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Habitar Palavras: Sidney Carvalho

Tempo 

Tempo, pedaço de sentimento que outrora contemplei. Na angústia louca de viver alucinado, um sonhador de sonhos mal formados. Fazendo da vida um sonho frequente, embriagando-se nos velhos comentários alheios. Em noites embriagadas de ébrios inconsequentes.

Buscando por ilusões perdidas no âmago de fantasias fantasmagóricas e aleatórias que rolam na mente. Eternizando entes, que se foram para um mundo além dos nossos olhos que choram. Passageiros de uma nau que navega em um horizonte desconhecido, sumindo nas nuvens que cortam o céu. Negro véu de pensamentos errôneos, buscando salvação em templos e alucinações escondidas no fundo da alma. 

O coração para de bater, agora só apanha, o pulmão sem ação para de nos sustentar. Um alienígena circula em nossas veias, velhas veias que não comportam a reação do vírus maléfico. O diafragma para de puxar ar, paralisa o organismo, não puxa mais ar. O corpo pede um abraço, a saudade, pedaços de fragmentos escritos e soltos ao vento. Palavras que seguem uma frequência aleatória, o amor, que antes escondido, pede um corpo para abraçar.

Nas ruas e avenidas, só folhas coloridas caminham despercebidas observando os viventes, presos em suas jaulas, apartamentos e casas que não têm como se abraçarem. Um refúgio, um lar. Animais passeiam livres, sem medo, procurando abrigo ou um pedaço de pão para o sustento dos filhotes. Nem mesmo sabem seus destinos, são mais livres que os homens, que na arrogância de seus dias, não têm a família para abraçar. 

Grisalhos anos, efêmeros e doloridos, colorido que estampa a alma que chora, um choro incontido. Vivendo a alusão de dias de glória, agora na reclusão do próprio lar, somos simplesmente espectros atormentados por um ser inóspito e emergente que mata o ente, deixando solidão e dor. Maculamos a natureza, desmatamos e depredamos os animais, culpando-os da contaminação que agora assola o mundo. Não assumimos o rumo de nossas demências. A lei que retorna agora é a ilusão que dissimula pessoas e deteriora o organismo.  

 

Quando eu partir 

Quando eu partir,  

E o invisível me levar, não chore. 

Simplesmente ore! 

Colha a flor mais bela, 

Aquela estampada em sua janela. 

 

Na manhã o pássaro canta uma canção, 

Majestoso sabiá. 

Uma canção que fala de amores, 

E te faça sonhar. 

 

Quando a luz do sol irradiar o amanhã, 

E o invisível me levar, 

Observe o céu com suas cores, 

Arrebol de luz, jornada que conduz ao céu. 

 

Tome banho na chuva e lembre-se de mim, 

Lembre-se de dias felizes, 

Cicatrizes ficarão, no coração, 

Deixe que o tempo escreva nossas canções. 

 

Na lápide fria e mesquinha, não estarei, 

Não perca tempo com um corpo sem vida, 

Olhe ao seu redor, tristeza e dor. 

Nunca mais sentirei. 

         

Estarei batendo na porta do céu, 

Se abrir é porque fui bom e guerreiro, 

Se não abrir, voltarei outra hora, 

Se o invisível me levar. 

 

Vírus 

Temo o vírus que assola e desola a humanidade, que padece em suas palafitas, choupanas e mansões. Chegou sem pedir licença, não respeitando status, crenças, nem posições financeiras. Chegou fazendo poeira, choradeira e confusões. Nas minhas fantasias de menino, meu herói usava máscara para esconder sua identidade secreta. Hoje uso uma máscara como meu herói usava. Só não tenho o alazão, para galopar pelos prados do meu sertão e abraçar a bela donzela e salvá-la do temido vilão. 

Tenho que conter a respiração, pode ser que o mesmo ar que respiramos possa nos matar, como mata um inseto na fumaça do inseticida. Temo que este tempo, passe depressa e não dê tempo de pedir perdão. Abraçar aquele amigo, pais e irmãos. Contemplar as flores e sonhar com amores que nunca mais voltarão. O vilão está à espreita, esperando que nos abracemos, para injetar seu veneno e levar todos para a outra dimensão. 

Uma dimensão sem retorno, causando transtorno, dor e solidão, saudade dos entes queridos, que se foram para o além. A máscara tornou-se escudo para nos proteger deste vilão, um espectro, viajante sem rumo. Não escolhe empregado, nem patrão, todos no mesmo barco, esperando uma salvação. De onde virá o socorro, pode ser que o herói mascarado perdeu seu alazão e não consegue ouvir o clamor do seu povo. Um exército está sendo dizimado, de pessoas desprevenidas pelo malvado vilão, que não dorme, simplesmente injeta seu veneno. Trazendo dor e solidão para a população que se esconde. 

A máscara virou adereço de moda, fazendo as pessoas desfilarem nas passarelas da vida, com um sorriso escondido. Não tendo mais lágrimas para chorar, buscando soluções para lhes salvarem de uma derrocada. Será o fim da humanidade ou o começo de uma nova era, o que nos esperam no final de tudo. 

Será o fim do mundo, ou recomeço de uma nova consciência, que somos passageiros de uma nave chamada vida. Que a qualquer momento pode decolar e pousar em outra estação. 

 

Sobre o autor

Sidney Carvalho, nascido na cidade de Lunardelli-PR e atualmente residente de Guarantã, interior de São Paulo. Filho de João Carvalho e Tereza Barão Carvalho, ambos lavradores, é casado com Luciana Nogueira Carvalho. Formado em Letras, Pós-graduado em Literatura Brasileira. Atua como professor de Língua Portuguesa, artesão, artista plástico e escultor. Tendo editado um livro em 2016, "Cavalo de pau", uma coletânea de contos e poesias. Sua obra mais recente, "O despertar do dragão", é um romance infanto-juvenil, além de obras publicadas no exterior.  

 

Habitar Palavras - Biblioteca Sesc Birigui

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