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Papéis invertidos: o espaço da mulher no circo contemporâneo

Foto: Érick Souza
Foto: Érick Souza

Qual a primeira coisa que te vem à cabeça quando se fala de circo? Talvez palhaços, mágicos, trapezistas ou até um espetáculo que tenha visto? E havia alguma mulher presente? De que forma? Quantos espetáculos circenses protagonizados por mulheres você já viu por aí?

A história do circo é antiga, tendo registros na China, Egito, e Império Romano há séculos. Durante os anos, sofreu diversas mudanças em seu formato. Mas é no circo contemporâneo, onde as apresentações podem ocorrer em qualquer espaço e a narrativa dá o tom da apresentação, que a mulher ganha mais destaque e liberdade, desenvolvendo números não somente relacionados a serem seguradas ou como assistentes, mas também de força e até mesmo a palhaçaria, papéis antes improváveis para o gênero.

É no contexto do circo contemporâneo que Fernanda Arruda começou sua pesquisa sobre força aplicada, que deu origem à Cia. Éos, fundada por ela em 2014 e hoje integrada também por Daiane Aguilera, e ao espetáculo de trapézio “Inversus” que aconteceu no Sesc Belenzinho na  5º edição do  Circos – Festival Internacional Sesc de Circo 2019.

Nos trabalhos desenvolvidos pela dupla, Fernanda destaca que muitos desafios foram encontrados, como a condição física feminina:

“Um dos desafios é a TPM, assim como se apresentar no primeiro dia do Ciclo Menstrual das duas… a dor, cólica, mal estar, mau humor”.

O trapézio, que é um número historicamente executado por homens, exige esforço adicional com exercícios físicos periódicos:

“Para nós, mulheres, são necessários treinos periódicos e contínuos, além do fator nutricional onde temos que manter uma rotina alimentar, pois temos que ser fortes e ainda manter o padrão estético feminino”.

Mesclando “70% de força e 30% da leveza e da sutileza feminina” , segundo Fernanda, “Inversus” funde o circo com a dança contemporânea, trazendo à tona questionamentos sobre o empoderamento do corpo da mulher no circo. Duas mulheres em cena, Fernanda e Daiane demonstram suas diferenças em um trabalho coletivo onde uma precisa da outra para executar diversos movimentos de equilíbrio, leveza, flexibilidade e força, manifestando, juntas, as possibilidades dos seus corpos.

 

Confira a entrevista com Fernanda Arruda e Daiane Aguilera:

De que forma vocês acreditam que o circo contemporâneo mudou ou ampliou a participação feminina no circo?

FERNANDA E DAIANE – A mulher no circo e no mercado de trabalho tem criado cada vez mais espaços para colocar sua visão, o seu olhar e o seu modo de fazer. É uma luta que vem sendo conquistada há anos e que cada dia mais tem representatividade e consegue, também, lançar ao público o “fazer” e o “olhar feminino” sobre a prática circense. Essa ponte que o circo moderno ou contemporâneo criou abre portas para que as mulheres ou cias – com um número maior  de integrantes do sexo feminino – possam, além de atuar, dirigir, produzir e vender seus próprios espetáculos.

Como foi feita essa pesquisa sobre força aplicada? Qual impacto dela no espetáculo?

FERNANDA – A força aplicada é algo que venho realizando ao longo de 4 a 5 anos. Eu realizei uma pesquisa de campo em mais de 30 locais que ministram atividades circenses e 8 circos de famílias tradicionais na região de São Paulo (interior e litoral) e no sul, mais precisamente Curitiba e Porto Alegre. Essa pesquisa era sobre a participação das mulheres em atividades que exigem muita força física, e 75% delas não têm opção de escolha (sobre o que querem exercer). Se nascerem em uma família de circo tradicional, já serão direcionadas para realizarem números onde são seguradas ou já iniciam treinos religiosos de flexibilidade para contorção e decorar passos para uma pequena mostra de bailado como em todo circo tradicional. Já a grande maioria das estudantes da arte circense iniciam com caminho traçado. Dificilmente as questionam se elas querem realizar uma função mais “pitoresca e de força”, todas são instintivamente conduzidas a que realizem números de sutileza e sensibilidade feminina, com um toque de flexibilidade. Ou já as titulam como volante, onde iniciam seus treinos focados apenas em ser segurada, lançada, exibida como um cristal.

Fisiologicamente, a musculatura esquelética do homem tem o fator hormonal como uma diferença importante: a testosterona ou hormônio masculino é um esteroide anabolizante natural e proporciona um desenvolvimento muscular sempre superior. Esse efeito assegura ao homem uma vantagem de força, potência e velocidade. Então, para um homem carregar alguém do mesmo peso ou até superior ao dele, é algo fisicamente normal. Agora para nós mulheres é o contrário, nós temos treinos periódicos e contínuos, além do fator nutricional onde temos que manter uma rotina alimentar, pois temos que ser fortes e ainda manter o padrão estético feminino. O espetáculo “Inversus” é o resultado de todo estudo acima: ele tem 70% de força mesclando 30% da leveza e da sutileza feminina.

Como vocês veem a coletividade feminina no circo hoje?

FERNANDA E DAIANE – Atualmente a coletividade feminina é muito maior. Temos encontros circenses, festivais de palhaças, noite das mulheres na convenção, grupos em redes sociais, coletivos e grupos somente femininos. Acho que existe um outro fazer circense na coletividade feminina.

 

Foto: Lucas Derosa

Como “Inversus” e os outros trabalhos que vocês desenvolvem foram recebidos pelo público e pela própria classe circense?

FERNANDA E DAIANE – Ao longo desses quase cinco anos evidenciando a mulher dentro de um picadeiro, onde os aparelhos aéreos – em geral realizados por sexo opostos – estão em destaque, inicialmente enfrentamos momentos de opressão, em ambientes permeados por machismo, sexismo e preconceitos. Quando ganhamos nosso primeiro edital público com o tema “Cia Éos: sobre a força da mulher”, a princípio foi recebido com certo receio, mas no final conseguimos reunir mais de 150 mulheres em dois meses de workshop.

Bem no começo de Inversus, na primeira apresentação, tivemos algumas críticas de pessoas um pouco machistas, mas nós fizemos desses comentários uma coisa mais forte para nós. Hoje não ouvimos mais esse tipo de comentário.

Nosso espetáculo também passou por um refinamento após as primeiras apresentações, ouvindo sugestões de colegas do circo. Por exemplo, fomos desenvolvendo uma história, em qual momento nos relacionávamos…  Tiramos malabares também, pois percebemos que não fazia parte do espetáculo. Fomos trabalhando em cima das críticas, o que nos ajudou bastante. A receptividade do público é muito boa, e sempre ouvimos comentários de pessoas surpresas com quanta força e sutileza temos.

Como imaginam que será o futuro da mulher no circo? O que precisa ser realizado para que isso aconteça?

FERNANDA – Eu não imagino, já está acontecendo! Nossa Cia., assim como muitas que estão em evidência são provas vivas de que algo já está sendo realizado, as mudanças já estão ocorrendo. Observando o contexto atual, a mulher dentro da classe circense está vivendo muitas transformações importantes: além do aumento de projetos propostos por mulheres nos editais estaduais e municipais, vemos também a emergência de companhias conduzidas por mulheres e que abordam o tema das identidades de gênero, onde até mesmo uma cena queer está começando a tomar forma. Éramos apenas duas artistas, hoje somos uma Cia. iniciamos com um estudo, hoje temos uma obra!

Qual mensagem vocês querem deixar com o trabalho que desenvolvem?

FERNANDA E DAIANE– A mensagem de duas mulheres envolvidas em um ideal: estudar a força feminina por meio da arte. A de parceiras de picadeiro com uma vida de estudos e um processo que, contrariando qualquer ideia de fragilidade, extrai da resistência a sua poesia. Com esses e outros opostos queremos mostrar de forma harmônica duas mulheres em cena, que evidenciam as suas diferenças expressadas em forma de força e por vezes leveza, rompendo assim barreiras da resistência feminina e do empoderamento do corpo da mulher no circo.

Foto: Lucas Derosa

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