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A lírica do fole dinamarquês

Por José Calixto*


A música de câmara é um dos campos mais férteis da arte musical. É possível fazer essa afirmação pois, desde sua consolidação e consequente uso por praticamente todos os compositores, a música de câmara tem sido o principal laboratório de invenção e experimentação da arte dos sons. Foi um pouco deste campo fértil que pudemos conferir no concerto do acordeonista Andreas Borregaard acompanhado pelo Quarteto Camargo Guarnieri. O repertório foi exclusivamente de compositores dinamarqueses e percorreu do fim do romantismo musical no início do século XX até uma peça composta em 2018.

O concerto teve início com Anatomic safari (1967) para acordeon solo de Per Norgárd (1932), brilhantemente interpretada por Andreas. A peça partia do uso de técnicas estendidas, ou seja, fazia uso de ruídos, raspagens, sonoridades obtidas de toda a anatomia do acordeon e até mesmo do corpo do próprio intérprete. Como em um pêndulo, a peça parecia ir e voltar do campo experimental da música contemporânea para um gestual da música popular de acordeon. Nessa oscilação, a peça terminou com grande ironia, numa clássica música de dança de acordeon, com o intérprete executando um grand finale rocambolesco, fazendo troça do próprio conflito que a peça despertava: o conflito entre a tradição e a inovação.

A atmosfera se tornaria mais árida com a peça Ashtma (2017), do compositor Simon Steen- Andersen (1976), para vídeo e acordeon solo. Fazendo uso virtuosístico do fole do acordeon, Andreas sonorizava e narrava um filme, que montado de maneira musical, apresentava uma série de imagens ligadas à respiração. Obra de arte crítica, com viés provocador, Ashtma nos lembrou do ambiente esfumaçado de nosso tempo: a poluição do nosso modo de vida e os ventos contaminados que sopram da política.

Como contraste, a segunda metade do concerto foi um alento para o público. A esfera folclórica do Quarteto de cordas n.6 (1919) de Rued Langgaard (1893-1952) foi sobriamente executada pelo Quarteto Camargo Guarnieri, conduzido por Elisa Fukuda. O ápice do concerto veio com a peça Dancers & disappearance (2018) de Bent Serensen (1958). Dedicada à Andreas, esta maravilhosa peça repleta de texturas, ilusões musicais e detalhes instigantes, foi capaz de conciliar a escuta exigente da música contemporânea com o deleite e a beleza que o público costuma buscar nas salas de concerto. Fazendo uso de técnicas estendidas, do canto dos intérpretes e de harmonias flutuantes, esta música fez a platéia aplaudir de pé o belo concerto que ali se encerrava.

Quarteto Camargo Guarnieri - Foto: Charles Brooks

Foi uma boa oportunidade de presenciar a vivacidade da arte musical que, quando ousa romper com as formas tradicionais, gera polêmica e choque entre os ouvintes. Vale lembrar que compreender a arte contemporânea nunca é fácil e nem sempre é doce. Muitas vezes a provocação e o desconforto estão no centro da estética atual. No entanto, se estivermos abertos a lidar com essa diversidade de expressões, concordaremos que este concerto foi um prato cheio que alimentou nossos sentimentos mas também nosso conhecimento: objetivo de toda obra de arte

 

*José Calixto é músico, compositor e educador. É mestre em Filosofia na FFLCH-USP e Doutorando em Música na ECA-USP

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