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Entrevista com Avós da razão

Foto: Vik Photo Atelier
Foto: Vik Photo Atelier

"Nós nos intitulamos velhas...

nós estamos velhas...

 

Sonia Bonetti, 83 anos; Helena Wiechmann, 92 anos, e Gilda Bandeira de Mello, de 79 anos são o trio que, desde 2018, tem um canal no Youtube chamado Avós da Razão. Elas respondem perguntas dos internautas sobre diversos assuntos, além de interagir com outras gerações. São mais de 100 mil seguidores só no Instagram e 68 mil pessoas inscritas no canal.

 

Mais 60 Para começar, falem um pouco da vida de vocês, das origens e da família.

Helena Sou de Bebedouro, terra da laranja. Sou de uma família híbrida, um lado mineiro e outro italiano. Quando era pequena, minha mãe me colocou num colégio interno e nunca ia me visitar. Depois fui para um colégio de freira, morando em uma cidade do interior, a mamãe jamais me deixaria entrar em um colégio misto, então fui fazer o curso normal. Aí chegou um dia e eu disse “não quero saber disso, não sou disso”. Encasquetei que eu tinha que vir para São Paulo. Em pouco tempo já arrumei um emprego e de emprego em emprego fui parar no cinema, que é a minha arte favorita. Casei-me com um pintor, depois com um arquiteto e depois fiquei aqui, velha, nesta “prisão domiciliar” que estou aos 92 anos.

Onde você trabalhou em São Paulo?

Helena Eu trabalhei na Companhia Vera Cruz... no prédio do Teatro Brasileiro de Comédia [TBC]. Era secretária da diretoria, daí me mandaram para a publicidade. Morei com a Ruth de Souza muito tempo. Nós dividimos um apartamento e, depois, quando me casei fui morar ao lado dela, no apartamento ao lado. Mais tarde me casei [novamente], tive filhos e quando os filhos ficaram mais ou menos independentes virei tradutora.

Gilda Bom, tenho uma família de italianos dos dois lados. É uma família de dois irmãos mais velhos e eu, a caçulinha. Depois, me casei com 23 anos, ele era advogado, aí veio o Golpe de 64 e a gente teve que adiar um pouco o casamento. E aí foi, me casei, levei uma vida normal, fui morar em Santos. Moramos um ano lá, depois, voltamos para São Paulo, ele tinha negócio aqui. Fiquei morando com meu pai e minha mãe, que é uma coisa que não recomendo. Adorava meu pai e minha mãe, mas quem casa quer casa, a gente fazia do limão uma limonada, uma caipirinha, melhor dizendo, e fomos felizes muito tempo. Tive dois filhos com ele, maravilhosos, tivemos uma vida muito agitada e divertida. Até que a gente resolveu se separar.

E depois da separação?

Gilda Aí falei, “agora vou ficar em casa, mofando?”. Eu tinha feito um curso de figurino na faculdade, na USP [Universidade de São Paulo], e fui fazer uma coisa que nunca tinha feito, nunca tinha entrado em um estúdio de televisão. E foram 23 anos no SBT [Sistema Brasileiro de Televisão] fazendo figurinos. E foi uma vida agitada pra caramba também. Aí aposentei e comecei com essa coisa de artesanato, que eu gosto de fazer, vendia um pouco, tal, até que foi criado o nosso canal na internet.

E agora, com a pandemia, é tudo pela internet?

Gilda Olha, se não tivesse a internet, eu não sei o que seria de nós, porque como a gente ia se falar, se comunicar, ia ver as pessoas? Estamos aqui, com serviço e eu não fico sozinha. A gente fala, vejo os netos... nossa, ia ser um caos sem a internet. E aí a gente aprende a mexer, é engraçado, porque a gente vai descobrindo cada coisa na internet que é fantástica.

Sonia, fale sobre você.

Sonia Eu tenho 83 anos e sou uma mistura de várias raças, como acontece no Brasil e em outros países aqui do nosso lado. Eu tenho italiano, português, essa mistura toda. Nasci em São Paulo, passei toda minha infância em São Paulo e não posso dizer que tive uma infância muito prazerosa porque fui uma criança muito presa, mais do que as crianças eram nessa época. Acontece que comecei a namorar muito cedo e me casei muito cedo... com 16 anos. Fui emancipada para casar, mas como naquele tempo nem pílula tinha, eu já estava grávida. Meu marido, que também tinha trabalhado na Vera Cruz, começou a trabalhar em publicidade. Aí ficamos morando em São Paulo, fiquei criando dois filhos, um homem e uma mulher, que hoje até já são idosos. Em seguida, quando me separei a primeira vez, tive muitos empreendimentos. Fui maquiadora, fui secretária particular, tive um box no Mercado de Pinheiros, fui modelo, enfim, tive criação de cachorros, muitas coisas.

Você sempre trabalhou?

Sonia Com a separação acabei arranjando uma nova figura do meu lado... Um companheiro que funcionou durante 30 anos, mas que depois passou a não funcionar mais, então me separei. Nessa época eu morava em um sítio, mas vim para São Paulo, continuei trabalhando, até que estamos aqui, trabalhando nós três juntas, velhas amigas e amigas velhas, e empreendemos essa novidade. Hoje em dia tem um monte de velhos do mundo inteiro que estão fazendo coisas, que estão se apresentando, fazendo programas, cantando, cozinhando, fazendo ginástica, enfim, os velhos começaram, principalmente agora, depois da pandemia, a se mostrar. Isso é justamente o que nós queríamos quando começamos o programa, foi bem antes da pandemia, acho que fomos até um tipo de pioneiras, nós queríamos justamente que o velho saísse da cristaleira e se expusesse, parasse de se apresentar como aquele bibelô velhinho, empoeirado, fora de moda, e estamos conseguindo isso.

Em uma entrevista vocês disseram que desde sempre “o jeito de ver a vida era diferente das outras mulheres da nossa geração”. O que vocês quiseram dizer?

Helena É, eu levantei a bandeira da independência.

Sonia Bom, nós sempre fomos realmente diferentes. Nós três somos pessoas completamente diferentes, mas cada uma a seu modo enfrentou aquelas coisas pré-concebidas daquela época. Eu acho que por causa disso a gente foi caminhando cada vez mais preocupadas com a modernidade, com as mudanças de hábitos... Nós pegamos uma época muito interessante, época da pílula, dos hippies, sexualmente da liberdade, música muito boa, a minissaia, foi uma época de libertação para a mulher. Nós pegamos essa época e a acompanhamos.

Helena Acompanhamos e aplaudimos, porque muita gente criticava.

Gilda A gente não só aplaudiu como participou, né? Eu já tingia o cabelo de outra cor, já fazia coisas que eram fora do padrão. Comecei a usar biquíni, tinha que esconder do meu pai, eram pequenas manifestações. Sem dúvida, depois que a gente vai ficando mais velha, vai tomando coragem e criando mais personalidade e aí você se solta. Faz coisas incríveis.

Vocês sentem preconceito por serem velhas? A gente sabe que tem um nome para isso que se chama idadismo, ageísmo... enfim, vocês sentem isso?

Helena Eu não sinto, nunca senti.

Sonia Eu não sei, teve umas duas, três vezes na minha vida de alguém me fazer uma malcriação me chamando de velha, mas gente estranha, na rua.

Gilda Eu também nunca tive nenhum olhar, nem nada...

Sonia Agora, o que eu acho é que existe um preconceito contra a idade embutido. É aquela vontade de achar que o velho não sabe fazer as coisas, que precisa de ajuda, aquela coisa de dizer que o velho tem mãozinha, pezinho... Isso é um idadismo e eu acho que a gente tem que combater, porque não é isso, nós não precisamos de carinho, nós não precisamos de ajuda, a gente precisa de empatia.

Gilda Se a gente precisa de ajuda, a gente pede. É simples. Outro dia, eu estava entrando em uma lavanderia aqui perto e tem dois degraus muito altos, aí um rapaz ia entrando e eu falei “dá a mão para mim, que eu não consigo subir”, ora, se você precisa, você pede.

Vamos falar do canal Avós da Razão. Como começou? Qual o objetivo principal desse programa?

Gilda A Cassia Camargo, que é a nossa produtora e minha ex-nora, um dia falou: “Poxa, vocês vivem no boteco aí, conversando, porque a gente não faz, sei lá, alguma coisa no YouTube? Vocês têm tantas histórias”. Nós três combinamos e começamos. Aí começou outro tipo de trabalho, que era uma coisa que a gente nunca tinha feito na vida... e daí começamos a trabalhar duro, porque tem semanas que a gente grava, como é o caso aqui, entrevistas, programas, publicidade, e é um trabalho muito gratificante, muito gostoso... a cabeça não para, porque vem assuntos que temos que estudar, ler para responder aos nossos seguidores.

Helena O objetivo primeiro é incentivar o velho a voltar à vida dele em vez de ficar em casa. Esse é o grande objetivo e o resto... a gente conversa com um monte de gente, com todo tipo de gente. É ótimo, é divertido, nós só precisamos tomar cuidado para não virar um consultório sentimental!!!

Sonia O canal Avós da Razão também tem como objetivo fazer com que as políticas públicas comecem a olhar para a gente, vendo as calçadas, por exemplo, mantendo atividades para velhos e que as marcas façam coisas para os velhos usarem. Que percebam a possibilidade que o velho tem de aquisição, que o velho tem gosto, que o velho quer se vestir bem, às vezes precisa de numerações maiores, isso também é uma coisa importante para o velho se situar.

Vocês acham que existe preconceito de velho para velho?

Sonia Existe.

Helena Mas tem velho chato também.

Sonia Às vezes contra si próprio. O velho é louco para dizer “ah, isso não é pra mim!”, “no meu tempo era diferente”, “não vou aprender porque isso aí é pra gente moça”, ele mesmo se isola.

O que vocês acham que podemos fazer enquanto sociedade civil, por meio de políticas públicas, para tentar desconstruir esses preconceitos? Vocês já estão trabalhando nessa desconstrução de preconceitos, falando sobre o velho, sobre a velhice, isso já é um trabalho superimportante, mas vocês veem outras frentes para ajudar na sociedade e nas políticas públicas?

Sonia Nós sempre estamos lutando contra todo tipo de preconceito. Nesse momento está muito difícil, estamos voltando atrás numa porção de conceitos de liberdade que nós achávamos que tínhamos ultrapassado a barreira e agora nós estamos tendo que voltar, mas é assim mesmo, é uma onda que vem e passa. E nós estamos esperando que passe logo.

Vocês sabem cativar tanto o público jovem quanto o de outras gerações no canal. Vocês têm uma ideia da média de idade de quem mais busca o canal?

Sonia É variado. Depende. No Instagram são mais jovens, no YouTube são mais velhos.

Gilda No Facebook também são os mais velhos, apesar de ter uma moçada no Face também, mas é engraçado... As perguntas dos jovens se remetem sempre a como era o Carnaval, outro dia perguntaram de moda, como eram os cabelos, se a gente usava bob...

Helena Perguntam sobre sexo um bocado também.

Como tem sido a quarentena de vocês? O que têm feito, como tem sido a rotina de vocês?

Helena Eu tenho lido um monte de livros, procuro filmes. Agora, tem que fazer comida, tem que cuidar para a casa ficar mais ou menos em ordem... Todo dia tenho que descer para pegar o jornal, porque leio o Estadão [O Estado de S. Paulo] todo dia, e as opiniões deles coincidem muito com as minhas.

Gilda Eu também leio, não tanto como a Sonia e a Helena, mas como tenho esse lance de gostar de pintar, fico no ateliê, fora que a gente está tendo trabalho todo dia aqui com As Avós, porque tem semana que a gente grava quase todo dia. Como quando a pandemia começou a gente já tinha o canal, a gente estranhou mesmo foi essa coisa de não ir para a rua e coisa e tal, mas acho que agora até já me acostumei...

Helena Mas dá uma saudade do boteco.

Gilda Boteco é um horror, dá muita saudade!

Sonia É o que está fazendo mais falta... Estou lendo muito. Também gosto de cozinhar, de comer bem, eu faço questão de fazer comida boa. Quando estou sozinha, não me sinto solitária, me sinto bem acompanhada.

Sonia, Gilda e Helena, agradecemos a entrevista. Esperamos que da próxima vez seja possível fazer presencialmente, mas, no momento, os cuidados são necessários em razão da pandemia da covid-19.

Sonia, Gilda e Helena Nós que agradecemos e da próxima vez faremos no boteco!