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Atrizes do Coletivo Alcateia (Foto: Paty Begheto)
Atrizes do Coletivo Alcateia (Foto: Paty Begheto)

Por amilton de azevedo*

Dentro da proposta da mostra de teatro Cidade em Cena, do Sesc São José dos Campos, existem três categorias: espetáculos prontos, obras abertas à provocação e aberturas de novos processos. Enquanto a primeira contempla trabalhos em repertório das companhias interessadas, as demais criam a possibilidade de um olhar externo aos processos: profissionais convidados realizaram residências junto aos coletivos para contribuições e provocações.

O primeiro experimento apresentado, do Coletivo Alcateia, já revela a potência contida nessa troca. Enquadrado na última categoria, uma ideia embrionária do coletivo de mulheres foi fertilizada – e amplificada – pela troca com Fabiana Monsalú. “Anima Coletiva” partia da vontade de três das integrantes do grupo escrever e levar a cena narrativas sobre temáticas pertinentes ao feminino.

Nas provocações de Monsalú, as individualidades passaram a ser friccionadas na presença simultânea das três histórias no palco. Há um longo caminho pela frente, mas o breve experimento já desenha prolíficos caminhos possíveis para a pesquisa. A sobreposição das narrativas redimensiona o caráter pessoal da escolha de cada integrante do Coletivo. Assim, Cyntia Medeiros, Lucilene Dias e Simone Sobreda podem passar de lobas solitárias para efetivamente tornarem-se uma Alcateia em cena – se esse for o desejo da continuidade do processo.

Nesse sentido, enquanto há uma sugestão possível de costura entre a história de Medeiros e Sobreda – ambas lidam, com abordagens distintas, com a passagem do tempo e a memória da mulher – a fricção com a temática sexual trazida por Dias mostra-se um desafio. Para tanto, cabe ressaltar a importância da presença de Daniela Peneluppi no dramaturgismo; além de refletir acerca da possível necessidade de contar também com uma figura de direção para o processo.

Além delas, completa o Coletivo Alcateia a poetisa e declamadora Beatriz Galvão, cuja intervenção no saguão – “poesia ao pé do ouvido” – e o prólogo ao experimento (uma poesia de Cecília Meirelles) estabeleceram uma atmosfera em diálogo com o imaginário feminino a ser desenvolvido que pode penetrar de maneira mais direta no desenvolvimento da pesquisa. Por fim, interessante também a escolha do coletivo de dispor, no proscênio, livros que ancoram os anseios dessas mulheres em processo – reflexões sobre o feminismo, de Djamila Ribeiro à Virginie Despentes, passando por Chimamanda Ngozi Adichie, eram acompanhadas de livros sobre teatro, de poesia e, em consonância com o nome do coletivo, “Mulheres que correm com os lobos”, de Clarissa Pinkola Estés.

 

*amilton de azevedo é artista-pesquisador, crítico e professor. Escreve para a Folha de S. Paulo e para sua página, ruína acesa. Responsável pela disciplina "Estudos sobre o ensino do teatro" na graduação do Célia Helena Centro de Artes e Educação.

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