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(im)puras deformações

Atrizes da Cia. Troupe. (Foto: Natália Toledo)
Atrizes da Cia. Troupe. (Foto: Natália Toledo)

por amilton de azevedo*

Um homem comete feminicídio. O motivo é fútil e o crime o faz fugir, aflito e angustiado por seu ato impensado. Caminhando, acaba por bater na porta de um sítio, na zona rural de alguma região brasileira, para abrigar-se de uma tempestade. No entanto, é no contato com as três irmãs que lá vivem que outro tormento se inicia.

A premissa de “Anjos Obscenos”, a primeira vista, parece soar como a de um filme de terror. No entanto, mais do que a cinematografia de horror, salta aos olhos a atmosfera rodriguiana que se desenha na montagem. O prólogo do espetáculo encaixa-se perfeitamente no desfecho de uma crônica de “A vida como ela é”.

Na presença de uma chave melodramática e de questões sociais – além do feminicídio, o racismo e a homossexualidade também aparecem na obra, ainda que de forma sutil (e talvez mereçam maior relevância) – pode-se pensar nas tragédias cariocas de Nelson Rodrigues. Há também um quê do universo das peças míticas; no entanto, uma sugestão arquetípica na construção das irmãs mais velhas dissolve-se ao longo da encenação.

No processo de individuação dessas irmãs, esboça-se também menção à Tchekov; como Olga, Macha e Irina, estas três “mulheres de família” também desenham-se à espera de uma Moscou que nunca se aproxima. A chegada do estranho, no entanto, não as motiva no sentido de uma transformação efetiva de sua situação estrutural – mas sim em suas pulsões obscenas, como o título do espetáculo sugere.

A Companhia Troupe, fundada em 1996, parece buscar, em “Anjos Obscenos”, trazer à tona profundas deformações escondidas por trás da pureza conservadora. Nesse sentido, ainda que talvez não com a dimensão trazida por Pasolini em “Teorema”, é o visitante quem dispara o que havia de subterrâneo. Porém, torna-se vítima daquilo que, sem nenhuma intenção, despertou.

Cabe refletir, no entanto, sobre o que as obscenidades despertadas geram no público. Diferentemente dos espectadores dos tempos de Nelson Rodrigues, hoje poucos temas são capazes de chocar dentro da representação dramática. Assim, até se verifica certa comicidade produzida nas revelações do enredo e nas ações cênicas. É, sem dúvida, algo a ser considerado ao trabalhar neste registro do que seria outrora grotesco e inaceitável.

Na direção de Thais Lopes – que assina a dramaturgia ao lado de Edson Gory, que também atua – o palco divide-se em, basicamente, três espaços. A sala da casa das irmãs, o celeiro e um espaço central de trânsito (há, ainda, um corredor no proscênio que recebe o prólogo e também um momento de passagem). O cenário é trazido pelo elenco na transição do prólogo para a primeira cena. Tal escolha, assim como a suspensão da ação em um nicho enquanto esta se desenrola em outro, pode ser trabalhada de maneira mais fluida, integrada à encenação como um todo.

Considerando que a apresentação na mostra Cidade em Cena contou com duas substituições no elenco, é possível afirmar que há potencial de crescimento na apropriação do texto, nas possibilidades de construção corporal e na trajetória das ações em cada cena.

Por vezes, certa inverossimilhança causa ruídos na leitura; na interpretação e também em ocasiões onde a dramaturgia prescinde de uma carpintaria mais refinada. A utilização de solilóquios condiz com as necessidades de “Anjos Obscenos”, mas nos diálogos há construções excessivamente didáticas.

A desestruturação da integridade das personagens, que se desenha desde o início até o fim da encenação, é interessante e captura a atenção do espectador. Cabe debruçar-se de maneira mais vertical nas interpretações e lapidar, pontualmente, o texto. Tal trabalho, somado à uma reflexão acerca de como essa obscenidade se reflete no olhar de nossa sociedade atual, abre um campo potencial interessante para o espetáculo.
 

*amilton de azevedo é artista-pesquisador, crítico e professor. Escreve para a Folha de S. Paulo e para sua página, ruína acesa. Responsável pela disciplina "Estudos sobre o ensino do teatro" na graduação do Célia Helena Centro de Artes e Educação.

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