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De onde vêm as formas como lidamos com o sexo?

As cenas de romance que via na TV faziam a cabeça de Gabriella Feola fervilhar de dúvidas durante a infância. Ela passava horas falando sozinha e tentando encontrar respostas para os questionamentos que tomavam conta de sua mente ao assistir as imagens dos filmes e novelas.

Com o passar dos anos, vieram novas perguntas e um incômodo com o jornalismo feito para mulheres. Ela queria que as revistas femininas fossem iguais às dedicadas aos homens: que falassem sobre sexo, livros, viagens e videogames entre as imagens de pessoas do sexo oposto. Anos depois, na faculdade de comunicação, a inquietação virou necessidade de entrar neste universo e de fazer ela mesma o conteúdo que ela gostaria que existisse.

Seu trabalho de conclusão de curso não fugiu ao tema. Gabriella entrevistou mães e filhas de quatro famílias investigando como a sexualidade de cada uma dessas mulheres foi se construindo em cada contexto.  O resultado foi o livro reportagem Amulherar-se, que nasceu também da dificuldade observada por ela de explicar para as pessoas fora dos ambientes desconstruídos que as relações interpessoais e a maneira como cada um lida com o sexo são do jeito que são “porque sim e pronto”. E que o jeito como elas são, causam sofrimento e desconforto para quem não se encaixa nos quadrados:

“Eu cheguei no tema do livro numa dupla tentativa de quebrar a bolha: primeiro, mostrar de uma maneira muito prática, só remontando os cotidianos de outras mulheres, sem usar jargões e palavras políticas, mostrar como a sexualidade se constrói pela criação familiar, pelo nosso convívio social como um todo; E segundo, mostrar como as histórias entre mães avós e filhas não são tão diferentes, para reconciliar um diálogo entre gerações, o que só tem a acrescentar na luta”, conta.

Em sua visão, tudo contribui para a construção da pessoa e da sua sexualidade: desde o falatório da vizinhança até a situação financeira da família. No entanto, nada determina o que cada um vai se tornar ou como vai lidar com a sexualidade: “No livro temos vários exemplos vivos disso: irmãs, que são criadas da mesma maneira, de idades parecidas, que ouviram as mesmas coisas da mãe, que frequentaram a mesma escola, mas que crescem absolutamente diferentes: uma tem vergonha do corpo a outra não, uma quer casar virgem, a outra quer ter um relacionamento aberto, por exemplo”. Porém, isso não exclui o fato de que a forma como o sexo é ou não abordado nas famílias e ambientes sociais também tem seus efeitos.

 

“Se o sexo é sempre colocado como algo ruim, perigoso para a mulher, pode ser que essa pessoa coloque o sexo num lugar de culpa, que não desenvolva tanto a noção do sexo como algo desejável, que dê prazer. Se o sexo é um tabu, que nunca foi falado nem dentro de casa, nem na escola, por mais que a garota saiba que tenha que usar camisinha, será que ela vai se sentir confortável na hora de interromper o ato, abordar o companheiro e exigir que ele use camisinha? Pra menina que cresce ouvindo comentário maldosos dirigidos a homossexuais, se mais tarde ela se percebe lésbica, como vai ser pra essa menina se aceitar?”.

 

Hoje, além de colaborar com sites como o Papo de Homem, a jornalista também atua como pesquisadora da comunicação e educação da sexualidade, no desenvolvimento de seu trabalho de mestrado pela Universidade de São Paulo. Ela acredita que a falta de diálogo dificulta a aderência à proteção e também que as campanhas educativas sobre o tema não dão conta de promover as mudanças que propõem.

“As campanhas são vistas como algo distante, pontual. “Neste carnaval, use camisinha”. Mas as campanhas não respondem as coisas que dizem respeito à prática, ao cotidiano das pessoas. Além disso, o problema não acaba nas campanhas. Se a campanha faz efeito e conscientiza uma pessoa, é importante que ela tenha acesso a essa proteção pelo sistema público de saúde. E essa proteção não é só dar a camisinha…  Quem vai ensinar a usar? Como vai ensinar? Tem coisas muito óbvias, mas que as pessoas não sabem e não vão perguntar, porque, afinal, parecem óbvias", comenta. Por outro lado, existem coisas que são absolutamente complexas:“quantas garotas não vão ao médico, não tomam contraceptivo, não carregam camisinha na bolsa porque se fizerem qualquer uma dessas três coisas os pais podem descobrir que elas estão tendo relações sexuais e isso pode causar problemas para elas dentro de casa”.

 


A mensagem genérica "use camisinha" não funciona por si só.


Tendo como referência os trabalhos de estudiosos do tema e de instituições como a Unesco e a OMS, Gabriela pontua algumas caminhos para que as campanhas de prevenção sejam mais efetivas, como a necessidade de levar em consideração os contextos específicos: “Usar uma mesma abordagem pro país inteiro, é escolher uma abordagem que no fundo não serve pra ninguém”. Nesta lógica, é preciso compreender onde, dependendo de cada cenário, está a dificuldade para aumentar a aderência ao uso da camisinha, do contraceptivo ou da testagem para detectar o HIV, a Sífilis e as Hepatites B e C.

Segundo ela, outro ponto importante é que os agentes de serviços de saúde também sejam sensibilizados para que as abordagens sejam mais humanizadas: “É preciso que eles saibam que “dar uma bronca” na menina que pede um contraceptivo de emergência, não é promover a prevenção, é criar uma barreira no acesso”.

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De 26/11 a 5/12 o Sesc SP realiza o projeto Contato. A programação visa promover a saúde sexual e a prevenção das infecções sexualmente transmissíveis, entre elas o HIV/Aids. As atividades buscam proporcionar conversas que incentivem autocuidado e o cuidado mútuo. Saiba mais em sescsp.org.br/contato
 

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