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Rugby em cadeira de rodas: potência e competitividade

Alexandre Giuriato e a equipe Gigantes no Sesc Itaquera. Foto: Thaís Fero.
Alexandre Giuriato e a equipe Gigantes no Sesc Itaquera. Foto: Thaís Fero.

Era para se chamar “murderball”, termo em inglês que significa bola assassina. Mas o nome, além de não ser atrativo para as pessoas, era também um grande exagero: a bola não feria os jogadores. A modalidade, então, ganhou o nome de Rugby em Cadeira de Rodas (CR). Mas não se engane, as semelhanças com o jogo criado pelos ingleses são poucas.

Desenvolvido por atletas tetraplégicos de Winnipeg, no Canadá, a modalidade não foi uma adaptação da versão dos andantes. Tem regras próprias, bola e campo diferentes. Também não há divisão de gênero, homens e mulheres jogam juntos.

A partida tem quatro jogadores de cada lado que disputam uma bola de vôlei. O objetivo é percorrer a quadra com a posse da bola até ultrapassar a linha do gol que é marcada por dois cones.

Além do nome, a principal similaridade está no embate presente na dinâmica das duas modalidades. Os contatos físicos não são permitidos, mas os choques entre as cadeiras e as quedas são constantes durante as partidas. As batidas são parte importante da estratégia do jogo, que é marcado pelo barulho dos metais se chocando – som que lembra uma batida entre dois veículos.

A potência do rugby ajuda a romper com um dos grandes estereótipos em torno da pessoa com deficiência: o da fragilidade dos cadeirantes.

Apita o árbitro  

Esbanjando força física, os Gigantes, time de rugby em CR de Campinas, chega para mais uma partida no Sesc Itaquera. O mascote do time é um Orc – personagem comum nos contos de fantasia medieval – muito musculoso sentado em uma cadeira de rodas que parece nos lembrar que força e deficiência são compatíveis.

A preparação para começo do jogo é longa. Inclui trocar e encher pneus das cadeiras de rodas, fazer ajustes mecânicos, proteger a mãos dos atletas com luvas e ataduras. 

Após longos minutos de preparação e aquecimento, começa a partida. O início é similar aos jogos de basquete. O árbitro lança a bola para cima, enquanto dois atletas com braços esticados tentam alcançá-la. Em alta velocidade nas cadeiras de rodas, eles parecem deslizar facilmente pela quadra. Interrompidos apenas pelos duros choques e pelas disputas acirradas pela posse da bola.

Um passo muito importante é manter os jogadores com o corpo umedecido. Constantemente, Ana Paula Ramkrapes, treinadora da equipe Gigantes e da seleção brasileira, joga baldes de água nas cabeças dos atletas. O calor é intenso, passa facilmente dos 30 graus. Devido à lesão medular, o corpo dos atletas não é capaz de transpirar, sem o suor eles têm dificuldade de manter a temperatura corpórea estável. Água é um “equipamento” indispensável para mantê-los no jogo.

A demonstração do esporte dá lugar uma vivência com o público do Sesc Itaquera. Os observadores se tornam jogadores. Nos primeiros instantes, andar em uma cadeira de rodas parece uma brincadeira divertida. Em poucos minutos, as dificuldades ficam aparentes. A maioria das equipes de andantes não consegue ultrapassar a metade da quadra. Os relatos são sempre os mesmos: “nossa, como a cadeira é pesada” ou “estou com dor nos braços”.

 

Um time de Gigantes

Muitos atletas não pensavam em uma carreira no esporte quando sofreram a lesão. É o caso de Alexandre Giuriato, atleta da equipe Gigantes e da seleção brasileira, que pratica a modalidade desde 2008, após perder o movimento das pernas em um acidente de carro.

De lá para cá, participou de diversos campeonatos nacionais e internacionais, incluindo o jogos Parapan-Americanos e os Paraolímpicos, e foi eleito duas vezes o melhor atleta paraolímpico da modalidade no Brasil.

Eu comecei a ter contato com outros cadeirantes que foram me ajudando a mostrar que há outro lado da vida. A vida não acabou porque você sofreu um acidente ou é um cadeirante ou tem uma deficiência”, afirma Giuriato. 

O jogo entre cadeirantes e andantes, mesmo que dure menos de meia hora, é um exercício de empatia que parece mudar o olhar dos que estão acostumados a andar e correr sem esse equipamento. O esporte se torna um dos caminhos capazes de ressignificar a deficiência física.

Os jogadores são competitivos e embativos como qualquer atleta. “Por um momento na história, eles foram considerados um grupo a parte, os intocáveis. O esporte vem na contramão. Eles não são intocáveis, eles só estão sentados. A gente só precisa fazer com que o mundo seja para todo mundo”, afirma a treinadora.

 

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