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Antunes Filho, 90 anos: fragmentos e memórias

Durante 37 anos, Antunes Filho fez o mesmo caminho todos os dias. Ia de ônibus de Perdizes até a Vila Buarque e chegava ao Sesc Consolação antes das dez da manhã. Buscava sua garrafa térmica na Comedoria e saía distribuindo cafezinhos a quem encontrasse pelo caminho, rumo ao Centro de Pesquisa Teatral do Sesc (CPT), no sétimo andar.  

É lá, onde ele passava os dias enfurnado - criando, estudando, conversando, se exercitando - até as cinco da tarde, que agora se ergue uma homenagem ao diretor, que completaria 90 anos neste dia 12 de dezembro. O dispositivo movimentocptsesc não é uma exposição, como diz seu idealizador, Ricardo Muniz Fernandes. "É um jeito de falar tchau, um canto para ele 'subir'". 

Neste jogo de memória e esquecimento, o dispositivo reúne pequenos fragmentos da vida e da obra de Antunes. São objetos, frases e imagens que se juntam aos recortes que ele mesmo gostava de colecionar, com os trechos de livros e peças que copiava - muitas vezes à mão - e fixava pelos corredores do CPT. 

Detalhes da criação do espetáculo "Eu estava em minha casa e esperava que a chuva chegasse".


Ao seguir os passos cotidianos de Antunes, recolhendo com o olhar os detalhes que marcaram sua rotina de trabalho, nos deparamos com facetas inesperadas do diretor que era tanto admirado quanto querido e temido. Além de relembrar os cartazes e espetáculos que criou ao longo da carreira, é possível soar algumas dezenas de sinos de sua coleção particular; ler os avisos de organização e limpeza que ele mantinha por todos os lados; ver as fotos de seu quintal entre as plantas do jardim do camarim, e assistir aos depoimentos de colegas e artistas com causos, saudades e lembranças. 

O curador Ricardo Muniz Fernandes faz os últimos ajustes na sala de Antunes.
 

Ricardo, curador e amigo de Antunes de longa data, conta que certa madrugada, doente, Antunes foi até a porta do Sesc Consolação, sentou-se nos degraus da entrada da unidade e assistiu a um filme incrível, ali na rua. Se foi produto de seu delírio ou criatividade, não sabemos. Resta imaginarmos que reação ele teria ao filme-homenagem-dispositivo que fica em cartaz no CPT até 15 de fevereiro de 2020.


Se no início iluminado do percurso da exposição lemos "Luz, mais luz!" - as palavras atribuídas a Goethe em seu leito de morte; ao final encontramos a escuridão do palco, que para Antunes Filho significava o abismo. Uma metáfora para a necessidade que ele tinha de se arriscar e se renovar a todo tempo, até o final de sua vida, aos 89 anos. 

 

>> Leia mais sobre Antunes Filho neste artigo da Revista E
>>> Assista à série "O Teatro segundo Antunes Filho", do SescTV. 
>>>> Conheça as publicações das Edições Sesc dedicadas ao diretor. 
 

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