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Uma cidade para chamar de sua

Imagem mostra parte do chão cinza com dois pisos táteis amarelos - Foto: Lúcio Érico/Sesc SP
Imagem mostra parte do chão cinza com dois pisos táteis amarelos - Foto: Lúcio Érico/Sesc SP

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*Por Lúcio Érico Soares Cunha

A minha relação com grandes cidades sempre foi harmoniosa. Andar de ônibus, metrô, ou ainda grandes distâncias a pé sempre foi uma atividade muito comum. A cidade era apenas um meio para os meus objetivos. Nada me parava! Sou uma pessoa inquieta por natureza, logo que desejava estar em um lugar, nunca fui impedido de ir e vir por nada ou ninguém. Além disso, em meus 33 anos, eu nunca tinha quebrado nada em meu corpo: braços, pernas, dedos, nada.

O dia 29 de maio de 2018 é o marco para mim. Um movimento fora do normal torceu o meu joelho e rompeu o meu ligamento cruzado anterior (LCA). Nunca tinha ouvido falar dessa parte do corpo. Para mim, a perna esquerda era formada pelo fêmur, coxa, joelho e canela, e o único cuidado que tinha era o de não quebrá-la. Entretanto, descobri que sem o LCA, meu joelho se descola fora do que é considerado saudável, podendo causar outra torção, ou rompimento de outros ligamentos. Em outras palavras, não tinha estabilidade para correr, pular e sofrer impactos. Para voltar a ter os meus movimentos seria necessária uma cirurgia de construção de um novo ligamento e isso implicaria ficar afastado do trabalho e sem andar por um tempo.

Foram 3 horas de cirurgia no dia 7 de agosto. Não imaginava que esse pequeno tempo mudaria minha forma de ver a cidade pelo resto da vida. Minha maneira de andar e interagir com a rua, o transporte público, o cinema, o metrô e até o banheiro já não eram as mesmas. Parecia que a cidade não colaborava comigo, ou era eu que não me adequava?

Por 2 meses as muletas eram parte do meu corpo, pois sem elas não conseguia nem andar dentro de casa. Durante esse tempo fiquei imaginando como é a vida de pessoas que possuem a locomoção reduzida permanentemente. Cadeirantes, amputados, pessoas com déficts neurológicos... São tantas as causas, mas o efeito é o mesmo: todos os dias é uma batalha andar por uma cidade tortuosa. São desníveis, buracos, carros parados no meio das calçadas, pessoas que ocupam todo espaço das ruas, subidas e decidas que dão o medo (e não o prazer) de uma montanha russa. Muitas vezes, o ato de ousar sair de casa para se divertir é vencido pela preguiça só de imaginar os desafios que podem ser encontrados. 

Quando não tinha opção e sair era necessário, tinha que elaborar um roteiro antes, puxar na memória quais ruas tinham a melhor calçada, com menos buracos ou mais planas. Pensar onde seria o melhor lugar para que minhas caronas de carro me deixassem era fundamental.

Nas primeiras semanas pós-cirurgia, o único compromisso que tinha fora de casa era a fisioterapia. Contava com o conforto e auxilio de meu pai, podendo ir de carro tranquilamente para o tratamento. Nesse local, eu pude entender ainda mais sobre o que é perder os movimentos. Não digo pela minha situação, que era temporária, mas ao observar pessoas que convivem com isso pelo resto da vida. Em conversas com os meus colegas de fisioterapia, percebi que comemoravam a aquisição de qualquer novo movimento, mesmo que fosse subir no ônibus sozinho, andar com a ajuda de um corrimão, ou outros gestos que parecem tão ordinarios. Essas pessoas nunca deixavam de sorrir, mesmo com as dificuldades.

O esforço estampado em cada passo, apesar de mostrar a determinação dessas pessoas, deixava ainda mais evidente que a cidade não era para àqueles que não conseguem andar sobre duas pernas. A cada um que eu assistia, e em certo nível comungava dessa experiência, me perguntava: meus colegas de fisioterapia precisam realmente ser tão determinados? A cidade não deveria ser um meio para os seus objetivos e sonhos? Ela não poderia deixar de ser mais uma das barreiras a serem vencidas? 

Pouco mais de 5 meses de cirurgia e fisioterapia, e, mesmo em readaptação, estou ótimo! Tenho dificuldades, mas tudo isso é passageiro, o que nem sempre é a realidade de muitas pessoas. 

Acredito que tudo deveria ser acessível, não pela justificativa de atender as pessoas com deficiência, mas para algo maior: a autonomia, o direito de ir e vir, o direito de sonhar! No entanto, isso está limitado a horas certas de transporte adaptado, assentos preferenciais demarcados, sessões de cinema específicas, teatro com recursos acessíveis em datas determinadas.... Já alguém sem qualquer tipo de deficiência pode escolher qualquer horário e sempre será atendido. 

Para que as mudanças aconteçam é importante que todos se sensibilizem com a questão da acessibilidade. As ideias tornam-se pensamentos, os pensamentos tornam-se palavras, as palavras tornam-se ações. Isso pode demorar uma geração, mas pode ser alterado.

Se mudarmos o paradigma de que a única realidade é andar sobre duas pernas e movimentar os dois braços, possuindo audição, visão, tato, paladar e a fala, a cidade poderá ser intuitiva, a velocidade de vivenciar centros urbanos diversificada, uma nova forma de sociedade mais justa e diversa poderá nascer.

Talvez, um dia, a cidade possa ser um lugar para alcançar os sonhos de todos.

 

*Lúcio Érico é editor web no Sesc São Paulo

 

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