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Pandemia social

Ilustração: Editoria de Arte
Ilustração: Editoria de Arte

Moro na periferia da Zona Sul de São Paulo há 19 anos. Apesar de ter estudado na região, ter muitos parentes e amigos de família em bairros vizinhos, meus pais terem trabalhado a maior parte da vida por aqui, a segurança nunca foi o forte “da ponte pra cá”. Histórias da minha mãe sobre furtos dentro do transporte público e mortes violentas pelas ruas só eram amenizadas porque os donos dos morros poupavam as escolas e os educadores da região.

O tempo passou e o meu retorno ao território após a conclusão da graduação fez com que novos olhares fossem direcionados às vielas e bibocas. O mercado de trabalho nunca é fácil para quem precisa realmente buscar um lugar ao sol. Reconhecer a periferia como um espaço potencial para trabalhar com sustentabilidade foi e ainda está sendo uma constante quebra de paradigmas e preconceitos. Conhecer coletivos, as batalhas diárias de pessoas comuns e observar as mudanças tão significativas para a comunidade, mas tão invisíveis aos olhos do Estado, é tão triste quanto surpreendente. A pobreza e a violência dos jornais começaram a não mais representar onde moro, porque o conhecimento e entendimento real sobre as movimentações em rede, o apoio e cuidado conjunto do “nós por nós” abre espaço para a cultura periférica e compreensão dessa identidade tão única que se forma de dentro para fora.

A chegada da pandemia se deu nessa trajetória de vislumbre e ainda de conexão com esse território que pulsa e ferve. Alinhado aos mapeamentos territoriais de cunho profissional, mas sem deixar de lado a curiosidade pessoal pelos laços afetivos criados, é impressionante notar a mobilização local para criar soluções específicas daqui.

A Covid-19 escancara uma desigualdade social que sempre existiu. As comunidades periféricas possuem um histórico de desenvolvimento de estratégias de empreendedorismo e geração de renda, cultura, educação e empoderamento. Baseado em editais públicos e privados, financiamentos coletivos, parcerias com pequenas e grandes empresas. Porém, o isolamento social mostrou que o apoio estatal é fundamental e falho. Dessa forma, é uníssona a necessidade de dar visibilidade e acesso ao crédito a essas pessoas físicas e jurídicas.

As redes de solidariedade reestruturadas ou criadas nos últimos meses têm logística de recebimento de produtos e serviços diversos, sistemas de triagem e transporte, pontos de coleta de materiais e endereços para mutirões, mapeamento de famílias em situação de vulnerabilidade social, dentre muitas outras informações importantes. Precisamos somente dar mais voz, espaço, credibilidade e respeito a todo esse trabalho e conhecimento.

A gente subestima o poder da periferia. A praxe é pensar que quebrada não é capaz de produzir tecnologia e, por isso, deve-se exportá-la do centro da cidade. Isso vem com sentimento de pena ou desprezo. Olhar colonizador, algumas vezes camuflado de caridade.

Isso tem a ver com racismo e ausência de políticas públicas. O apoio tem que chegar pela postura antirracista, mas também pelo trabalho conjunto para exigir do Estado melhores condições de emprego e renda, segurança, saúde, moradia, saneamento e outras necessidades básicas.

Mas o apoio, para chegar sem o viés colonizador, deve ser dialógico. Transversal na troca, horizontal na escuta e educador na base.

 

Daniela da Costa Matsuda é ecóloga, moradora do Jd. São Luís, técnica de programação do Sesc Campo Limpo.
 

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