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A onda das rádios livres

Uma placa de Raspberry Pi e outros equipamentos para transmissão de rádio | Foto: Fabricio Masutti
Uma placa de Raspberry Pi e outros equipamentos para transmissão de rádio | Foto: Fabricio Masutti

No final dos anos 80, Fabricio Masutti tinha 3 anos de idade. Trinta anos depois, o educador de tecnologias e artes do Sesc Avenida Paulista ainda se recorda daquela época, em que costumava ir com a família a uma chácara no município de Itirapina, no interior de São Paulo, e, como não havia energia elétrica por lá, a diversão era ouvir um rádio de pilha à luz do lampião. "Meus pais tinham também um rádio da Philips em casa que pegava ondas dos lugares mais distantes", conta à EOnline Fabricio, formado em Música pela Universidade Federal de São Carlos (UFSCar). "Eu lembro de, um pouco mais velho, com uns 5 ou 6 anos de idade, ouvir rádios de Moscou, por exemplo".

A primeira rádio em que Masutti trabalhou, já na graduação, foi a Rádio UFSCar, que havia acabado de começar a operar em 2007 no campus de São Carlos. "Ela é uma rádio educativa, na verdade, não uma rádio livre, mas foi a primeira rádio do Brasil a usar 100% softwares livres na sua constituição", comenta Fabricio. "Então, todo programa gravado, todo o sistema de transmissão, banco de dados, era tudo gerido por computadores [com sistema operacional] Linux".

 


Exemplo de uso do software livre de automação radiofônica Rivendell

 

"No caso da Rádio UFSCar", comenta o educador, "como ela tem uma concessão de rádio educativa, existe um monte de pormenores em relação a isso. Ela, por exemplo, não pode ficar fora do ar por um certo tanto de tempo. Senão, ela passa a ter problemas com essa concessão, que é uma coisa super concorrida, super difícil de conseguir. Já as rádios livres, em geral, dentro da definição mais comum de rádios livres, são o que a gente chamaria até de rádios piratas. Elas não têm uma concessão do governo ou uma autorização da Anatel para operar em determinada frequência. Então, o que elas fazem é encontrar um faixa de frequência no espectro em que possa ser feita a transmissão, em que não tenha uma rádio comercial operando ali."

Por que há quem faça – ou tenha feito – a opção pelo caminho da rádio livre?

"O sistema de concessão de rádio e TV no Brasil é bastante complicado", explica Fabricio. "Ele sofreu uma atualização há dois anos, mas, mesmo assim, continua sendo muito difícil se obter uma concessão. Normalmente, quem tem uma concessão de rádio/TV está ligado, de certa forma, a alguma entidade muito grande. Então, as rádios livres tem sido uma alternativa para aquelas comunidades ou para aquelas pessoas que não querem ter um vínculo com nenhuma dessas instituições – seja uma instituição de interesse comercial, um órgão estatal, uma entidade religiosa ou um partido político. A rádio livre passa a ter um caráter comunitário – apesar de ela ser diferente de uma rádio comunitária, que, geralmente, pode ter uma concessão – justamente nesse período em que a internet ainda não tinha explodido da forma como ela explodiu. Estou falando do final dos anos 90, apesar de as rádios livres acontecerem desde as décadas de 60/70."

Ainda faz sentido falar de rádios livres na era do streaming e dos podcasts?

"Eu tenho visto esse grande crescimento dos podcasts, que é uma coisa da qual já se fala há muito tempo, há mais de 20 anos existem os podcasts, mas ultimamente eles têm ganhando um grande corpo", diz Fabricio. "Mas eu imagino que, para regiões específicas do país, que ainda têm dificuldade de acesso à internet e lentidão no acesso, o radinho de pilha acaba sendo usado em diversas situações. Então, o rádio e a TV, apesar de terem uma ação muito diminuída ultimamente – por causa da internet – na sua função comunicativa, eles ainda são muito expressivos. A gente ainda tem bastantes rádios. As maiores rádios, as rádios que as pessoas mais acessam ainda estão vinculadas às mesmas instituições ou canais de TV ou empresas, políticos importantes ou entidades religiosas".

 


Fabricio Masutti no Sesc Avenida Paulista | Foto: Danny Abensur

 

Mas a tendência é a migração desses canais para a transmissão online, não?

"Eu acho que migra", aposta Fabricio. "O meu palpite é que haja essa migração pela própria facilidade do dispositivo, pela forma como ele opera. É muito mais cômodo você acessar, por exemplo, de um celular, um serviço de streaming do que o serviço de rádio FM. Inclusive, atualmente as rádios já se difundem também via streaming."

Qual o sentido, então, de seguir experimentando com rádios livres em cursos e oficinas?

"Muitos processos educativos acontecem aí. Então, a gente tem alguns exemplos de ONGs e antigos Pontos de Cultura que fazem e faziam uso das rádios livres pra ensinar processos de jornalismo, por exemplo, para crianças e adolescentes. Inclusive, um pouco do que eu tenho feito nos Espaços de Tecnologias e Artes do Sesc é isso. A gente tem construído uma pequena rádio livre, com um raio de ação minúsculo (por volta de 10 metros), pra que a gente entenda um pouco das tecnologias envolvidas nisso. É um vintage modernoso", brinca Fabrício, "porque a gente usa uma tecnologia super recente que é Raspberry Pi e transforma esse mini computador num transmissor de FM de baixa potência. Mas isso é uma parte. A ideia é entender todo o processo do caminho que o som faz desde a voz do locutor, passando por uma mesa de som, para ser mixado ali, passando por uma interface para converter esse sinal em digital e depois fazer esse pequeno transmissor de novo fazer a conversão do digital para o analógico via ondas de rádio – e calibrar tudo isso. Essa é a brincadeira".

 


Detalhes de uma placa de Raspberry Pi | Foto: Fabricio Masutti

 

A Raspberry Pi lembra a placa de Arduino – para um leigo, ao menos.

"São coisas bem diferentes", alerta Masutti. "A Raspberry Pi é um computador, na verdade. O Arduino é apenas uma estrutura criada em torno de um microcontrolador, que tem uma memória bem reduzida, mas é fácil de programar. A Raspberry Pi tem um funcionamento igual ao de um computador. Ela tem um processador, ela tem uma placa gráfica, conversor de som, você conecta a ela mouse e teclado, instala um sistema operacional dedicado – em geral Linux – para fazer o que você quer que ela faça, por exemplo, um media center ou videogame retrô ou simplesmente para ensinar programação de jogos para crianças – que é um uso muito comum da Raspberry PI. Ela foi criada com esse viés educacional, mas muitos artistas também se apropriaram dela."

Voltando às rádios livres, essa inclinação à experimentação tecnológica é bem característica desse universo desde o início, certo?

"Sim. Muitos transmissores de rádio, nos anos 70 e 80, eram também exercícios de eletrônica", explica Fabricio. "As pessoas podiam comprar revistas e nessas revistas vinham esquemas ensinando a montar transmissores de radiofrequência e diversos esquemas com diversas potências diferentes. Então, isso fez sempre parte dessa comunidade muito ligada à eletrônica, que estava muito próxima das escolas técnicas e universidades. Esse caráter não mudou muito: hoje em dia é muito fácil encontrar esses esquemas na internet. Mas, quando eu comecei a trabalhar com eletrônica para música, que é a minha maior pesquisa, foi justamente porque eu tinha encontrado um livro de projetos eletrônicos do final da década de 70, um livro de 1979 com projetos de pré-amplificadores, pedais, removedores de ruídos e outras coisas do gênero".

 

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