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O que importa é o que acreditamos sobre nós mesmos

Helen Ramos conta suas aventuras na busca do prazer de ser ela mesma<br> Foto:Maria Dinat
Helen Ramos conta suas aventuras na busca do prazer de ser ela mesma
Foto:Maria Dinat

Por Helen Ramos, do canal Hel Mother*

 

Vou revelar um segredo aqui nesse texto. Eu sempre soube que queria mudar o mundo, que queria subir em um palco, que queria falar alto para escutarem. Eu tenho essa nítida lembrança da minha infância, de pensar em mim no futuro com reconhecimento, falando com muita gente. Ambiciosa mesmo, pra ser sincera.

Logo, talvez seja de se imaginar que desde pequena eu era destaque por onde passava. Boa no que fazia? Ótima aluna? Muito criativa? Não.

Muito pequena entrei no ballet e eu era ruim, achava chato e quis sair. O que ficou foi meu andar de pato mesmo.

Fiz natação. Eu amava mergulhar, nadava ok, por períodos até que longos. Me relaxava bem e eu nunca tive medo da água, mas a sociedade naquela época não tava satisfeita apenas com o prazer de nadar de uma criança, tinha que ter o que? Competição. Todo semestre tinha competição e em toda competição que acontecia aos sábados eu era 3ª lugar, às vezes 5ª, e ganhava uma medalha de chocolate.

Minha mãe era maravilhosa, falava que tava ótimo mas às vezes também dizia: “tenta se esforçar mais, você tem muita potência aí dentro, põe pra fora”. Ou coisas como “talvez você precise se concentrar mais”.

E assim fui seguindo. Fiz basquete, e era ruim, troquei pelo futebol que eu amava, mas eu era bem média e, mesmo ficando no banco, curtia demais jogar bola.

Era apaixonada por música e ainda sou. Fiz violão de forma autodidata, não conseguia desenvolver, fiz teclado também e como em algum tempo não toquei nada relevante, meu pai quis suspender a aula para eu estudar mais.

Sim, teve a fase do coral em que eu aprendi muita música brasileira boa e, como vocês já podem imaginar, eu não era a Zizi Possi da escola.

Por falar em escola, nunca fui uma aluna excelente, acho que já tirei 9 em história lá no ensino médio, foi meu ápice.

Péssima em exatas, mediana em humanas apesar de amar. Acho que os destaques maiores (tipo uma nota 8) eram português, literatura e biologia. Logo minha família se encarregou de dizer que medicina era o grande caminho.

Nessa mesma época, em que eu tinha por volta dos 11 anos, eu entrei pro teatro e nossa, como eu me apaixonei por aquele troço.

Minha professora era poderosíssima, brava e muito inteligente (alô Claudia Gama). Ela estava grávida do terceiro filho, sem namorar, sem estar casada e tava ali contando pra gente sobre teatro brasileiro, nos ensinando a arte da comédia e do drama.

Pronto era isso gente.

Ah que bom então Hel, você se tornou uma ótima atriz?

Oh gente, eu era ruim viu, pior que não tô sendo humilde. Eu na minha primeira peça travei e não consegui dizer um “a”. Mas eu amava estar em cena, ensaiar, observar quem atuava bem.

E assim nessa trajetória da escola eu fui seguindo, o único destaque que eu tinha era por fazer muita piada, chamar atenção, ser engraçada. Só que eu subia no palco e nada disso acontecia.

Veio ainda o handball, onde eu fiz amizades lindas, viagens memoráveis pra competir e, no máximo, 10 gols em 4 anos.

Eu continuava com o teatro, passando por diversos professores, muitas peças em cartaz e mínimos papéis, muito nervosa na hora de entrar em cena, sempre errando passos.

E no meio disso tudo aquela ambição, uma sensação de que eu era boa e ia ser boa em muita coisa ainda. Mas como não deixar essa ambição morrer? Eu escutava uma voz, uma intuição e preferia seguir do que me render.

Uau, mas onde essa história vai chegar?

Em algum momento as coisas começaram a mudar, com o tempo e com a coragem (muitas vezes abaladíssima) de ser quem eu sou eu fui conseguindo encontrar aquele lugar imaginado desde criança.

Lembro de um texto feito na faculdade de jornalismo, se tratava do perfil de um mecânico famoso e muito simples, que tinha grande relevância pois usava sua oficina para promover a cultura local de Brasília.

Um professor rígido que eu admirava leu meu texto e me disse enfim: você tem um olhar especial, tem que melhorar muito mas vai longe, contou essa história com coração, não quis resumir, quis aprofundar”.

A sensação desse dia: “acho que estou começando a ter o prazer de ser eu mesma”. Existia algo dentro de mim: eu sabia que uma hora as coisas iam começar a fazer sentido.

No teatro fui pra comédia e tive a coragem de arriscar e lá estava eu apresentando algo que fazia muitos chorarem de rir.

Pra decepção dos meus pais fiz artes cênicas e, além do jornalismo, vim pra São Paulo estudar cinema.

Ainda colecionei muitos fracassos, inseguranças, a sensação de ter sempre pessoas indo super bem naquela área e você ganhando pouco, ou poucas pessoas acreditando naquela sua idéia, mas eram e ainda são nesses momentos que eu abro um portal e tenho a sensação que enfim minha alma se junta ao meu corpo. Foram muitos desses momentos de fazer projetos com propósitos que poucas pessoas acreditavam ou apoiaram que fui encontrando meu lugar no mundo, às vezes com muito reconhecimento, que na minha opinião nada mais é do que muita gente prestando atenção em algo feito com muita vontade e verdade.

Subindo ao palco quando eu tinha 12 anos, não havia reconhecimento, a não ser dos meus pais, mas tinha um sorriso aqui dentro do peito e é essa sensação que eu busco encontrar ao longo da vida. Esse arrepio que ninguém vê ou sente a não ser você.

Hoje muitas pessoas  conseguem sentir esse arrepio, ou vibrarem juntas por se identificar, ou admirar meus projetos, trabalhos, palavras e isso é muito bom, não vou mentir e dizer que não importa.

Mas acreditem: importa muito mais quando a alma encontra o corpo e enfim você está tendo a coragem de ser quem você é. E isso só quem aplaude ou vê, é você.

 

* Helen Ramos tem 33 anos, é criativa, cineasta, roteirista, atriz e mãe do Caetano, hoje com 5 anos. É de Brasília mas é em São Paulo que hoje vive, trabalha, cria o filhote e compartilha suas vivencias com amigas e amigos. O canal no Youtube e Facebook Hel Mother nasceu em maio de 2016, no dia das mães, com a vontade de falar sobre maternidade sem caô. 

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