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O melhor lugar do mundo para quem faz cinema

Essa seria a foto do cartaz do filme.
Essa seria a foto do cartaz do filme.

[Prólogo]: o que vem antes da história.

Nos meses de outubro e novembro de 2018, jovens de Bertioga toparam o convite do Sesc e da Prefeitura de Bertioga de realizarem o curso “Visões da Baixada – Produção Audiovisual”. 

Durante 12 encontros com os caras da Sendero Filmes, produtora parceira que ofereceu o curso, os adolescentes do programa Juventudes do Sesc Bertioga tiveram a oportunidade de passar pelas principais etapas de uma produção audiovisual. Assistiram a filmes, tiveram algumas ideias, como a de fazer um doc para o Movimento Salve o Rio Itapanhaú, ou ainda, algo relacionado ao cemitério e afins. Então, decidida a ideia, defendido o argumento, escreveram o roteiro, visando ganhar qualidade e poupar tempo na hora da produção. Pensaram a pré-produção, identificando tudo que precisaria para o dia da gravação, como materiais necessários (cenário, figurinos), definição de horários, dinâmica, possibilidades e alternativas. Enfim, chegou o dia de rodar. Essa história é sobre esse dia.

Para além disso, a iniciativa tinha como propósito desenvolver o processo criativo e a construção de repertório artístico dos jovens. A partir da linguagem audiovisual, os adolescentes tiveram que lidar com suas identidades, realidades sociais e seus territórios, no caso, a cidade de Bertioga, que acabou se tornando também uma protagonista do filme.

O que ninguém poderia imaginar é que seria tão, mas tão... legal.

Fim do prólogo.

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Entre a Serra e o Oceano

Escaleta

Cena 1: O garoto está em frente de sua casa e anda em direção da sua bicicleta – pega sua bicicleta – anda ao lado dela – avisa a sua mãe que irá sair – monta em sua bicicleta e sai pedalando.

Na realidade o dia começou com chuva, muita chuva.  Será que vale sair para gravar? Como tudo no curso, coube aos jovens a tomada da decisão. Vamos!

A primeira locação era a casa de uma amiga de um dos jovens. Sob o olhar desconfiado de um ou outro morador do bairro, chegamos para gravar na casa da senhora Mirian. Organizamos os materiais, aproveitamos a pausa de São Pedro, tudo pronto.

Só que não. Após algumas tentativas, o protagonista desiste de atuar. Tranquilo, Maitê, que tinha naquele momento a função de assistente, assume o papel. Decidida, segue até o carro e apanha uma camisa vermelha, necessária para o figurino pensado pela equipe.

Após a comemoração da primeira cena gravada, Maura, diretora naquele momento, assertivamente se encanta por uma poça de água e decide gravar aquele plano detalhe que, na edição, ganha destaque logo no início do filme. Somente quem mora em Bertioga e, por uma vida, teve que desviar dos buracos cheios de água em nossas ruas, poderia ter essa sacada. Identidade, lembra?

No mesmo bairro, gravamos o primeiro trecho do percurso da personagem. Antes de partirmos, uma parada para tomar uma oca diante do olhar gentil, atencioso e curioso do dono do bar.

Cena 2: Já pedalando, desvia de buracos/poças – passa pedalando por uma ponte – ainda pedalando, olha para os comércios – acena para um conhecido – chega na rodovia, pedala até a faixa – desce da bicicleta – olha para os lados – espera os carros passarem – atravessa a rodovia.

A segunda locação foi uma ponte na qual passam no máximo dois carros, em duplo sentido. Ali, o diretor da vez era Gerson, que filmou uma cena que já havia acontecido algumas vezes naquele dia naturalmente e muitas outras na vida de qualquer um ali. A corrente da bike soltando. Quem nunca sujou os dedos, as mãos e, porque não, a roupa com graxa e um pouquinho de ferrugem?

Lá pelas tantas, Carol, mina ponta firme que trampa na prefeitura, responsável pela dinâmica e logística presente durante todo o curso, já perguntava qual marmita cada um iria querer para dalí a pouco. Ainda na ponte, os jovens decidiram gravar um momento em que a personagem descansaria um pouco ali próximo ao rio...

- E aê, vamo ficar empacando o pobre por muito tempo?! — nos alertou Adilson, após certo tempo de espera de um carro que aguardava o desenrolar da decisão de como seria esta cena.

Ok, bóra para nossa terceira locação: rua movimentada, com comércios locais. Lá, em frente a um brechó, um senhor que cortava cana para os pequenos dali, além de toda a equipe que aparecera naquela tarde com câmeras, fome, microfones e outros eletrônicos.

Depois disso, na verdade em um outro dia, foi realizada a cena em que a personagem atravessa a rodovia e o que antes era terra, agora vira asfalto. Outro plano detalhe, agora para um grilo que sobrevive a roda passando ao seu lado no meio da pista. Gente...  e esse detalhe contrastando ao outro lá no inicio do filme?

Aff... massa demais!  

Cena 3: Admira as casas de alto padrão – um amigo o vê passando e o chama, em frente ao prédio de luxo – se cumprimentam – atravessam a rua para praia juntos, dialogando – o garoto coloca a bicicleta apoiada em uma árvore – o amigo está parado olhando as ondas – o garoto chega ao seu lado – se olham – saem correndo em direção do mar – pisam na água – o garoto ouve um assobio e pára – seu amigo segue em frente – o garoto olha para trás – seu patrão levanta o guarda-sol e uma cadeira – o garoto caminha com a cabeça baixa em direção da barraca – o garoto coloca a camisa do serviço – olha para seu amigo surfando – começa a arrumar as mesas e cadeiras.

Para depois do almoço, restava a gravação na praia da Riviera e, bixo, não é que deu sol? E muito! Tanto que encostamos ali na sombra ao lado da barraca de Mauro e seu filho, que depois de um papo bom, nos ofereceram uns guarda-sóis. Em meio aos agradecimentos, MC Queijinho, figura que vende queijo e faz uma performance funk nas praias de Bertioga e Guarujá, decide se apresentar para os atores, diretores e produtores ali presentes.

Seguimos quase toda a escaleta, que é essa estrutura que dá forma ao roteiro, aqui destacada em Itálico. Aprendemos isso no curso juntos dos jovens de Bertioga, uma cidade, como muitas, sem salas de exibição, mas nem por isso, sem cinema.

A alegria e o cansaço se misturavam com uma sensação de parceria e dever cumprido ao final do dia. As barreiras invisíveis de quem era quem ali e foi fazer o quê, já haviam sido derrubadas por um movimento no qual o filme importava, então, por vezes de um, outras de outros se ouvia: vamos fazer de novo? Agora de outro plano? E se... Vamos!

Sabe o que é mais legal disso tudo?

Este texto acaba aqui. Como um filme. 

 

Saca, esses segundos em que você vê os créditos subindo na telona e parece que está em um não lugar, entre sua vida e as dos personagens, já tão íntimos de ti? 

Fique aí. Esse é o melhor lugar do mundo para quem faz cinema.

 

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