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O Beijo No Asfalto

Leia reportagem completa do jornalista Amado Ribeiro
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Não foi o primeiro beijo e nem foi a primeira vez!
Por Amado Ribeiro

 

A Praça da Bandeira, um dos símbolos nacionais mais prestigiados da capital carioca, foi palco de uma vergonhosa atitude e total falta de pudor. Os transeuntes que passavam pela Praça, notável pela gloriosa bandeira do Brasil hasteada à visão de todos, presenciaram um ato de total falta de pudor protagonizado por dois homens.
 

A população ficou escandalizada depois de dois sujeitos, aparentemente homens direitos e de família, se beijarem em plena luz do dia após um acidente de trânsito que vitimou um deles. Enquanto o homem agonizava após ser atropelado por uma lotação no meio-fio, o outro, sem qualquer sinal de acanhamento, se aproximou e beijou os lábios do companheiro que morria no local.
 

“Eu vi tudo! O moço já estava caído no chão, quase morto, e o outro veio e beijou direto na boca, como se estivesse se despedindo de uma amante!”, afirmou uma testemunha que também presenciou a cena calamitosa. A viúva do morto contou ao delegado Cunha, responsável por investigar o caso, que já havia visto o marido em companhia do suspeito conhecido por Arandir, e que ele, inclusive, frequentara sua residência. Revoltada com a situação extraconjugal do marido, ela se negou a ir ao enterro e se diz ultrajada e traída por essa infidelidade.
 

O beijoqueiro Arandir foi detido pela polícia e levado ao Batalhão da Polícia para prestar depoimento. Ao delegado Cunha, Arandir negou conhecer a vítima e disse que o atropelado era um completo estranho. Segundo ele, o beijo teria sido um ato de compaixão para atender o último desejo do moribundo que agonizava à frente de todos, e não imagina que esse ato pecaminoso poderia ter consequências.
 

O delegado Cunha diz não acreditar na veracidade das declarações de Arandir e alimenta inúmeras suspeitas devido às contradições do depoimento. Segundo a polícia, os dois sujeitos mantinham um relacionamento escondido de todos e a cena do beijo no asfalto teria sido uma despedida entre eles.
 

Apesar de ser um mistério, o beijo no asfalto e suas circunstâncias permanecem um ato vexaminoso, explícito e sem escrúpulos, que deixou a população indignada e envergonhada com tamanha falta de pudor.

 

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O texto fictício de Amado Ribeiro conta a tragédia de O Beijo no Asfalto, escrita por Nelson Rodrigues em 1961. O espetáculo recebe nova montagem com temporada de estreia no Sesc Santo André entre os dias 18 de outubro e 10 de novembro. Incisiva e atual, a obra trata o poder do mundo midiático e todos seus ilimitados desdobramentos, sua relação com o homem, suas consequências, sua moral e um retrato ético da sociedade brasileira.

Um atropelamento. Um homem cai no asfalto, em plena Praça da Bandeira, Rio de Janeiro. Na sua agonia, pede um beijo a outro homem que correu em seu auxílio. O beijo acontece, o atropelado morre, a multidão ao redor testemunhou. A partir desse acontecimento, uma tragédia se desenrola. O Beijo no Asfalto desmascara, com visceralidade, as raízes da sociedade brasileira, suas características, vícios e estigmas mais profundos.

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