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Clube do Livro "Outras Palavras" aborda a face "cantautor" de Bob Dylan

Em duas quintas de março, dias 12 e 26, acontece o clube do livro "Outras Palavras" na Biblioteca do Sesc Avenida Paulista. A escritora Micheliny Verunschk irá debater a primazia da oralidade nos poemas-canções de Bob Dylan, o livro “Letras" (1961-1974) e sua inscrição no espetáculo de registro trovadoresco. Deu curiosidade? Adiantamos o assunto com a pesquisadora, leia na entrevista a seguir:

EOnline: Na sua opinião, o que faz Bob Dylan um autor tão reconhecido na música e na literatura, tendo ganhado importantes prêmios da literatura?
Micheliny Verunschk: 
Já nos anos 1960 o escritor e crítico brasileiro Antonio Olinto apontava Bob Dylan como um poeta capaz de criar os mais vigorosos versos em língua inglesa àquela época. Dylan se inscreve no cenário tanto poético como musical como um "cantautor". O termo, tomado de empréstimo da língua espanhola, diz respeito àqueles artistas que transitam entre a música e a poesia, um misto de bardos, folk-poetas que mantêm uma estreita vinculação com tradições orais e populares e que movimentam ações performáticas e xamânicas. Na tradição grega dos mistérios órficos, a poesia era para ser cantada, dançada, atravessando os corpos. É com essa tradição que Dylan dialoga.


EOnline: Como você relaciona os poemas-canções de Dylan com os dias de hoje?
Micheliny Verunschk: Se você pega, por exemplo, um álbum como "Oh Mercy", de 1989, que marca um ponto de virada na carreira de Dylan, você percebe ali um artista que está falando para além do seu tempo. "Political world", canção que abre o álbum, parece mesmo retratar a confusão que vivemos hoje, com avanços de pautas nazifascistas nos costumes, na economia e no exercício da religião. O mesmo se pode dizer de "Infidels", de 1983, com a impressionante "Jokerman", por exemplo. E nem falo de monumentos como "Like a Rolling Stone" e "Mr. Tambourine Man".

EOnline: Na sua opinião os poemas trovadorescos de Dylan têm relação com a cultura Brasileira? Como? Poderia dar exemplos?
Micheliny Verunschk:
Somos herdeiros atentos das cantigas de amigo, de escárnio e mal-dizer. O poema trovadoresco português, que tem DNA grego, é uma das origens do cancioneiro popular brasileiro. Somos herdeiros culturais desse trovadorismo português misturado aos elementos arabizantes e afro-indígenas e que aqui resultou em coisas como a literatura de cordel, os violeiros populares, a MPB, entre outras expressões. Já a tradição de Dylan vem da balada inglesa, que descende da tradição grega dos rapsodos. Nos EUA, esse elemento se fundiu aos blues, ao jazz, aos folksongs. Tendo em perspectiva esses rizomas, não nos parece que sejam tão distantes, por exemplo Bob Dylan, Chico Buarque, Lirinha, Elomar.


Chico Buarque, Lirinha e Elomar.

EOnline: Como você apresentaria a obra de Bob Dylan para alguém que nasceu nos anos 2000 e não o conhece?
Micheliny Verunschk: Como apresentei aos meus filhos de 14 e 10 anos: com algumas horas de audição de "Blonde on Blond", "Highway 61 revisited" e "Oh Mercy".





Micheliny Verunschk é escritora e historiadora. Em 2004, foi indicada ao Prêmio Portugal Telecom de Literatura com o livro de poesia "Geografia íntima do deserto", sendo a única mulher estreante e também a mais jovem a ficar entre os dez finalistas. Com o romance "Nossa Teresa - vida e morte de uma santa suicida", venceu o Prêmio São Paulo de Literatura de 2015 na categoria melhor de romance escrito por autor estreante no gênero acima de 40 anos. Tem trabalhos publicados  na França, Portugal, Espanha, Canadá e Estados Unidos.

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