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Olha a banana!

Penca de banana verde<br>Foto: Stephany Tiveron
Penca de banana verde
Foto: Stephany Tiveron

Assada, frita, in natura, cozida, amassada… a banana está presente na culinária de vários cantos do país, movimenta a economia e faz parte do imaginário cultural desde os tempos de Carmen Miranda. De acordo com a Embrapa (Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária), o brasileiro consome em média 25 quilos do fruto ao ano. Custo acessível e versatilidade estão entre os fatores que explicam o sucesso da banana na nossa alimentação.

No Vale do Ribeira, região do Estado de São Paulo responsável pela maior parte da produção nacional, a bananeira ocupa lugar de destaque. Apesar da expansão da monocultura, o cultivo feito por médios e pequenos produtores que utilizam sistemas agroflorestais e mão-de-obra familiar ainda é predominante. Assim como os conhecimentos do plantio, as receitas são passadas de geração em geração por pessoas como Suzana de Brito, que é agricultora na comunidade quilombola Morro Seco (Iguape/SP).

Suzana, que participou da oficina a Culinária Quilombola do Vale do Ribeira, realizada no Sesc Vila Mariana, nos contou que no Morro Seco a banana é cultivada somente para uso na alimentação dos moradores. A fruta é estrela de várias receitas tradicionais e seu uso vem sendo reinventado com a chegada de novas influências.

 

 

Alimento e matéria prima



Ivo Santos Rosa mostra o trabalho feito com a fibra da banana. Foto: Stephany Tiveron

Ivo Santos Rosa, morador e vice-coordenador do Quilombo de Sapatu (Eldorado/SP), conta que a banana está na comunidade desde antes de ele nascer - há mais de 50 anos. Trabalhando como monitor ambiental, ele comenta que "[a bananeira] é o carro-chefe da agricultura familiar e, hoje em dia, é a maior fonte de renda de Sapatu. Além de ser usada na alimentação, fomenta a cooperativa, trazendo junto o artesanato e o turismo". Sua mãe, Dona Esperança Santana, inclusive, é uma das referências no trabalho artesanal com fibra de bananeira - que pode ser conferido na exposição Entremeadas, em cartaz no Sesc Vila Mariana.

 


Fibra da banana. Foto: Stephany Tiveron

Em outubro a artesã passou pelo Sesc Registro para ministrar uma oficina e compartilhar algumas técnicas e histórias. "A gente desenvolve muitas peças com a folha da bananeira: jogo americano, descanso de panela, carneira, pulseiras, brincos…tudo nela é aproveitado", explica Ivo.

De onde é que a banana vem?

Você já se perguntou qual a origem de tanta coisa boa? Para descobrir, conversamos com o geógrafo Mariano Ribeiro e a estudante de biologia Nathalia Lima, integrantes da equipe de educadores ambientais do Viveiro de Plantas do Sesc Interlagos.


Cacho de banana no pé. Foto: Piero Di Maria/Pixabay

Para começar, a banana não é daqui – apesar de ter se adaptado muito bem ao nosso clima e caído nas graças do nosso paladar, a banana tem origem no sudeste Ásia. E, convenhamos, o clima quente e úmido de lá tem suas aderências ao que temos por aqui.

Da Ásia, a banana foi aos poucos conquistando espaço no Oriente Médio e na África, seguindo processos comerciais e colonizatórios – aliás, é provavelmente desse movimento que vem o nome “banana”, atribuído a uma palavra que, em árabe, significa dedo. Essa referência, é claro, vem do formato da banana – a maioria das espécies da fruta costumavam ser bem menores do que as que vemos hoje, e se pareciam com dedos, mesmo.

Espanhois e portugueses acabaram por trazer a banana para a América Latina nos séculos XV e XVI – e, a partir daí, ela fincou suas raízes em nossas terras, culturas e corações.

Pé de banana (e de água também)

Falando em raízes, você sabia que bananeira não é uma árvore? Que o que você vê como o corpinho dela não é um tronco?

A bananeira é uma grande espécie vegetal e seu tronco, assim como raízes, ficam debaixo da terra. As estruturas que vemos sair do solo e se desenvolver são falsos caules. Como folhas, eles nascem enrolados e vão, aos poucos, crescendo e se abrindo. Essa estrutura faz da bananeira uma espécie de filtro de água. Suas camadas fibrosas são capazes de reter bastante água, que retornam ao ciclo natural. Por isso, em uma agrofloresta, elas atuam para manter o sistema úmido.

Da roça à cidade...

A banana nem sempre foi considerada uma estrela à mesa. Em sua pesquisa de doutorado, que acompanhou os hábitos alimentares de uma comunidade caiçara, a bióloga Marina Vianna Ferreira fez uma série de entrevistas. Apesar de a banana, assim como o palmito-pupunha, estar presente na dieta cotidiana dos moradores, ela era vista com certo preconceito e comumente associada à “comida de pobre”. Isso porque, graças ao seu baixo custo e alto valor nutritivo, a banana foi por muito tempo usada basicamente como alimento de subsistência.


Marina na oficina ministrada no Sesc Registro. Foto: Stephany Tiveron

“Claro que, com a urbanização, a industrialização, tudo está perto de cidade e sofre influência dela. Mas essa ideia de querer entender a alimentação das comunidades tradicionais é porque elas tendem a se alimentar de coisas que o ambiente provê", explica Marina. O estudo deu origem ao livro Cozinha Caiçara - Encontro de histórias e ambientes, que busca contar essa relação entre produção e consumo e as histórias das pessoas, por meio também de receitas.

A sazonalidade, por exemplo, é um dos aspectos levados em conta na alimentação das comunidades tradicionais. Nos acostumamos a comer a mesma fruta durante o ano todo e nos esquecemos que cada uma tem seu próprio ciclo. “É preciso fazer esse tipo de conexão com o que se come. E a vantagem é que as comunidades dos povos tradicionais têm isso na raiz”.

E por que não experimentar?

No cotidiano dos brasileiros, as variedades nanica e prata são as mais comuns. “A gente está acostumado a ver esses dois tipos [nanica e prata] no mercado, mas tem espécies mais selvagens. Tem a banana-zinco e a banana-pacova, que são mais carnudas, mais farinhentas e o uso é bem diferente. Tem a banana-vinagre ou vinha, que é uma roxinha, e que se você colocar na chapa ou na frigideira fica uma delícia”, comenta Marina.

Não há uma unanimidade entre os especialistas sobre quantos tipos de banana existem, mas entre as cultivadas e selvagens que levam o nome científico de identificação da espécie (“Musa”) estima-se que sejam mais de mil. Por isso, vale ficar de olho nas opções, conhecer as produções locais e, sempre que tiver oportunidade, experimentar!

 

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Esta matéria foi inspirada em diferentes atividades da programação do Experimenta! Comida, Saúde e Cultura 2019. A alimentação é tema de atividades na programação do Sesc durante todo o ano. Saiba quais serão as próximas aqui.

 

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