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O som dos degraus

Todo dia ele usa as escadas e fica muito feliz com esse gesto simples, mas importante para seu dia.
Todo dia ele usa as escadas e fica muito feliz com esse gesto simples, mas importante para seu dia.

Por Matheus Zaratine Correia* 

Sabe aquelas memórias que marcam a infância? A cada passo que dou nos degraus uma destas lembranças saltam ao meu pensamento e revivem sons que resgatam fases importantes da minha vida.

Na festa de aniversário de três anos, mesmo confuso com a movimentação e o som da família dentro do salão de festas do prédio, eu tinha um foco: saber onde estava o bolo. Ao subir os primeiros degraus em direção ao apartamento na tentativa de encontrar o símbolo do ponto alto da festa, minha atenção se volta para uma muralha chamada mãe com jeans preto de cintura alta, carregando em suas mãos uma caixa roxa de papelão brilhante, que surgiu no pé da escada e gritou “aqui o bolo”. Em êxtase, num piscar de olhos desci novamente em direção o salão.

Já na escola, com o som bem mais alto, todos os corredores agitados, podia ouvir gritos, via colegas com suas mochilas a postos e lancheiras em mãos esperando o sinal tocar para a largada ser dada. Os mais rápidos em poucos segundos percorriam quatro lances de escadas, no topo/ linha de chegada eram premiados com as tão disputadas mesas ao lado de janelas que davam a vista para a quadra. Por alguns anos eu estava entre os premiados, mas com o passar do tempo fui perdendo colocações e acabei me conformando em sentar nas mesas que sobrassem.

Final do ensino fundamental meu peso subiu bastante, mesmo praticando com frequência atividades físicas. Com a falta de ar, que também era associada a problemas respiratórios, subir a escada já não carregava tanta fantasia, mas o despertar de uma batalha que iria durar um bom tempo. Aos doze anos, após a operação de desvio de septo e carne esponjosa, o simples ato de inspirar e expirar me deixava contente. Por tanto tempo tive dificuldade em algo tão comum. Mas ao subir a escada a falta de ar ainda me acompanhava.

Aos 16 anos, após ver o número 94 na balança e medindo 1m72, parei de me pesar, mas as roupas cada vez mais apertadas demonstravam que o número só aumentava. Enquanto voltava de uma sessão de cinema, escolhi um caminho diferente para casa. Nele eu precisava subir uma escadaria, até então eu evitava o quanto podia aquele caminho, porém mesmo com dificuldade fui. O silêncio ao subir cada degrau me fez refletir sobre minha saúde e como eu tratava meu corpo. Depois daquele dia resolvi mudar muitos hábitos na minha vida, sempre optando pela escada e por escolhas que me trouxessem o movimento em todos os sentidos.

Depois de um acompanhamento com endócrino para cuidar de um desequilíbrio hormonal, aumentei seis centímetros de altura, optei sempre pelas escadas e passei a acordar cedo para me exercitar. Então em seis meses fiz as pazes com o meu corpo. Aqueles barulhos que marcaram minha memória nas escadas deram espaço para momentos de silêncio e reflexão que revisito todo dia quando subo os três andares do prédio do Sesc onde faço estágio.

 

* Matheus, 23 anos, é graduando em educação física pela Universidade Anhembi Morumbi, entusiasta da confeitaria e poeta nas horas vagas.

 

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