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Envelhecer não é adoecer!

Foto: Iasmin Coni
Foto: Iasmin Coni

“Envelhecer não é adoecer!”
Foi com essa frase que Marisa Fernandes, lésbica, ativista, de 66 anos, chamou atenção para a forma como o envelhecimento é observado a partir de uma perspectiva negativa na sociedade atual. Convidada para compor a mesa “Histórias de Resistência”, do III Seminário Velhices LGBT, Marisa enfatizou o esvaziamento da identidade da pessoa idosa, que muitas vezes é vista como um indivíduo que perde sua complexidade e passa a atender apenas as demandas da sobrevivência, como se seus sonhos, personalidade e sexualidade deixassem de existir na terceira idade.

O seminário, organizado pela ONG EternamenteSou em parceria com a Secretaria Municipal de Direitos Humanos e Cidadania e o Sesc São Paulo, deu luz às questões relacionadas ao envelhecimento, refletindo a realidade desafiadora da comunidade LGBT, que além de conviver com os estereótipos e preconceitos da velhice, acumulam a violência e invisibilidade que marcam suas vidas.

 

LGBT+60: Corpos Que Resistem. Histórias e legado de cinco idosos que, por sua orientação sexual ou gênero, enfrentaram preconceito, violência e até a repressão da ditadura militar. Clique aqui para acessar a 1ª temporada completa. 

 

Os convidados que compartilharam seus relatos possuem infelizes coincidências em suas histórias: o abandono, a violência física e psicológica, atentados à própria vida e outras dores relacionadas à sua orientação sexual e identidade de gênero. Sissy Kelly, transexual de 63 anos, que enfrentou a ditadura militar e o HIV, sintetizou esse sentimento em seu relato: “A primeira instituição que me rejeitou foi a família, a segunda foi a escola, a terceira a religião. Me restaram as esquinas.”. Uma triste realidade que permanece atual, já que 90% das travestis e transexuais ainda dependem da prostituição compulsória para a sobrevivência.

O impacto desse abandono é violento e afeta a longevidade, diminuindo a expectativa de vida pela metade em relação a uma pessoa cisgênero (aquela que se identifica com o gênero designado em seu nascimento), o que resulta em apenas 35 anos, em média[1], segundo dados Associação Nacional de Travestis e Transexuais (ANTRA). Dessa forma, chegar à terceira idade sendo travesti pode ser uma experiência muito solitária.

No convívio com idosos cisgêneros, Sissy se queixa da falta de acolhimento, sempre vinculada a um julgamento moral. Em seu relato, ela reforçou a importância da elaboração e aplicação de políticas públicas que incentivem o acesso das travestis ao mercado de trabalho e ao atendimento no sistema público de saúde, que leve em consideração às especificidades desse grupo.

 “Quando eu falo do meu problema, eu não estou falando de mim. Eu estou falando de muitas que podem estar passando pela mesma coisa” - Sissy Kelly 

 

Conheça um pouco mais sobre diferentes realidades idosas no webdocumentário “Respeitem nossas histórias”, realizado para a Campanha de Conscientização da Violência contra a Pessoa Idosa, que aconteceu neste ano em todas as unidades do Sesc São Paulo, acessando aqui.
 

Engana-se quem pensa que a violência sofrida pela população LGBT se extingue quando a pessoa torna-se idosa. Eduardo Michels, de 63 anos, e seu companheiro foram brutalmente atacados pelos vizinhos: “Sofri vários ataques físicos e morais. Pensei que isso pararia agora que sou idoso. Pelo menos a (violência) física. Que nada.”.

Além do isolamento social e solidão provocados pelo preconceito com a pessoa idosa LGBT, o acesso aos serviços de saúde e o atendimento não sensível e qualificado dos profissionais para estas realidades tem impactos expressivos. A população apresenta piores níveis de controle das doenças crônicas, como diabetes, e realizam menos exames preventivos como a mamografia e o papanicolau, no caso de mulheres lésbicas. [2]
 

Envelhecimento ativo


Não há uma linha cronológica que determine as variações de autonomia e independência dos indivíduos por faixa etária. Essas condições são resultados de aspectos biológicos, psicológicos e sociais vivenciados por cada pessoa. Desde 2002, a Organização Mundial da Saúde adota o termo “envelhecimento ativo”, para designar ações que promovam o bem-estar da pessoa idosa, levando em consideração três pontos principais: a participação social, a segurança e a saúde.
 

Foto: Iasmin Coni

Algumas inciativas buscam contribuir para o envelhecimento ativo e promover um espaço de valorização da pessoa idosa LGBT, como o EternamenteSou, que atua desde 2017 com as questões do envelhecimento LGBT sendo pioneira no Brasil nas ações voltadas a essa temática. Composta inteiramente por voluntários, a ONG promove ações socioeducativas que favorecem o autoconhecimento, a autonomia, a independência e o empoderamento de pessoas idosas LGBT, além de ser um espaço para o fortalecimento vínculos afetivos e de pertencimento, de redes de suporte social e enfrentamento à solidão e ao isolamento. [3] Conheça o trabalho da instituição clicando aqui.

A luta que não envelhece

Se em 1969, o episódio do bar Stonewall Inn[4] marcou o início de um movimento LGBT mais organizado, 50 anos depois, essa geração chegou à velhice com um legado de resistência e muitas demandas à serem ouvidas, sempre em busca da transformação social, para uma vida digna e justa, em todas as cores, para todos os sorrisos e em todas as idades!

 

[1] Observatório do Terceiro Setor
[2 e 3] MIGUEL, D. F. Velhices LGBT: Desafios Para o Envelhecimento Ativo. 2019. 
[4] Stonewall Inn - Wikipedia 

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