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Cena do espetáculo Dois Brincantes e o Príncipe Feliz (Foto: Sofia Calabria)
Cena do espetáculo Dois Brincantes e o Príncipe Feliz (Foto: Sofia Calabria)

por amilton de azevedo

Dois brincantes ajustam os últimos detalhes para apresentar ao público aquilo que prepararam. Ela, Maria, não quer mais a vida mambembe de artista popular. Quer estabilidade, quer casa. Ele, João, insiste. Ela cede. E a história a ser contada é “O Príncipe Feliz”, de Oscar Wilde. Apresentada como experimento cênico, a obra aberta à provocação – feita por Dagoberto Feliz – “Dois Brincantes e o Príncipe Feliz” já mostra potencial ao aproveitar bem as características de seus intérpretes; ainda que falte certa costura – ou fricção – entre as camadas.

Em uma relação que sugere elementos da clássica dupla Branco/Augusto, João e Maria começam o espetáculo discutindo enquanto montam o cenário. Considerando a linguagem de “Dois Brincantes”, o processo de criação parece apontar para um espetáculo que deverá ganhar o espaço público; a praça, a rua. Neste sentido, o momento inicial estabelece as bases da relação construída entre as personagens e os passantes.

Maria, interpretada por Silvia Nery, com seu pé no chão – e certo pragmatismo – implica com o avoado e sonhador João, interpretado por Carlos Javkin. Este jogo entre eles – que captura e entretêm o público – se apresenta mais dinâmico durante este primeiro momento. Ao entrarem no universo da história de Wilde, há ainda um campo de improvisação à ser explorado a partir da segurança conquistada acerca da narrativa – e de seu discurso.

Ao contar a fábula, é Maria quem toma a dianteira – Nery tem grande experiência na contação de histórias; seu domínio sobre este recurso é nítido – enquanto João representa as ações – Javkin, mímico e palhaço, sente-se à vontade na lida direta com o público. Curiosamente, há, neste sentido, a inversão entre os papéis assumidos no início – chegando até ao ponto em que João não quer mais contar a história (por seu caráter triste) e é Maria quem passa a insistir que continuem.

Assim, cabe refletir sobre o discurso cênico sendo construído. “O Príncipe Feliz” traz consigo várias camadas possíveis de leitura – sendo, talvez, a mais evidente, a crítica social no que se refere à desigualdade e a miséria – que podem ser abordadas em níveis diversos da encenação. O paralelo entre a Andorinha que protagoniza a história e o artista, que se perde de seus iguais por conta de suas paixões, pode ser trabalhado de maneira mais direta à fim de dialogar com os questionamentos de Maria sobre seguir mambembe.

Também, considerando que de fato a história é sim triste, pode-se pensar em como alinhavar uma dramaturgia que se encerre efetivamente esperançosa. Na direção de Adriana Marques já há uma série de possibilidades apontadas para isso. Além disso, é necessário certo tempo para as provocações de Dagoberto Feliz decantarem e serem experimentadas frente à públicos diversos.

Com um belo figurino (assinado por Pitiu Bonfim) e um cenário muito bem pensado (de Bonfim, Javkin e Fernando Selmer; e o boneco do príncipe é de Vivian Rau) já há uma estrutura preparada para ser experimentada na relação direta com os espectadores. Entendendo a permeabilidade dada pela fricção da fábula com a relação das personagens construídas, Javkin e Nery, João e Maria, hão de passar muitos chapéus contando esta bela história.

 

*amilton de azevedo é artista-pesquisador, crítico e professor. Escreve para a Folha de S. Paulo e para sua página, ruína acesa. Responsável pela disciplina "Estudos sobre o ensino do teatro" na graduação do Célia Helena Centro de Artes e Educação.

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