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Ensaio de Madeleine Waller traz frequentadores de piscina pública britânica com trajes de banho e com roupas normais, lado a lado.

texto: Gabriel Vituri

fotos: Madeleine Waller

“Eu comecei a nadar depois de ter sido pego no tsunami da Tailândia. Estava em férias com minha família quando a onda veio (...) Ao voltar para casa, tinha medo de água, então participei de uma competição em um lago e minha paixão por nadar longas distâncias nasceu.” O depoimento, embora soe um pouco apavorante, conta uma história que acabou bem. Nick e seus familiares se salvaram da tragédia, e hoje ele já realizou grandes nados, como a travessia entre a Espanha e o Marrocos, por exemplo.

Essa história, dentre várias outras, é contada em “East London Swimmers”, de Madeleine Waller, livro lançado em 2014 pela editora britânica Hoxton Mini Press. A obra reúne uma série de retratos feitos pela fotógrafa em uma piscina pública na zona leste da cidade de Londres e chama atenção pela sua proposta estética e conceitual: nas imagens, frequentadores do local são fotografados com seus trajes de banho, mas também com as roupas sociais que estão vestindo ao chegar ou ao sair dali. “Vários nadadores ficam irreconhecíveis, especialmente com os óculos e a touca. É como um disfarce, eles parecem anfíbios. Há pouquíssimos esportes em que as pessoas assumem uma persona diferente quando estão vestidas com as roupas específicas para a prática”, explica Madeleine.

Madeleine Waller nasceu na Papua Nova Guiné, mas cresceu em uma pequena cidade na Austrália. Sua relação com a fotografia começou a tomar forma somente quando viajou para a Europa, aos 18 anos. Além de ter descoberto seu entusiasmo pelas fotos, descobriu também a capital do Reino Unido, onde mora desde 1987. “Viver em Londres mudou completamente a minha vida e me abriu um outro mundo”, afirma.

“Swimmers” retrata um local público bem específico e que ficou abandonado por quase duas décadas. Fechada em 1988, a piscina London Fields Lido, situada na vizinhança de Hackney, foi restaurada e reaberta em 2006 após cerca de três anos de negociações, um processo que hoje é mencionado como exemplo de revitalização na cidade londrina. Atualmente, a Lido, apesar de estar a céu aberto, tem aquecimento e é frequentada o ano todo. “Quando a piscina reabriu eu fiquei intrigada e achei estranha a ideia de nadar durante o inverno em uma piscina aquecida”, conta a fotógrafa. “Comecei a nadar lá regularmente e fui fisgada por como as pessoas pareciam diferentes dentro da água e depois de se trocar nos vestiários. Então, passei a frequentar o espaço com minha câmera Hasselblad”, explica.

Madeleine passou meses fotografando os frequentadores locais com sua câmera analógica de médio formato, que usa um filme mais largo, de 120mm, e não os de 35mm, mais comuns no mercado. Praticamente todas as pessoas, ela lembra, toparam participar do projeto. “Acho que funcionou porque eu também sou nadadora, e isso ajudou a me conectar com eles”. Pelas fotos publicadas em “East London Swimmers”, é quase possível sentir frio. “Há diferentes tipos de pessoas que usam a piscina em vários momentos do dia e do ano, e a tendência é que pela manhã e no inverno os nadadores sejam mais dedicados”, afirma.

Primeiramente, o resultado do projeto apareceu em uma seção do jornal britânico “The Guardian”. Depois, as fotos ficaram expostas no próprio espaço da Lido; prevista para durar apenas seis semanas, algumas imagens acabaram ficando no local por quase três anos. Em seguida, Madeleine foi convidada para fazer uma edição do material pela Hoxton, quando então decidiu entrevistar os participantes para descobrir suas razões para nadar. “Todos os relatos são muito interessantes, é como se fosse uma terapia para a maior parte das pessoas.”

Cria do fotojornalismo, Madeleine Waller trabalhou com várias revistas e jornais, mas hoje tenta se concentrar em seus projetos pessoais e artísticos. Seu projeto mais recente se debruça sobre a relação entre irmãos. Esteticamente, o trabalho remete um pouco a “Swimmers”, com os personagens dispostos lado a lado em fotografias diferentes. “Eu gosto de fazer retratos, é uma tentativa de se conectar com um estranho. Acho que bons retratos capturam algo, é uma colaboração entre o fotógrafo e a pessoa fotografada”, reflete.

A conexão de que Madeleine fala aparece não só nos personagens retratados no livro publicado em 2014, mas também no próprio espaço da London Fields Lido: “Eu amo a Lido, é um lugar fantástico para ter por perto. Eu prefiro o inverno, quando é mais quieto e fácil de nadar”, revela a fotógrafa e nadadora, que gosta do contraste entre a água morna e a atmosfera esfumaçada do local.

Apesar de estar em Londres há tanto tempo, lembranças australianas também aparecem dentro da piscina, como ela conta, em tom de brincadeira: “A região onde eu cresci é conhecida pelos tubarões, e eu tenho um medo quase irracional deles. De vez em quando, me convenço de que há um dentro da água, e isso me ajuda a nadar bem mais rápido!”.

 

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