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Coletivo Mulheres Negras na Biblioteca fala sobre inclusão de autoras negras em acervos de bibliotecas públicas

Idealizado por profissionais de Biblioteconomia e Letras, projeto fomenta a leitura por meio de atividades culturais 


Em seu terceiro ciclo, o projeto Mulher de Palavra – Coletiva recebe o Coletivo Mulheres Negras na Biblioteca para um bate-papo e uma oficina nos meses de julho e agosto. 

O bate-papo Por que devemos ler autoras negras? acontece no dia 21/07, às 19h, e será transmitido ao vivo pelo Facebook (@sescbomretiro) e Canal do YouTube do Sesc Bom Retiro (/sescbomretiro). 

No mês de agosto, o coletivo ministra a oficina Mediação de leitura de obras de autoras negras, com três encontros virtuais nos dias 04, 11 e 18/08, às 19h. As inscrições para esta atividade podem ser realizadas a partir das 14h do dia 28/07, em sescsp.org.br/inscricoes

Mulher de Palavra – Coletiva abrange diversas formas de organização de mulheres que têm na palavra parte essencial de seu fazer. A ação tem o propósito de conectar as participantes com estes coletivos vinculados à palavra, possibilitando assim a difusão e estímulo à leitura de obras literárias femininas. 

Para falar sobre a busca do reconhecimento social de publicações de autoras negras e as causas e consequências da invisibilização destas obras e escritoras no meio literário, o Sesc Bom Retiro entrevistou as integrantes do Coletivo Mulheres Negras na Biblioteca, Carine Souza e Juliane Sousa.  


1- Como surgiu a ideia do coletivo e quais foram os desafios encontrados no início?  

O projeto surgiu em 2016, quando estávamos no curso técnico em Biblioteconomia e notamos a ausência de obras literárias de autoras negras na biblioteca da escola, e sentimos a necessidade de mudar o cenário. Para isso, angariamos livros de autoras negras por meio das redes sociais e fizemos atividades de incentivo à leitura dessas obras, que passaram a ser as mais procuradas para empréstimo na biblioteca da escola. Após essa experiência, desenvolvemos o tema de nosso TCC, “A importância da inclusão de obras autoras negras nos acervos das bibliotecas públicas municipais de São Paulo”. Com a pesquisa, comprovamos a escassez de obras de autoras negras em praticamente todas as bibliotecas públicas da cidade, o que nos fez perceber uma preocupante falta de consciência dos profissionais por trás do desenvolvimento de coleções. Daí, inevitavelmente, refletimos sobre os problemas graves dessa realidade, como por exemplo, entre outras consequências, a interferência negativa que isso faz no processo de construção da identidade de mulheres negras, uma vez que a maior parte das histórias contadas por autores cujas obras estão disponíveis nas bibliotecas retratam essas mulheres de forma estereotipada. 

Diante disso, em um coletivo inicialmente formado por quatro mulheres negras, criamos o Mulheres Negras na Biblioteca, um projeto que fomenta a leitura de obras de autoras negras por meio de diversas atividades culturais, dentro e fora das bibliotecas. A ideia é aumentar o público leitor de obras de autoras negras e incentivar as pessoas a solicitarem a inclusão dessas obras nas listas de novas aquisições das bibliotecas. 

Os desafios que enfrentamos no início ainda são alguns dos que ainda temos de encarar, mas agora com mais traquejo, como, por exemplo, a falta de recurso financeiro, atrair o público para dentro das bibliotecas, e o obstáculo maior: o racismo. Sempre tem alguém pra dizer que não tem porque pensar no gênero e etnia dos autores, que isso sim é discriminação, e acontece que, apesar de termos os argumentos muito bem embasados, isso se torna cansativo, porque temos sempre de fazer o movimento de voltar algumas páginas do livro para explicar as consequências do racismo. Isso atrasa o avanço, mas não nos faz parar de seguir.  

2 - Qual a percepção de vocês sobre o mercado editorial e a circulação de obras de autoras negras no Brasil?  
 

Embora o mercado editorial esteja mais atento às autoras negras agora, porque o movimento de mulheres negras anda chamando atenção por aí, ainda não estamos no cenário ideal. Com mais atenção, é possível perceber que essas autoras são mais publicadas por pequenas editoras, as quais nem sempre possuem uma estrutura que possa oferecer todo o respeito que essas mulheres precisam receber. Então, é muito comum vermos autoras negras premiadas, carregando malas pesadas para vender seus livros em eventos literários. Situação que não é muito comum para escritores publicados em grandes editoras. 

3 - Como têm sido o processo de inclusão das obras de escritoras negras nos acervos de bibliotecas pelo Brasil? 

Tem sido um processo lento, mas que tem ganhado força. Aqui em São Paulo, já é possível ver mais obras de autoras negras nas bibliotecas públicas, e uma consciência um pouco maior por parte das pessoas que trabalham e frequentam esses espaços.  

4 - No contexto internacional, o reconhecimento e inclusão das obras em acervos é mais acessível / descomplicado / simples? 

Recentemente, participamos de um webinar com a Ola Ronke, idealizadora da The free black women's library, uma biblioteca itinerante de troca de obras de autoras negras — inspiração da nossa biblioteca on-line —, e, com base nos relatos dela, é possível perceber que, embora nos acervos das bibliotecas de Nova York haja mais obras de autoras negras, a invisibilização dessas obras é um ponto muito comum com o Brasil e outros países. Pouco se fala dessas autoras — com exceção da Toni Morrison, prêmio Nobel de literatura — nas aulas de literatura nas escolas, e em encontros literários. O que acontece lá e aqui é fruto da mesma raiz: o racismo, que alimenta o apagamento histórico de pessoas negras.   

5 - Contem-nos sobre o impacto das ações que promovem como: clubes de leitura, bate-papos, oficinas, 'cantação' de histórias e produção de conteúdo digital antirracista. 

Nós costumamos dizer que o MNB mira no aumento de público leitor de autoras negras e acerta na formação de leitores de literatura. Afinal, o Brasil é um país que lê muitíssimo pouco, muito menos ainda quando se trata de literatura. Então, é comum participarem de nossas atividades pessoas adultas que nunca leram um livro na vida ou que ainda não foram completamente alfabetizadas. Apesar de ser chocante, o fato de essas pessoas se sentirem à vontade para participar de nossas atividades nos dá a certeza de que estamos no caminho certo, e na direção de uma mudança muito maior. 

6 - Quais as principais realizações do projeto? 

Nós somos ousadas, realizamos muita coisa incrível nesses quase 5 anos de projeto. Mas podemos dizer que as principais atividades foram:  

Roda de Poemas: Antes de Nós - inspirada em uma atividade dos anos 80, que era realizada nas ruas da cidade de São Paulo por nomes importantes da literatura negro-brasileira, como Esmeralda Ribeiro e Miriam Alves, as quais convidamos, em 2018, para conduzir rodas de poemas com poetas da nova geração, como Ryane Leão e Mel Duarte. Com a Roda, circulamos por várias unidades do Sesc, atraindo um número relativamente grande de público.  

Clube de leitura MNB: destinado a leitores e não leitores de autoras negras, o Clube MNB tem como propósito promover o contato direto do público com a narrativa dessas autoras e aumentar um interesse geral pela leitura de suas obras. De 2018 para cá, o clube já passou por diversos espaços, como bibliotecas públicas, unidades do Sesc e Fábricas de Cultura, eventualmente, com a participação de autoras negras convidadas. Agora, em decorrência da pandemia da Covid-19, o clube foi adaptado para o formato on-line, mantendo o mesmo objetivo: fomentar a literatura de mulheres negras. 

Biblioteca de trocas: a primeira biblioteca nacional de trocas on-line de livros de autoras negras.  

7 - Gostariam de compartilhar alguma história sobre os encontros poderosos dos leitores com essas autoras negras nas estantes de alguma biblioteca? 

Uma vez, fizemos um clube de leitura em uma biblioteca bem escondida em um bairro da Zona Norte de São Paulo. Geralmente, a gente faz um trabalho de pegar as pessoas que estão circulando na biblioteca pela mão e convencê-las em participar da atividade. Nesse dia, tinha uma garota negra muito tímida, resistente, mas acabou se aproximando e participando de toda a dinâmica da atividade. Quando acabou, ela pegou um livro da Angela Davis e ficou lendo num canto. A bibliotecária nos contou que ela frequentava a biblioteca há muito tempo, mas nunca havia pegado nenhum livro para ler, passava as tardes aproveitando o wi-fi para navegar nas redes sociais. Depois disso, ela pegou o livro emprestado. Essa é apenas uma das histórias sobre o poder da literatura de mulheres negras. 

 

MULHER DE PALAVRA - COLETIVA 

Esta edição do projeto promoveu ações em torno da publicação Mulheres de Terra e Água e junto ao coletivo de tradutoras Sycorax. Confira estes conteúdos em: 


Mulher de Palavra – Coletiva 

Mulheres Negras na Biblioteca 

Bate-papo - Por que devemos ler autoras negras? – 21/07 

Oficina - Mediação de leitura de obras de autoras negras – 04, 11, 18/08 

Quartas, às 19h 

 

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