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Veríssimo de A a Z: 50 anos de histórias (A B C D)

foto: acervo família Veríssimo - Erico, com Luis Fernando, apresentando seu romance (1949)
foto: acervo família Veríssimo - Erico, com Luis Fernando, apresentando seu romance (1949)

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Poesia numa hora dessas?, nos pergunta um dos bordões que se tornaram marca registrada de Luis Fernando Verissimo. A frase é um alerta para a gravidade da situação, qualquer situação (lembra um de seus personagens mais saborosos e atuais: Dudu, o alarmista), e para o deslocamento da poesia nos dias de hoje.

Mas é também uma afirmação da poesia (e do humor) a qualquer momento, em especial do tipo muito peculiar de poesia que Verissimo nos oferece há cinco décadas, mesmo quando escreve em prosa, mesmo quando desenha, faz piadas para um roteiro de TV ou sopra o seu sax.

Para celebrar cinco décadas desse humor fino que, decantado em colunas de jornal, deu corpo a uma obra sólida e popular, convidamos o jornalista Paulo Werneck para repassar neste abecedário a enorme crônica da vida brasileira que é a obra de Verissimo.

Uma obra que espelha o país em cada linha e cada entrelinha, e nunca nos deixa sozinhos, sempre fazendo rir e pensar, quase sempre ao mesmo tempo. 

 

 

#VerissimoDeAaZ
Vamos ao A B C D 

 



Quem viveu as últimas décadas no Brasil certamente ouviu muitas piadas, e muitas delas, mesmo sem que saibamos, saíram da cabeça de Luis Fernando Verissimo. Nem sequer é preciso ter lido um livro deste que é um de nossos autores mais populares: suas tiradas já foram parar no cinema, no teatro, nos quadrinhos, na TV, nos jornais e – sim, aí também – em livro.

Não é exagero: Luis Fernando Verissimo trata o humor com o respeito que um físico dedica aos átomos, nêutrons e elétrons ou ao falar da criação do universo e das leis da ciência moderna: “Um dos mistérios da vida é: de onde vêm as anedotas? O enigma da criação da anedota se compara ao enigma da criação da matéria.”

“Os humoristas profissionais não fazem anedotas”, teorizou certa vez. “Inventam piadas, frases, cenas histórias, mas as anedotas que correm o país não são deles. São de autores desconhecidos mas nem por isso menos competentes. Uma anedota em geral tem o rigor formal de um teorema. Exposição, desenvolvimento, desenlace.”  

 


Não há dúvida de que Verissimo é um escritor universal, mas o que o faz ser assim talvez seja a escolha do Brasil como seu grande e primordial assunto, seja na ficção, seja na não ficção.

É difícil ler suas histórias e não imaginá-las num cenário brasileiro, entre personagens brasileiros. Para não deixar dúvidas quanto a isso, ele misturou, no título de uma coletânea de crônicas, um tema universal com uma personagem bem local: O amor nos tempos do Collor.

Nas crônicas políticas, embora tenha sempre um olho atento no noticiário internacional fica evidente que interessa o escritor é o Brasil, observado com ironia e carinho.

“Acho que o problema é que a corrupção é mal explorada no Brasil”, escreveu ele nos anos 1980, muito antes que o assunto entrasse na moda. “São recursos imensos que passam de mão em mão sem que o país lucre com isso.

 

E faz a sugestão: “A solução talvez fosse a criação de um Ministério da Corrupção que centralizasse essa importante atividade e a regulamentasse”. Mais de trinta anos depois da piada, não espantaria se a ideia fosse levada a sério.
 

Se a literatura tem a ver com cutelaria, Erico Verissimo seria um punhal de aço como usado por seu personagem Pedro Missioneiro em O tempo e o vento. Já seu filho Luis Fernando Verissimo seria o equivalente literário de uma espécie de canivete suíço — além de ser cortante e vermelho, tem múltiplas funções, algumas delas inesperadas. Parece fechado, é verdade, mas não é difícil abri-lo.

Verissimo não é daqueles canivetes herdados, que ficam guardados num fundo de gaveta: está sempre à mão para os usos do dia a dia, como descascar uma laranja (pois de maçã ele não gosta) ou apertar a rebimboca de uma eventual parafuseta.

A lâmina mais graúda é sem dúvida a de cronista, atividade que, como em outros autores, lhe garantiu o ganha pão por muitos anos. Mais do que isso, a crônica é o seu prato de resistência, sua realização intelectual. “A atividade de cronista me realiza completamente e acredito que é perfeitamente possível atingir a profundidade ficando na superfície.”

Nunca se envolveu muito na discussão teórica sobre esse gênero tão brasileiro, entre o ensaio pessoal e a ficção, que floresceu nos jornais e revistas brasileiros quando ele se formava como leitor e escritor. Ainda assim, ao meter o bedelho nessa discussão meio bizantina produziu uma pérola, ou melhor, um ovo:

“A discussão sobre o que é, exatamente, crônica, é quase tão antiga quanto aquela sobre a genealogia da galinha. Se um texto é crônica, conto ou outra coisa interessa aos estudiosos de literatura, assim como se o que nasceu primeiro foi o ovo ou a galinha, interessa aos zoólogos, geneticistas, historiadores e (suponho) o galo, mas não deve preocupar nem o produtor nem o consumidor. Nem a mim nem a você.

Eu me coloco na posição da galinha. Sem piadas, por favor. Duvido que a galinha tenha uma teoria sobre o ovo, ou, na hora de botá-lo, qualquer tipo de hesitação filosófica. Se tivesse, provavelmente não botaria o ovo. É da sua natureza botar ovos, ela jamais se pergunta ‘Meu Deus, o que eu estou fazendo?’ Da mesma forma, o escritor diante do papel em branco (ou, hoje em dia, da tela limpa do computador) não pode ficar se policiando para só ‘botar’ textos que se enquadrem em alguma definição técnica de ‘crônica’.” 

 


É possível ler a história recente da democracia no Brasil (ou da ausência dela) na obra de Luis Fernando Verissimo. Não só quando trata explicitamente de temas da política e da sociedade, mas também nas entrelinhas dos textos de ficção, nos balões dos quadrinhos, nas personagens que de tão brasileiras chegaram a ter o mesmo nome do país: a família Brasil.

O cidadão Verissimo estreou nas urnas em 1958. Já o cronista estreou no jornal em 1968, quando o voto direto para presidente já não era uma possibilidade para o brasileiro. Algumas eleições, parlamentares, municipais e estaduais, eram concedidas pela ditadura sob condições rígidas. Somente 30 anos depois, com a redemocratização, o cronista faria o seu primeiro X numa cédula eleitoral para eleger o presidente.

Em 1982, a volta da democracia começava a ser ensaiada numa eleição para governadores dos estados. Verissimo compareceu para dar seu voto, não sem registrar o gesto no jornal, com a ironia costumeira.

“Título de eleitor é um pouco como apólice de seguro, a gente só examina bem na eventualidade. Usa-se pouco, mas é bom saber que ele está lá, vigente”, escreveu, para em seguida examinar o documento. “De certa forma o título era de outra pessoa. A fotografia era de um cara de 21 anos, magro, com um sombreado acima dos lábios que podia ou não ser um bigode. E como tinha cabelo, suspirei. O cara era solteiro. Profissão: desenhista. Mas os outros dados conferiam. Devia ser eu mesmo.”

O cronista faz as contas e constata que, no que dependesse de seus 20 anos como eleitor, aquela era uma democracia exemplar. “Cumprimos a nossa parte, comentei com o cara da fotografia, o cabeleira.” E então descreve o documento, “amarelecido pela idade. Rasgou-se ao meio e foi reintegrado com uma fita durex que o atravessa de cima a baixo, como uma cicatriz de batalha”.

É possível ler a história da democracia brasileira pela obra de Luis Fernando Verissimo. E quase sempre com um sorriso nos lábios.
 

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E se quiser ver o Luis Fernando Veríssimo pessoalmente, ele estará amanhã (17 set 19) no @Sempre um Papo, que acontecerá no @Sesc 24 de Maio. O autor vai falar sobre o filme “O Clube dos Anjos”, de Angelo Defanti, baseado em seu livro homônimo.

A entrada é franca.

 

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