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Navegantes do conhecimento

Um dos maiores canais do YouTube prova que conhecimento e entretenimento podem ser parceiros e arrebatar um grande público. Criado de maneira despretensiosa em 2008, quando o casal formado pela terapeuta ocupacional Mariana Fulfaro e pelo jornalista e programador Iberê Thenório gravou os primeiros vídeos no apartamento de 35 m², o Manual do Mundo decolou. Neste ano, ganhou o certificado do Guinness World Records como o canal de Ciência e Tecnologia em língua portuguesa com o maior número de inscritos: dez milhões. Uma “tarefa hercúlea”, como descreve Thenório, que, junto à sócia e esposa, aposta no potencial da internet para o compartilhamento de informações relevantes para o dia a dia e para a vida de crianças, jovens e adultos. Sobre desafios na curadoria de temas e vida de youtuber, a dupla ainda compartilha um pouco da experiência acumulada nessa jornada audiovisual, que já dura uma década. Eles também adiantam: o segundo livro – Dúvida Cruel – deve ser lançado até o final do ano.

 

 


Vida de youtuber

Iberê Thenório – Eu estudei jornalismo na USP [Universidade de São Paulo] e a Mari estudou terapia ocupacional lá. Antes do Manual do Mundo, nós já trabalhávamos com sites. Fui programador durante a faculdade, trabalhei lançando portais: às vezes eu programava o site e também produzia o conteúdo, porque estava cursando jornalismo e fazia as duas coisas. Quando a Mari estava se formando em terapia ocupacional, resolvemos usar nosso conhecimento de internet para dar uma turbinada na carreira dela.

Criamos um blog de terapia ocupacional em que a Mari escrevia histórias do dia a dia, inspiradas no Drauzio Varella, e dava dicas de saúde já um pouco nessa linha do que é o Manual do Mundo. O site deu certo e a levou a ser convidada para dar palestras. Se você procurasse terapeuta ocupacional no Google, a Mari era a primeira que aparecia. Já o meu TCC [Trabalho de Conclusão de Curso] na faculdade foi um blog com experiências de audiência: como funcionavam os comentários, qual tipo de texto dava mais certo, como isso engajava o público. E o Manual do Mundo surgiu com a gente já fazendo essa experiência: um veículo de comunicação pequenininho que ensinasse coisas do dia a dia. Desde 2012, trabalhamos só com isso. Então, esse modelo de negócio é possível. Existe uma ilusão de que é só festa e diversão. Não é. E também é um mercado de show business. Ou seja, é complicado, existe concorrência, jogo de vaidade, coisas complicadas de lidar.

 

Gramas de conhecimento

IT – O Manual do Mundo é uma série de vídeos que começamos a fazer em 2008 e que hoje já somam, aproximadamente, 1500. Começamos com tutoriais simples: como afiar uma faca, como dar um nó, como fazer alguns brinquedos em casa, entre outros exemplos. Mas as experiências de ciências começaram a chamar muita atenção e geravam mais interesse do público. Sentimos que fazia falta produzir mais conteúdo a respeito. Desde então, começamos a investir um pouco mais nessa área. A ideia é: quem assiste aos nossos vídeos pode sair com alguns gramas a mais de conhecimento. Hoje o Manual do Mundo é o maior canal do mundo de Ciência e Tecnologia em língua portuguesa. Uma tarefa hercúlea porque concorremos com uma série de outros conteúdos que são muito mais leves. Não vou criticar o que é certo ou errado, mas muitos desses canais são puro entretenimento, enquanto a gente tenta fazer algo mais educativo.

 

Temas na cartola

Mariana Fulfaro – A gente tem curiosidade de saber sobre uma série de coisas. Ao longo da vida, somos podados. A criança curiosa pergunta e o adulto fica bem bravo porque não sabe responder. Então, ele dá uma espinafrada na criança. E, quando adulto, já não pergunta mais porque fica com vergonha. Isso vira um ciclo que é reproduzido. Por isso, hoje o adulto fala que assiste ao canal por causa da criança, mas, no final, ele assiste e aprende porque também tem curiosidade. Isso é muito bacana. Quando começamos, as pautas eram do nosso repertório, coisas que a gente sabia. Agora é só sugestão. Quando vamos preparar um vídeo temos que aprender a fazer, testar... Às vezes ficamos meses testando. Outra coisa: a gente busca ajuda de professores mesmo. Não é que a gente tira os temas da nossa cabeça ou inventa.

 

O Manual do Mundo é uma grande diversão

apesar de ser trabalho
Mariana Fulfaro

 

 

Quem assiste

IT – Em relação ao público, a maior parte é de adultos: 70%. É uma porcentagem expressiva. No entanto, as crianças são muito mais engajadas. A gente lança vídeo do Manual e já tem 50 comentários: as crianças querem ser as primeiras a comentar, então elas fazem muito mais barulho. O que a gente quer é que os vídeos agradem tanto as crianças quanto os adultos. A gente não faz baby talk no Manual do Mundo, nem aquelas caras forçadas. Mesmo quando há brincadeira e piada, nada disso é infantilizado. Então, há camadas de entendimento diferentes para todos. 

 

A ideia é: quem assiste aos nossos vídeos pode sair com

alguns gramas a mais de conhecimento
Iberê Thenório

 

Não é uma escola

MF – A gente também não tem a pretensão de substituir uma escola – muitos nos perguntam isso. Nem a pretensão de colocar os pés na educação formal. Não somos professores. Temos professores que nos ajudam com os vídeos [dão consultoria], mas muitas vezes somos cobrados para ensinar matérias da escola e a gente nunca pensou nisso. O que queremos é colocar uma pulga atrás da orelha de crianças, adultos e idosos para que eles fiquem mais curiosos. Para que sintam vontade de aprender coisas novas, independentemente do que seja. O Manual do Mundo é uma grande diversão. Apesar de ser trabalho, nos divertimos fazendo.


 

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