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recomeços e reencontros; fracassos e esperanças

Adriana Marques, que encena o espetáculo. (Foto: David Oliveira)
Adriana Marques, que encena o espetáculo. (Foto: David Oliveira)

Por amilton de azevedo*

Com pouco mais de trinta anos de carreira nos palcos, a atriz e palhaça Adriana Marques brinca com a própria trajetória ao, como a carismática Panqueca, construir o solo “Panqueca Solamente – um espetáculo dramáteco”. Sob a direção de Márcio Douglas, que assina com Marques a dramaturgia, a peça tem como premissa a expulsão da palhaça Panqueca de sua trupe – Los Catitos – e sua substituição por uma atriz mais nova.

Neste sentido, a estrutura que sustenta a trajetória da obra – onde Marques revisita passagens clássicas de mulheres de textos shakespearianos – parece ter a potência de sugerir reflexões acerca das relações de gênero na arte. Não apenas a troca de Panqueca por uma mulher mais jovem, mas também o seu reencontro com cenas marcantes cujas personagens tem idades e personalidades diversas.

A escolha pela máscara do palhaço para contar essa história possibilita a permanente descoberta do novo frente às personagens revisitadas. Marques é uma intérprete carismática que conquista o público em suas interações e no convite à participação deste nas cenas. No entanto, parece faltar certa radicalidade nas escolhas da encenação.

“Panqueca Solamente” faz bom uso dos procedimentos da palhaçaria, mas talvez se desloque de maneira estável demais para fazer emergir toda a potência da proposta. Logo no início, por exemplo, o elemento da repetição como forma geradora de comicidade poderia ser desenhado de maneira mais vertical – a busca por esse aprofundamento, ao longo de toda a obra, é visível. O espetáculo passa longe de ser frágil: é divertido e entretêm bem o público; mas há um grande campo de descoberta presente e possível de ser explorado.

Assim, uma variação maior no tônus das performances de cada personagem – a saber, Julieta, Lady Macbeth e Cleópatra – seria bem-vinda no desenvolvimento de toda a potencialidade da premissa. Mais do que a habilidade com a máscara – que, pela recepção e participações do público, é inegável em Marques – talvez tal questão se encontre no pensamento da atriz por trás de Panqueca. Ainda que não seja autobiográfico, os paralelos entre as trajetórias podem servir de trampolim para reflexões sobre como encarar tais cenas neste novo contexto.

O cenário, de Allex Cardoso, traz concretamente a realidade de Panqueca: confrontada com a sólida rejeição e as portas fechadas do teatro, encena, passando o chapéu, sob a luz de um singelo poste. A necessidade da artista em continuar artista é mais uma das potentes sugestões presentes na premissa da obra.

Dentro da epicidade da máscara do palhaço, Marques traz uma metateatralidade interessante que joga com as incertezas enfrentadas diariamente por atores e atrizes. Entre o medo do fracasso, sombra sempre presente (Panqueca, com sua “dramatecidade” e certa decadência, faz bom uso da comicidade desse dado) e a clareza de que amanhã se pode recomeçar, ficamos com a esperança do porvir.
 

*amilton de azevedo é artista-pesquisador, crítico e professor. Escreve para a Folha de S. Paulo e para sua página, ruína acesa. Responsável pela disciplina "Estudos sobre o ensino do teatro" na graduação do Célia Helena Centro de Artes e Educação.

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