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A atriz Milena Siqueira encena peça. (Foto: Pedro Dias)
A atriz Milena Siqueira encena peça. (Foto: Pedro Dias)

por amilton de azevedo*

Leva um tempo após entrar no espaço para perceber que a presença de Milena Siqueira no palco é, naquele momento, apenas uma projeção. Assim como demora para começarmos a entender os sussurros ditos em meio à trilha. Mesmo antes do terceiro sinal, “Algo pensa em mim” já apresenta a importância de outras camadas da encenação para além da intérprete.

O solo de Siqueira se inicia verborrágico. Ela, de preto, fala diretamente com o público, de forma livre e sem sugerir que há ali representação. Apresenta, concreta e cronologicamente, questões de saúde e maneiras de lidar com elas. E neste momento, se estabelece um pacto biográfico junto aos espectadores. Ainda que o que se verifique ao longo da obra é a construção de uma personagem de si mesma, há uma convenção sugerida de forma interessante acerca do caráter performativo e documental do que é apresentado.

A existência de elementos metateatrais em algumas cenas – como quando ela compartilha reflexões de ensaios, inserindo certa processualidade na encenação – poderia reforçar ainda mais a centralidade no depoimento e na presença de Siqueira.

Porém, o que se constrói em “Algo pensa em mim” é uma encenação plural, com dramaturgias diversas. Luz, projeção, som, texto, ação cênica: são muitos os discursos presentes na obra. Ao passo que em diversos momentos as camadas caminham junto na construção das narrativas, considerando o todo do espetáculo, ainda que a presença da atriz ganhe destaque, não há uma hierarquia rígida entre os elementos.

Assim, a direção de Carlos Ramírez, em consonância com a dramaturgia assinada por ele e Siqueira, dialoga com o que se desenha como premissa central do espetáculo: este “algo” que existe de indizível dentro de nós. Seja o que está para além das palavras, seja o outro; é essa complexidade invisível que tenta materializar-se.

Se por meio do mapeamento de vídeo de Daniel Corbani a figura de Siqueira compõe imagens múltiplas junto à própria atriz em cena, é também por meio das projeções que vídeo-performances são apresentadas. Como se tentativas de expressar o que palavras – e ações presenciais – não dão conta. Dentre as especificidades das multimídias utilizadas, a linguagem do vídeo é a que parece traduzir mais diretamente aos anseios do espetáculo.

No entanto, a trilha original de Luise Martins também é fundamental na trajetória da peça. Estabelecendo-se como dramaturgia sonora, desenha distintas atmosferas a fim de localizar a ação – de um ambiente concreto e literal para o universo onírico; da abstração delicada ao ruidoso pesadelo. Na iluminação de Miguel Ramos, recortes estabelecem códigos claros, como que situando nichos de ação em diálogo com a atriz. Para além disso, a composição fluida de imagens em trânsito em momentos específicos é por si uma bela camada poética da encenação.

Siqueira, sempre em relação com os demais elementos, conduz o público por um encontro íntimo com questões de diversas ordens. Se sua saúde é o gatilho para toda a ação, reflexões filosóficas passam a ganhar a cena e, aos poucos, novos códigos vão se construindo enquanto a palavra se torna apenas um recurso entre tantos outros para dizer o que pensa em nós. Simultaneamente exposta e protegida pela teatralidade que a encenação não nega possuir, a atriz abre um campo interessante de questões relacionais. Se o ponto de partida é o depoimento pessoal e a própria subjetividade, as escolhas estéticas de “Algo pensa em mim” fazem com que algo, então, pense em nós.
 

*amilton de azevedo é artista-pesquisador, crítico e professor. Escreve para a Folha de S. Paulo e para sua página, ruína acesa. Responsável pela disciplina "Estudos sobre o ensino do teatro" na graduação do Célia Helena Centro de Artes e Educação.

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