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Aperte o maldito botão - por Santiago Santos

No compartimento de carga da nave, uma volgan interroga um freya.

− Acha mesmo que vamos acreditar nessa história?

− Acreditem se quiser, eu só tô contando a verdade.

− Ok, deixa eu recapitular. Sua esquadra é enviada pra combater a frota da Confederação. Você, Rokro, o veterano batedor da força espacial Freyakasin, larga na dianteira, querendo mostrar serviço. Malabarismos aqui e ali e alveja dezessete naves, conseguindo furar o bloqueio e se chocar contra o nosso cruzador, quebrando o gerador do escudo, deixando a minha frota completamente entregue à sua esquadra.

− Um resumo bem completo, major.

− Um único piloto. Uma única nave. Contra uma frota inteira da Confederação.

− Eu tomei um café da manhã reforçado.

− Pode fazer quanta graça quiser. Não muda o fato de que é prisioneiro aqui.

− Sim, isso é óbvio. Mas, vem cá, como é que eu tô vivo?

− O quê?

− Se a minha nave se chocou com uma das suas, um cruzador, ainda por cima, como eu tô vivo? Como eu tô aqui?

− O choque foi grande, seu trauma também, Rokro. As memórias vão voltar. Aqui, isso pode ajudar. É um holoprojetor, só apertar o botão que verá as imagens daquele momento.

− Holoprojetor? − Rokro encara o pequeno objeto colocado diante dele na mesa, o botão enorme na superfície metálica. Ergue a mão, a segura no ar por alguns segundos, e recua. − Acho que não, major.

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Na cabine de comando do cruzador, a major Vicalis interroga o piloto Rokro, do Império Freyakasin.

− E continuam achando que foi sensato declarar guerra contra a Confederação?

− Sou um soldado, major Vicalis, como você. Não me compete interferir na esfera política. Eu recebo ordens. E cumpro. E sou extremamente competente nisso.

− É claro que sim. Mas não é desprovido de inteligência. E por isso tem uma opinião.

− Enquanto cidadão, não poderia concordar mais com a decisão da imperatriz Freyakasin. Sim, a guerra é difícil. Mas é nosso modo de vida. Quando eu era novo, todos os planetoides da cadeia Z não passavam de siglas num encadeado de nadas. Então os Toraporu vieram. Adentraram nosso sistema solar e estabeleceram suas bases de mineração nos primeiros planetoides da cadeia, todos eles desabitados, estéreis. Não abriram diálogo nenhum conosco, embora tenhamos tentado.

− Os Toraporu são uma espécie dotada de inteligência Q7. Eles sabiam que não estavam infringindo nada ao se instalarem em pedras abandonadas, para exploração.

− Não é porque são inteligentes que são educados. São estrangeiros. Chegaram em nossa casa. Abriram a porta e começaram a furar o chão da nossa sala.

− Mesmo assim, o que infringiram?

− Que petulância acreditar que as leis da Confederação são as mesmas que as nossas. Não são. Mas aqui você está certa. Não infringiram nada que pudéssemos ver, na época. E por isso não agimos, nós e os demais planetas do nosso sistema solar.

− Seus planetas escravizados, quer dizer.

− Os planetas que entenderam que seguir a administração do Império Freyakasin seria mutuamente benéfico. Hoje são todos fartos e ordenados. Pergunte a qualquer cidadão do Império o que acha de sua vida sob a batuta da imperatriz.

− Ah, sim. Faremos isso, assim que a guerra tiver fim. Não se preocupe.

− Fato é que não lançamos qualquer reprimenda, por cortesia à Confederação, e para poupar suor e sangue. E os Toraporu continuaram, intocados. Só percebemos algo de errado quando já exauriam o terceiro planetoide da cadeia Z.

− Perceberam o quê? Eles tinham uma tecnologia que os freyas sequer sonhavam, e a utilizaram em benefício próprio. O seu domínio se estende também sobre as pedras e a poeira na periferia do seu sistema?

− Todo o nosso sistema solar nos pertence. O seu vizinho planta uma árvore no canto do seu quintal, e se der frutos, são todos dele? Sabemos que a Confederação é bastante afeita à ideia de propriedade privada. Não estou compreendendo a sua dificuldade de entender isso, major.

− O que os fez mudar de ideia, Rokro? Por que resolveram atacar os Toraporu, destruir toda a sua tecnologia e invocar a fúria da Confederação Unida?

− É simples. Talvez os Toraporu tenham deixado esse detalhe de fora quando convocaram o conselho de guerra. Os planetoides exauridos por eles se tornaram ocos. Esfarelados. Montes de nada, carapaças vazias circulando pelo espaço como folhas ao vento. Com todo o seu minério teletransportado sabe-se lá pra onde. E assim nossa cadeia Z, que tinha a sua função no equilíbrio gravitacional de todo o sistema, perdeu massa. Nosso alinhamento de planetas e luas se desequilibrou. Os mares enlouqueceram. Devastação. Destruição. A exploração empreendida pelos Toraporu nos atingiu diretamente, a todo o nosso império.

− Sabe, Rokro, você não está errado quando diz que só obedecemos ordens. Mas isso é novidade pro nosso comando, sem dúvida. Por que não iniciaram com o diálogo?

− Tentamos. Nossa comitiva freya foi explodida a caminho da cúpula da Confederação, ou não se lembra?

− Aquilo foi um trágico engano, não permitimos a aproximação sequer de aliados na cúpula… Mas de qualquer forma, podemos evitar mais derramamento de sangue, se agirmos em conjunto. Posso acionar meus superiores e explicar a situação. E você pode fazer o mesmo, e deixamos os políticos se encarregarem da resolução.

− Era o que o Império queria desde o começo, major.

− Pois bem, então. Aqui, de volta, o seu comunicador. Se puder fazer as honras.

− Comunicador? − Rokro encara o pequeno objeto colocado diante dele na mesa, o botão enorme na superfície metálica. Ergue a mão, a segura no ar por alguns segundos, e recua. − Acho que não, major.

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Na sala de interrogatório da cúpula da Confederação Unida de Planetas, a major Vicalis interroga o piloto Rokro, do Império Freyakasin, capturado em combate.

− Essa tecnologia de camuflagem, de controle, a munição… Tudo na sua nave nos é desconhecido, Rokro. Nossos cientistas estão agora mesmo fazendo a engenharia reversa dos seus segredos.

− A guerra é nosso modo de vida, major. Espere… Eu… Eu já disse isso antes, não disse?

− Os nossos sedativos podem ter efeitos colaterais. Não se preocupe, são temporários. Eu estava dizendo que a tecnologia militar de vocês é impressionante e−

− É claro que é. Não declararíamos guerra contra a Confederação com pedras e tacapes.

− Obviamente. Mesmo assim, agora que temos sua tecnologia sob análise, é só questão de tempo até a decodificarmos. E aí de nada servirá esse ato inútil de resistência.

− Sou um soldado, major Vicalis, como você. Eu recebo ordens. E cumpro. E… sou extremamente competente nisso. O que é isso? Já fizemos isso antes. O seu nariz está sangrando, major.

− Não é nada. Recuperamos este controle ainda intacto da sua nave. Aqui. Sabe me dizer o que é isso?

− Claramente é um dispositivo auto-detonador. Seus engenheiros não são burros, isso seria a primeira coisa que desativariam. − Rokro encara o pequeno objeto colocado diante dele na mesa, o botão enorme na superfície metálica. Sente uma comichão de apertá-lo e mandar a cúpula da Confederação e seus engenheiros pelos ares. Ergue a mão, a segura no ar por alguns segundos, e recua. − Por que trouxe isso aqui? O que está fazendo comigo?

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Na sala de enfermaria do cruzador, a major Vicalis, ainda se recuperando dos ferimentos de batalha e sendo costurada por um enfermeiro volgan, interroga o piloto Rokro, do Império Freyakasin, capturado em combate e amarrado a uma maca.

− Estou… Minhas ordens eram para matá-lo, Rokro.

− Então por que estou aqui?

− Creio que eu devo estar… Recebi informes que meus superiores ainda não possuem, logo antes de nosso combate. Tenho… motivos para acreditar que os Toraporu não estão com a razão nesse conflito.

− É o que estamos tentando dizer desde o começo. Nossa comitiva freya foi explodida a caminho da cúpula da Confederação, ou não se lembra? Isso… De novo… O seu nariz está sangrando, major.

− O que estou tentando dizer, Rokro, é que eu desobedeci às ordens dos meus superiores, porque sabia que eles não as dariam se tivessem ciência de tudo. Mas estou sozinha nisso. Minha segunda em comando me destituiu do cargo e está vindo pra cá agora mesmo me prender e dar um tiro na sua cabeça.

− Isso… Não faz sentido algum. O sangue. Limpe o sangue, está correndo do seu nariz como água.

− Eu queria aproveitar pra te deixar ouvir isso aqui, antes do fim. Tome.

− Um comunicador? Pra quê? De que adianta?

− A mensagem gravada nele… De sues companheires, Roku e Rolp. De seu felíneo, Tuba. De sues progenitories. Não queriam que você partisse sem ouvir essa despedida.

− Eu… Como você sabe disso, como conhece elus? Você não me conhece. − Rokro encara o pequeno objeto colocado na sua mão, o botão enorme na superfície metálica. Ergue o dedo, o segura no ar por alguns segundos, e recua.

− Aperte o maldito botão, Rokro. É sua última chance.

− Isso não faz sentido. Por que estou vivo? Por que você está viva?

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Na escuridão polvilhada dos detritos de dezessete naves abatidas e do cruzador da Confederação explodido no choque com sua própria nave, Rokro flutua.

Ele sente o sangue correndo de suas narinas e de seus ouvidos, empapando os lábios e os cabelos e flutuando numa poça disforme na frente dos olhos.

Ele flutua em sua bolha de plasma térmica, sentindo o oxigênio do gerador nas suas costas pulsar e encher os pulmões.

Está à deriva, depois de ter realizado com sucesso a missão. Não ouve nada, mas num rápido relance vê as naves de sua esquadra destruindo sem dificuldade as naves restantes da frota da Confederação. Elas explodem e entulham cada vez mais o espaço ao redor. E Rokro está… pelo menos por enquanto… a salvo.

Diante de sua bolha, Rokro vê a cabine autocontida do cruzador da Confederação, separada do restante da embarcação na hora do impacto. Ele vê nitidamente a major Vicalis sentada na cadeira de comando, encarando-o. No topo da cabine, ele vê a perfuração na fuselagem, por onde o frio enregelante do espaço entrou e trucidou todos os tripulantes, inclusive a major. Um golpe de sorte. Um tiro não calculado do canhão da sua nave logo antes do impacto, talvez. Um detrito randômico da explosão, que em vez de destroçar sua bolha autossuficiente, passou de raspão e plantou o golpe de morte no refúgio inimigo.

Na própria mão, Rokro vê o dispositivo de detonação de sua bolha de plasma térmica, a tampa do aparelho aberta, seu dedo repousando úmido sobre o botão enorme na superfície metálica. Um último artifício, um ataque suicida, caso sua vida estivesse comprometida.

Mas ele não está em perigo. Fecha o dispositivo.

Por pouco a major Vicalis, mesmo congelando e tendo seu corpo achatado pela despressurização da cabine, não o levou junto. Por pouco. Ela só teve segundos para agir. Que estrago poderia ter feito se estivesse em plena capacidade? Ele não teria chance. Sua mente não teria chance. Mesmo com as centenas de horas acumuladas em defesa telepática. A Confederação mandou uma de suas melhores soldadas. Ele teve mais sorte.

Rokro, o veterano piloto e combatente da força espacial freya, mais uma vez enfrentou o impossível e fez cócegas em seu sovaco cósmico. A guerra era mesmo seu modo de vida. Se necessário fosse, ele conseguiria outra e mais outra vitória pro Império Freyakasin, nem que precisasse arrancá-las com os dentes.

Virou-se para admirar a esquadra que ele mesmo treinou trucidar as naves sem escudo da Confederação. Podia passar horas ali, testemunhando aquilo, bêbado de glória, antes que o resgatassem.

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Santiago Santos escreve em Cuiabá, bebendo um tereré. Também traduz e prepara textos e é jornalista, entre outros trampos. Há um bocado de tempo publica minicontos no flashfiction.com.br e parte desse compêndio de ficções breves desembocou na coletânea Algazarra (Patuá Editora). Também publicou a road trip inca Na eternidade sempre é domingo (Carlini & Caniato) e a noveleta Hei, hou, Borunga chegou, na revista Mafagafo.

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