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Habitar Palavras: Gabriel Soares

Foge para a tua solidão!

Passei os últimos anos acelerando, indo e vindo pelo ritmo frenético do asfalto, pelas turbulentas correntes de ar nos céus, pelos trilhos arranhando o metal oxidado dos trens, pelas águas agitadas que dividem continentes, delimitam novos espaços, isolam. Estive por muitos lados, como se estivesse fugindo de algo, mas onde quer que eu estivesse, nunca fugi de mim. Com as fronteiras fechadas, agora me encontro de volta ao lugar de saída, e só me resta praticar o nomadismo interior. Dentro de casa – esse lugar que me custa reconhecer como “meu lugar” – experimento a viagem inflexiva, para dentro, e pratico outra vez a literatura como escape. Aprendi a ler assim. Sempre quis escapar da cidade pequena, e quando me era obrigado tragá-la sem escolha, eu lia, e com isso conseguia sair daqui. Lia para escapar do calor infernal, da atmosfera abafadiça que sufoca as ideias, que deixa o corpo preguiçoso e estrangula os planos como se todas as alternativas fossem vãs, lia para correr das platitudes e dos sonhos pequenos das conversas que pululavam ao meu redor, lia para desfocar a visão do amontoado de mediocridades vendidas nos sorrisos que me ofereciam uma roupa que nunca ornou em mim, lia para correr do rebanho que com a sua ânsia de submissão perfeita sempre esteve disposta a obedecer, a abaixar a cabeça; eu lia para sonhar, como o prisioneiro que lê também na esperança de planejar um futuro além das grades. A boa literatura é sempre a melhor maneira de escapar e, também, a única forma honesta de esperança. Hoje amanheceu um dia frio, quase um sonho encapsulado dentro do pesadelo em que estamos vivendo. É como se levantassem o machado que vive roçando as nossas cabeças e agora podemos, ao menos, pular. Abri as janelas e o vento gelado bateu como um sopro de liberdade, me lembrou que a verdadeira condição para o contentamento está dentro de mim mesmo, e não fora de mim, que a confiança de estar traçando no horizonte da existência um rabisco autêntico não está no que espero dos outros, mas na minha própria consciência. E agora que todo o mundo parece estar quieto, que a gritaria dos imbecis se calou por um instante, esse silêncio não é outra coisa senão a oportunidade de experimentar o melhor conselho de Zaratustra, fugir para a minha solidão, pois como disse Nietzsche, essa é a hora que os pastores não tocam suas flautas.

 

Um equívoco

Quando fui lá fora encontrei ele deitado na cama improvisada com um tapete colocado em cima da cadeira de área, essas de fios entrelaçados de borracha que deixam marca na pele depois de cinco minutos sentado. Mas ele tinha o tapete felpudo fazendo as vezes de colchão e parecia bem acomodado. De repente olhou pra mim e seus olhos arregalaram. Pulou da cadeira e correu em direção à árvore. Com o movimento precipitado a cadeira fez um barulho riscando o chão. Seu coraçãozinho devia estar disparado. E eu, na minha pressa em consertar o mal-entendido, apressei meu passo e isso deve ter lhe botado mais medo ainda. Só então me dei conta de que tinha esquecido de tirar a máscara. Antes que ele se agarrasse desesperado ao tronco da árvore, revelei meu rosto e gritei pelo seu nome. Ele se virou assustado e me olhou de novo. Em algum lugar do seu cérebro deve ter reconhecido o engano e uma onda de alívio lhe percorreu todo o corpo. Parou. Desistiu da escalada. Miou e foi se arrastando bem devagar como quem permite e espera a minha chegada. Se soubesse falar teria dito que se desculpava pelo equívoco. Eu lhe disse para não se preocupar enquanto fazia o seu corpinho pesado levitar e trazia-o para o meu colo. Depois tirei o livro “Suicidios Ejemplares” de Henrique Vila-Matas do bolso e comecei a ler um conto. Esqueci sua presença por um instante, e ele não parecia se opor à minha leitura. Voltou para a sua caminha improvisada e armou posição de contemplação com as quatro patas bem aninhadas embaixo da barriga. O céu estava cinza às onze horas, mas não tinha cara de que fosse chover. Desviei o olho do livro e percebi que ele resistia ao sono irrecusável da manhã que combina um dia fresco com o sol escondido. Seus olhinhos quase fechavam e logo se abriam, ocupados com os passarinhos que já tinham voltado à construção do seu ninho. Quantos dias já levavam nisso? Esqueci do livro e fiquei só observando até quando ele conseguiria ficar acordado. Quando estava quase se entregando ao sono chamei seu nome. Ele ouviu, mas fingiu que não ouviu. Aí então pareceu ter tomado a decisão. Fechou os olhos de uma vez e deixou sua cabeça tombar entre as patas. Estava entregue ao sono daqueles para quem o medo não passa de um falso alarme. Voltei para a minha leitura e lembrei da minha avó sentada ali na mesma cadeira um mês atrás, pela última vez. Queria que ela fosse também um gato, para quem dormir eternamente fosse tão doce quanto o sono daquele que, sem saber, ocupava agora o lugar da dona da casa.

 

Voltando para Ítaca

Escutei um carro chegando e apressei meu passo. O primeiro elevador estava lá em cima. Corri para o segundo e ele marcava o décimo segundo andar. Não vai dar tempo, pensei. O motor do carro desligou quando o elevador ainda estava no quinto e não consegui mais controlar a ansiedade. Pensei em subir as escadas. A porta do carro se fechou e um animalzinho veio marchando lentamente. As unhas batiam no piso da garagem como se nunca tivessem sido cortadas. A cadela está de salto alto, pensei. O morador chegou arrastando o chinelo e quando me viu buscou a máscara no bolso. Nos cumprimentamos de longe, uma saudação cordial, nunca o tinha visto. Ele foi em direção ao elevador de serviço, que fica a dois metros do social que eu esperava. O meu elevador tinha parado no segundo andar. Não aguentei o silêncio e perguntei se a cachorra estava grávida. O homem abriu um sorriso triste. Não, não, ela engordou quinze quilos nos últimos tempos porque só come e dorme. Tem que por ela pra correr, eu falei. No mesmo instante percebi a ambiguidade da minha frase e olhei para o letreiro do elevador que agora marcava “térreo”. É bom dar umas voltas com ela, falei em seguida, tentando aliviar o efeito negativo da minha puxação de papo. Ele pegou a cachorra no colo e nessa hora ela olhou pra mim, como se tivesse entendido a conversa. A porta se abriu e fiquei aliviado. Antes de entrar, produzi um sorriso forçado atrás da minha máscara querendo ser carismático na minha despedida, mas é claro que os dois não podiam ver. Então abri bem os olhos e inclinei minha cabeça numa espécie de saudação carinhosa, como quando estamos diante de um bebê que ainda não aprendeu a falar. O elevador começou a subir. Relaxei meus ombros numa respiração profunda. Agora era só torcer para que ninguém resolvesse apertar o botão no caminho até o meu apartamento.

 

 

Sobre o autor

GABRIEL SOARES nasceu em Birigui e se formou em Jornalismo e Roteiro na Universidade Anhembi Morumbi em São Paulo, em 2008. No mesmo ano fundou em Birigui a Livraria Moscou. Autor dos livros As Madeleines das Freiras e Cidade Pequena, ambos pela Editora Dobra. Produziu e compôs três discos com a sua banda, Atalhos, e atualmente prepara o lançamento do quarto álbum.

 

Habitar Palavras - Biblioteca Sesc Birigui

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