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Comida de verdade desde o início da vida

Nos dois primeiros anos de vida, as transformações vividas são velozes, únicas e excepcionais. A alimentação é parte fundamental deste processo, pois ela influencia nas funções do nosso corpo para o resto da vida.

Para promover o aleitamento materno e a alimentação complementar saudável nesta fase da vida, o Sesc São Paulo realiza o projeto Do Peito ao Prato. As atividades acontecem de 1 a 7 de agosto, durante a Semana Mundial do Aleitamento Materno, e abordam temas como a importância das redes de apoio para o sucesso da amamentação e a introdução alimentar. 

 

Uma relação pra vida toda

A íntima conexão que temos com os alimentos começa já dentro do útero, quando o corpo da mulher é o intermediário para essa interação. E após o nascimento, é pelo corpo da mãe que o leite materno se converte no primeiro alimento de um bebê. Tão completo e perfeito, na dose certa e adaptável a mudanças de necessidades, como nenhuma tecnologia ainda foi capaz de reproduzir. 

Já os primeiros contatos com outras comidas desafiam e fascinam: são infinitas cores, texturas e sabores a serem descobertos. Cuidar desta etapa é um passo importante para começar a criar um indivídulo que viva em paz com a comida.

 

O único superalimento que existe

A alimentação adequada e saudável nos primeiros dois anos deve ser, como para o resto da população, baseada na comida de verdade. E neste período da vida, ela começa com o leite materno.

Ele vem na temperatura certa, não suja nenhuma panela, tem todos os nutrientes necessários, é gratuito, não precisa de embalagens - é ecológico, economiza água e energia, não gera lixo, é sustentável - mata a sede e depois dá a sustância, e ainda vem com anticorpos e proteção contra infecções como diarreia, pneumonia e otite.

O aleitamento materno, porém, vai além. Contribui para a criação de laços afetivos entre mãe e filho, ajuda no desenvolvimento das articulações bucais, prepara para a fala, previne cáries, protege contra doenças diversas ao longo da vida, além de ser um fator positivo contra o câncer de mama nas mães e de colaborar para que o corpo da mulher recupere seu equilíbrio de peso após a gravidez. Incentivar o aleitamento materno vai mais longe do que todos os benefícios para o bebê e para a mãe, é uma estratégia econômica benéfica para a sociedade, pois diminui os custos com a saúde da população em geral.

 

Nada de papinha!

Por volta dos 6 meses de idade, o bebê está pronto para começar a explorar o enorme mundo da comida além do leite materno. Nessa fase, já aparecem algumas habilidades importantes para isso: manter o pescoço firme, conseguir sentar sem apoio, pegar coisas com o polegar e o indicador, prestar atenção por mais tempo, e também o sistema digestivo já está mais maduro, pronto para conhecer outras substâncias além do leite. Para que a criança aprenda a mastigar e possa diferenciar cada um dos sabores da refeição, a comida não precisa ser batida ou peneirada. No início, basta amassá-la direto no prato e estar atento para responder às reações da criança enquanto ela come.

Tanto o bebê como os adultos cuidadores (seja mãe, pai, familiares etc.) vão aprender juntos a reconhecer os sinais de fome e saciedade, a lidar com a aceitação e a repulsa de um sabor. É assim que a criança vai aprender a formar seu repertório alimentar, seus hábitos e a sua cultura. E o adulto aprende a entendê-la, com a convivência e a observação carinhosa, atenta e cuidadosa.

 

Juntos a gente cuida melhor

Está no Estatuto da Criança e do Adolescente (ECA) que é dever da família, da comunidade, da sociedade em geral e do poder público assegurar, com absoluta prioridade, a efetivação dos direitos referentes à alimentação dos bebês, das crianças e dos adolescentes. Por isso, mais do que uma frase de efeito, o provérbio que diz que “é preciso uma aldeia inteira para cuidar de uma criança” é representado por uma lei no Brasil.

Também é fato que, na prática, o peso maior desses cuidados recai sobre as mães e sobre as mulheres cuidadoras, sejam elas da família ou não. Muitas vezes a desculpa é de que a gravidez e o aleitamento são possíveis biologicamente só para elas, então os outros não poderiam interferir. Mas, para essa mulher ter tranquilidade e ser bem-sucedida nessas tarefas que só ela pode realizar, o resto da “aldeia” precisa dar suporte. Cuidando da casa, das outras tarefas domésticas, pressionando o poder público por políticas que tornem o mercado de trabalho mais igualitário, com licenças parentais (similares para os responsáveis, quando houver mais de um), defendendo o direito de amamentar livremente em qualquer lugar.

O suporte também vem quando se colabora no preparo das refeições, na compra dos alimentos, no planejamento da rotina da casa, e quando se oferece opções reais e acolhedoras para famílias em espaços públicos.  Crianças criam seus hábitos espelhados nos hábitos dos pais. Inclusive os alimentares.