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Habitar Palavras: João Pedro Cavalcanti

Felizes “para sempre”

Sobre a cama, a mala e dentro dela, Vitório guardava suas coisas. Para onde iria? Ora, para a liberdade, a qual já há tempo desejava, mas Teresa Cristina estava sempre no meio do caminho. Na juventude tudo era tão diferente. Quando a conheceu, a desejou desde o primeiro momento.

Ela, menina rica, bem-apessoada e de família tradicional; ele, um rapaz humilde muito estudioso, que aos 19 anos entra na faculdade de economia. Lá ele conhece a jovem Teresa Cristina, acadêmica do Curso de Direito. Foi amor à primeira vista por parte do rapaz. E a moça? Essa o tratava bem, mas nada além de cordialidade; era inviável para ela se envolver com aquele rapaz.

Cerca de quatro anos se passaram, ambos estavam no final da graduação e Vitório, muito apaixonado e obstinado em conquistar a bela moça, conseguiu o que queria. Depois de um ano de namoro, os dois jovens se casaram. Porém, tudo mudou, Teresa Cristina tornou-se extremamente controladora, manipuladora e ciumenta. Vitório, de início, não percebeu como algo sério as atitudes da esposa, uma vez que ambos trabalhavam fora e o comportamento dela era mais comum aos fins de semana e à noite, quando terminava os expedientes.

Um dia, com o advento da Covid-19, a rotina do casal mudou. Teresa Cristina, como Promotora de Justiça, e Vitorio, como economista, passaram a trabalhar em home office. O sonho apaixonante daquele rapaz de 19 anos converteu-se em seu pior pesadelo. As palavras acompanhadas de ameaças graves e de sentimentos possessivos se perdiam em meio ao "amor excessivo" declarado pela companheira.

Pobre Vitório era constantemente vigiado, não poderia ao menos mexer no celular sem a esposa estar por perto, era proibido sair de casa ou receber visitas dos amigos sem o consentimento dela. O isolamento social e, consequentemente, o aumento desses episódios fizeram com que o rapaz perdesse o encanto pela esposa. E se ele pedisse o divorcio? Não poderia.

Teresa Cristina o ameaçava dizendo que se assim o fizesse, ela iria deixá-lo na miséria e que jamais encontraria alguém por ser feio; que o salário dela era melhor e que em hipótese alguma conseguiria se sustentar sem ela. Como era sufocante, o sentimento de desespero era visita constante ao pobre e sensível Vitório, o isolamento social imposto pela pandemia foi capaz de mostrar ao moço quem realmente era sua esposa. 

A fim de dar um basta em todo esse sofrimento, Vitório fecha sua mala e deixa a chave do carro sobre a mesa e diz a Teresa Cristina que irá viver do que lhe permite seu salário e que Luiz, advogado da família e seu melhor amigo, entrará em contato com ela para informar acerca do divórcio.

Como Teresa Cristina nunca imaginou que Vitório fosse capaz de tomar qualquer atitude, no mesmo instante, a dissimulada o esbofeteou e abriu sua bolsa, que estava sobre o aparador, e empunhou seu revólver apontado para o peito de Vitório em última ameaça.

Sem sequer dar uma palavra, um sentimento de coragem e empoderamento tomou conta do rapaz, que simplesmente virou as costas e saiu de casa, e Teresa Cristina, com lágrimas nos olhos, foi incapaz de atirar. Tudo não passava de ameaças que tinham por intuito manter o controle possessivo sobre o esposo e apenas uma atitude de coragem robusta e eficaz foi capaz de colocar um ponto final nesse relacionamento repleto de ciúme doentio e violência psicológica.
 

Pandemia e Desigualdade: Reflexos na Sociedade Brasileira

O livro “Ensaio Sobre a Cegueira”, do escritor José Saramago, relata impactos causados por uma pandemia e a forma como muitas pessoas deixam de lado a solidariedade. Correlativamente à história fictícia, uma pandemia é uma triste realidade que traz consigo desigualdades que deixam reflexos na sociedade como disparidade no acesso à educação e o comprometimento na renda dos cidadãos.

Cabe ressaltar, em primeira análise, que a escola pública não oferece ensino de qualidade aos alunos. Dessa forma, na atual conjuntura de pandemia, esse problema foi agravado, uma vez que muitos estudantes ficaram impossibilitados de realizarem suas atividades pedagógicas remotas. Logo, essa situação compromete o desenvolvimento intelectual do discente, posto que, segundo o filósofo Emanuel Kant, o ser humano é aquilo que a educação faz dele. 

Em segunda análise, na obra “Quarto de Despejo - Diário de uma Favelada”, da escritora brasileira Maria Carolina de Jesus, é narrada a infeliz realidade das pessoas que moram em favelas. Nessa perspectiva, com o advento da Covid-19, a situação de extrema vulnerabilidade social, a qual está intrínseca aos moradores das comunidades vulneráveis, foi intensificada. Tal constatação é ratificada, nesse contexto, segundo dados do site de notícias “UOL”, os quais mostram que 72% dos moradores do morro não possuem renda suficiente para enfrentar a crise. 

Portanto, a fim de contornar essa situação, depreende-se que compete ao Poder Público, a curto prazo, promover condições mínimas de distribuição de renda a partir da criação de um fundo social econômico capaz de atingir a base da pirâmide social, com intuito de atenuar a desigualdade social agravada pela pandemia.

Em consonância a isso, seria interessante o Ministério da Educação promover o acesso à tecnologia por meio do fundo de Universalização dos Serviços de Telecomunicação, com a finalidade de aumentar a chegada de internet aos lares mais vulneráveis. Assim, os impactos causados por uma pandemia, relatados em “Ensaio Sobre a Cegueira”, seriam mitigados no âmbito social da sociedade brasileira.
 

Sobre o autor

Eu sou João Pedro Cavalcanti, estudante de 22 anos. Minha afeição pela escrita começou aos 12 anos de idade quando ganhei um concurso de redação, realizado pelo Conselho Tutelar da minha cidade, Glicério. E esse contato com a escrita aumentou quando dei início aos estudos para os vestibulares em que produzia cerca de dois textos por semana. Nesse sentido, ao obter notas altas em redação nos vestibulares, pude perceber uma certa aptidão pelo ato de escrever. Não tenho textos publicados, tampouco páginas relacionadas a isso. Além disso, o contato maior com a leitura e escrita me trouxe uma transformação pessoal e foi surpreendente o alcance que esse simples hábito trouxe à minha capacidade de raciocínio.
 

Habitar Palavras - Biblioteca Sesc Birigui

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