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Habitar Palavras: Elisandra Pereira

O SOM DO SILÊNCIO  

Sempre gostei do som do silêncio, mas foi nesse período que percebi que há tempo não estava desfrutando desse momento;  

Sempre gostei de conversar com meus alunos. Sou professora, e atuo com muita paixão, orgulho e responsabilidade,  

Sempre disse aos meus alunos o quanto me sinto plena por exercer a função de docente, mas não havia percebido, que essa plenitude se constituía não somente dos deveres que envolvem essa função, mas também, dos risos, intrigas, das dúvidas, dos ensinamentos, gírias, das piadas e de suas conversas. 

Sempre gostei de chegar no campus e dizer um bom dia, de forma bem animada, pois penso que devemos ser gratos, por mais uma oportunidade de viver. 

Sempre gostei de visitar as salas dos colegas, sinto falta de tudo e de todos! Falta do cheiro da grama roçada e do jardim tão bem cuidado pelo senhor Sebastião; do chá feito pela Marileide, do pote de balas e do jeito calmo da Ana. Também sinto falta de ouvir o “Bom dia, professora!” que a Fátima pronuncia com tanta alegria! 

Hoje estou distante desse espaço, mas a saudade se faz presente em mim,  

Hoje estou dando aula em modo remoto, 

Hoje tenho contato com os alunos por meio de uma tela,  

Hoje as aulas são silenciosas, não há risadas, não há tempo para as histórias de cada um, 

Hoje as aulas são silenciosas!  

Hoje as conversas são por meio de mensagens, 

Hoje as aulas são silenciosas, pois o tempo é curto e o conteúdo longo, 

Hoje sinto falta das risadas e das queixas dos alunos, das carinhas de sono, das dúvidas e dos conflitos dos adolescentes, do som do cajon, das danças durante o intervalo, dos abraços e das gargalhadas. 

Hoje as aulas são por meio de uma tela, o tempo é curto e o conteúdo longo. 

Hoje as aulas são silenciosas,  

Hoje o som do silêncio habita minha casa,  

Sempre gostei do som do silêncio, mas foi nesse período que percebi o quanto me faz falta o som dos alunos, do espaço do campus e de tudo que ele envolve! 

Saudades de tudo e de todos! 

  

SEU BARCO NA TEMPESTADE 

Em que barco você está, nessa tempestade chamada COVID 19? 

Se estiver no barco do emprego, agradeça! 

Se estiver no barco de ter uma casa para morar, agradeça! 

Se estiver no barco em que todos os membros da família e amigos estão com saúde, agradeça! 

Se estiver no barco de ter alimentos para todos, agradeça! 

Se estiver no barco de poder se isolar socialmente, agradeça! 

Mas se estiver no barco dos trabalhos que têm promovido grande exaustão nesse período, como os da área da Saúde, da Segurança, da Educação e da Vigilância Sanitária, a sociedade é que deve agradecê-lo! 

Afinal, estamos na mesma tempestade, mas não no mesmo barco! 

Portanto, penso que é importante compreendermos as lições desse período de isolamento social, no qual ficaram claras as consequências do abismo socioeconômico existente no Brasil.  

Lição 1: Aprendemos o que é empatia, ao ver pessoas doando seu tempo e conhecimento para desenvolver itens de segurança para a sociedade em geral; 

Lição 2: Percebemos que a arrogância e a indiferença social são ainda maiores do lado abastado; 

Lição 3: Percebemos que o uso da tecnologia na educação é extremamente importante, mas não substitui o professor; 

Lição 4: Percebemos que independente do credo, todos aguardam pela vacina, produto da ciência; 

Lição 5: Percebemos que desenvolver o pensamento crítico é essencial para a evolução social, mas que permanecer na ignorância é uma opção individual; 

Lição 6: Percebemos que diante de atitudes violentas daqueles que decidem pela desobediência as regras de segurança, em tempo de caos, o melhor é manter a serenidade e a certeza de estar do lado da razão; 

Lição 7: Percebemos que, mais uma vez, as populações negra, quilombola e indígena são as que mais sofrem pela falta de humanidade de muitos humanos; 

Lição 8: Percebemos que ser solidário pode ajudar os necessitados, mas lutar por justiça social, transforma a realidade desses indivíduos; 

Lição 9: Percebemos que, onde a intolerância social impera, o melhor é estar em paz, do que ter razão! Que tempo violento estamos vivendo! 

Lição 10: Percebemos que somos seres sociais e que precisamos uns dos outros. Afinal, ninguém é pleno estando isolado. 

 

MINHA COR, MEU AMOR, MINHA LUTA! 

Estar isolada me fez olhar mais para mim,
Me fez me perceber como ser social, 
Como mulher,
Como negra, 
Como referência para outras mulheres negras! 

Estar isolada, me fez ver meus cabelos crescerem,
Os cachos aparecerem,
E gostar do movimento de mola ao tocá-los,
Sou negra, sou mulher, essa sou eu! 

Estar isolada, me fez perceber que minha pele tem uma cor sem igual,
Um brilho natural;
E é a mesma cor! No corpo todo!
Não há diferença de cor, na pele que cobre meu corpo,
Sou inteira, sou negra, sou plena! 

Estar isolada, me fez perceber que meus lábios têm uma mistura de cores,
Lábios de cor roxa e rosa! Lindos!
Cor que nenhum batom pode se igualar!

Ah! E meus olhos?
Meus olhos são pequenos e castanhos,
Cores que se combinam e que me formam!
Cor de pele que se destaca pela beleza e pela intensidade!  
Cor de lábios belos, acostumados a dizer palavras gentis e sábias pela equidade!
Cor de olhos lindos, que enxergam o racismo contínuo nessa sociedade;
Minha cor, meu amor e minha luta se fortalecem pelo ensino da verdade! 

Sobre a autora

Elisandra Pereira, nascida em 01 de novembro de 1974, na cidade Sertãozinho-SP. Mestranda em Educação pela Universidade Estadual Paulista “Júlio de Mesquita Filho” – UNESP – campus Bauru. Especialista em Formação Docente para o Ensino da História e Cultura Afro-brasileira. Licenciada em Ciências Sociais e Tecnóloga em Gestão Empresarial. Professora da área de Gestão no Instituto Federal de São Paulo – IFSP campus Birigui. Presidente da Comissão ETNO-Birigui (Comissão de assuntos afro-brasileiros e indígenas) do IFSP campus Birigui. Membro do Núcleo de Estudos Afro-Brasileiros e Indígenas do Instituto Federal de São Paulo - NEABI – IFSP. Autora do curso de extensão Formação Docente para o Ensino da História e Cultura Africana e Afro-brasileira e do PROJETO SAWABONA: contando africanidades.

 

Habitar Palavras - Biblioteca Sesc Birigui

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