ele fica no sentido contrário dessas grandes ondulações. 

 

Rodrigo Koxa
Nascido em Jundiaí (SP) e radicado no Guarujá, é surfista profissional, atual vencedor do prêmio Quiksilver XXL Biggest Wave, no Big Wave Awards, da World Surf League (WSL) e detentor do Guinness World Record com a maior onda surfada no mundo, que mede 24,38 m (08 de novembro de 2017 em Nazaré, Portugal).

Carlos Burle
Nascido em Recife (PE), é pioneiro do surfe de ondas grandes no Brasil e campeão do primeiro campeonato de ondas grandes, em Todos os Santos, no México (1998). Em 2017, encerrou oficialmente sua carreira nas competições como o atleta mais velho do circuito mundial de Ondas Grandes, Big Wave World Tour.

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