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Livre-arbítrio - por Tereza Yamashita

A fábrica do futuro terá apenas dois operários: um homem e um cachorro. Função do homem: alimentar o cachorro. Função do cachorro: não deixar o homem tocar nas máquinas.
(Walter Block)

 

− Chega! Poderiam parar com esta discussão ridícula, por favor?! Meus tímpanos estão estourando.

Eu vivia num vácuo atroz de solidão. Nunca entendi bem esse sentimento de… de esfacelamento. Pra mim, o vínculo do casamento era um desencanto com rima. Principalmente porque meus pais viviam numa briga constante, parecia que eu estava numa família pantanosa, que me sugava sem descanso. Um buraco negro emocional. Foram anos complexos e bivalentes.

− Você vai estragar tudo o que construímos − resmungava meu pai, encarando minha mãe com um olhar aflito. – C@©3t3! Não podemos revelar nada.

Que segredo era esse? Até os meus onze anos, eles eram os meus heróis! Depois, alguma coisa mudou. Algo em nossa vida não se encaixava.

Meus pais faziam parte do Instituto: uma equipe de pesquisa que estava tentando se comunicar com outros planetas, outras civilizações. Uma equipe especial formada por cientistas de todos os cantos do mundo. No mesmo centro de pesquisa: japoneses, alemães, russos, americanos, chineses, árabes, indianos, africanos, latinos e até nós, brasileiros. O bom de tudo isso é que eu estava aprendendo diversas línguas, diversas culturas. A maioria dos integrantes da equipe eram mulheres. Todas me tratavam como se eu fosse um bibelô, uma garota de outro mundo. Astra (que significa estrela), minha mãe, era a única casada. A única! E com uma filha: eu, Lana.

Eu odiava meu nome.

− Não sei por que você não gosta desse nome. Ele combina tanto com a sua vida − minha mãe me dizia. − Você sabe o que significa Lana, não?! É um nome com muitas origens possíveis. Com muitos significados diferentes: “minha criança”, “o mundo”, “harmonia”, “a reluzente”, “a que flutua”…

*   *   *

Depois da primeira pandemia mundial, que paralisou o planeta no início do século vinte e um, a humanidade se transformou. Em cem anos, o mundo mudou. Cientistas, artistas e filósofos acreditavam, na época, que o ser humano evoluiria. Tornando-se uma espécie mais solidária e mais consciente.

Papo furado! O que ocorreu foi exatamente o contrário. Com a ajuda da inteligência artificial e dos algoritmos profundos, que conseguiam manipular as informações e o comportamento da humanidade, o ultracapitalismo e a necropolítica chegaram ao seu auge!.

Os seres humanos começaram a se tornar desnecessários. O objetivo maior ainda eram os lucros absurdos, não importando as consequências desastrosas. Infelizmente, a Sociedade do Conhecimento e da Prosperidade, que estava sendo gestada, retrocedeu drasticamente. Os países mais poderosos acabaram com os recursos naturais. Foderam tudo! Então esses governos predatórios começaram a empobrecer. Apavorados, queriam colonizar outros planetas a qualquer custo.

O futuro como imaginávamos escorreu pelas nossas mãos.

A falta da matéria-prima que alimentava as indústrias − os recursos naturais se esgotaram, lembram? − reduziu a frase do famigerado Walter Block, sobre o cachorro e o homem, a apenas um meme engraçado e inofensivo.

*   *   *

Acham que estou fazendo drama? Que não tenho motivo nenhum pra estar furiosa?! Então saibam que em minha décima oitava primavera, eu “acidentalmente” descobri que fui, digamos, adotada.

Não foi uma adoção normal, não vim de um orfanato ou de uma adolescente que engravidou e doou o seu bebê, ou de pais que sofreram um acidente e faleceram. Meus pais − melhor dizendo, meus pais adotivos − não tiveram nenhuma escolha, coitados!

O grande conflito dos meus pais, conflito que provoca constantes debates acalorados, sempre foi contar ou não contar ao mundo o segredo sobre mim e sobre o Portal que liga o planeta Terra a um planeta alienígena.

Meus pais, como pensadores e cientistas supercautelosos, sempre tiveram medo de que essa informação levasse a um colapso global. Ou a uma grande invasão interplanetária.

O mundo estaria preparado para esta Revolução Absoluta?

*   *   *

Astra e Lucca (que significa “aquele que pertence à luz”) tinham um diário virtual em comum. Creio que propositadamente, Astra esqueceu na mesa da sala o seu laptop com um arquivo aberto. Uma maneira sutil dela revelar a minha verdadeira história.

Minha mãe era sempre a primeira a escrever e assinava D1@®10, e o meu pai sempre escrevia um belíssimo palavrão, ele era desbocado, rs. Os dois gostavam de brincar, de trocar letras por números e sinais. Um código idiota deles.

*   *   *

D1@®10 − O que ficou depois das ondas e da ressaca? Domingo, praia limpa e deserta, céu se unindo ao mar num intenso azul esverdeado. As estrelas brilhando com serenidade, em harmonia com a lua cheia. O murmúrio das ondas nos convidando a nadar. O prosecco borbulhando nas taças. Arrancamos, afoitos, nossas roupas… Mergulhamos numa vivência incrível, parecida com a profunda experiência de quase-morte que algumas pessoas relatavam.

#3®d@! − Nunca mais tivemos uma quase-morte tão maravilhosa como naquele dia, foi única. Nossos corpos, depois dos espasmos, ficaram paralisados por uns segundos. Alcançamos o orgasmo no mesmo instante. E tivemos a sensação de que o tempo parou e nossas almas ficaram pairando sobre nós.

D1@®10 − Ainda nus, perdemos totalmente a noção do tempo. Exaustos e deitados na areia, fomos atingidos por uma luz intensa, que nos cegou. Uma imensa sombra circular se fez presente. Logo em seguida, uma redoma transparente nos aprisionou. Quando abrimos os olhos, vimos uma esfera gigante sobre nós. Sua composição parecia ser de aço inox brilhante e maleável como o mercúrio. Uma linda esfera flutuante… prateada, orgânica e radiante.

Fµ©k•1t! − Nunca senti tanto medo. O êxtase fez meu corpo se arrepiar da falange distal do meu pé direito até a última ponta do fio de cabelo, se me permite uma descrição bem precisa.

D1@®10 − Você pegou em minha mão e o meu coração bateu mais forte. Será que nossa hora tinha chegado? Enfim, depois disso uma atmosfera serena nos fez sentir mais seguros.

Oh•$h1t! − Lembra? Um orifício foi se abrindo vagarosamente na esfera, e através dele passou um feixe de luz azul. Um laser suave. A luz fez uma varredura em todo o seu corpo, e parou na altura do útero. Tentei me mexer, mas estava paralisado. Seus olhos me pediram socorro e se fecharam.

D1@®10 − Violência… Sonho? Pesadelo?!

D@mn•1t! − Você morreu e não pude fazer nada, nem ao menos gritar. Agora o feixe de luz era amarelo e foi apontado pra mim. Feito um escâner, ele também percorreu todo o meu corpo. O desgraçado parou bem no meu órgão genital. Em seguida, se movimentou até você, e outro feixe apareceu com a união dos dois feixes, azul e amarelo, isso gerou outro feixe, agora o verde.

D1@®10 − Abri os meus olhos e vi a alegria nos seus olhos, que soltavam lágrimas. Olhei para o feixe de luz verde e de dentro da esfera maior apareceu uma esfera menor que veio flutuando direto pro meu útero. Não senti nenhuma dor com a esfera entrando em meu corpo. A minha barriga começou a crescer, e a tomar a forma de uma gravidez. Não conseguia me mexer nem falar, e senti o meu organismo se modificando. Meus seios também cresceram.

F1Lh0$•d@•P! − O que estavam fazendo conosco? Parece que nossas mentes foram interligadas e uma voz começou a penetrar em nosso cérebro. A voz dizia frases estranhas, mas, não sei como, nós compreendíamos tudo: “O Futuro e a Paz estejam presentes! Não se assustem. Vocês foram selecionados por nós. De acordo com nossas observações, vocês são seres humanos superiores. Nós? Vocês já sabem… Somos um povo pacífico. Queremos muito que a nossa emissária cresça e se desenvolva na Terra. Até os onze anos ela parecerá uma humana normal. Depois ela desenvolverá toda a sua potencialidade anímica… Aos dezoito anos ela começará a descobrir quem realmente é. E vocês… Vocês farão parte dessa grande transformação. E na hora certa sua espécie será recompensada pela absoluta Revolução das Estrelas. Com muito amor, tratem-na como se ela fosse a filha de vocês. Ela é uma entidade muito especial.”

D1@®10 − Parecia tudo muito simples, mas ficamos confusos, e logo adormecemos. Três dias se passaram. Acordamos em casa, e eu estava literalmente grávida. Acordei já com fortes dores e contrações. Você me levou à maternidade… E saíamos de lá com um pacotinho que sorria quando olhávamos pra ele. Eu me sentida dividida. Com muita raiva e nojo da violência alienígena. Mas também feliz com a beleza de nosso bebê.

Qµ3•Fod@! − Também fiquei puto com o estupro duplo. Parecia que eu estava vivendo numa história ruim de ficção científica, num mangá japonês aloprado. Mas não era! De um dia pro outro viramos pai e mãe de uma pequena alien. E não é que, passado o susto, eu amei?! Ah, aquele pacotinho risonho, bochechudo e olhudo…

D1@®10 − Foram três dias intensos, que pareceram nove meses. O bebê amadurecendo dentro de mim e a dor do parto fizeram eu me sentir Mulher. Quando o cordão umbilical que nos unia foi cortado… A raiva e o nojo passaram? Acho que sim… Agora eu era mãe, então um grande sentimento de responsabilidade me invadiu.

*   *   *

Quando acabei de ler essa parte do diário, simplesmente me percebi novamente num vácuo atroz de solidão. A minha vida já não fazia mais sentido. Os meus pais estavam loucos? Ou aquela história era apenas pra embelezar uma adoção?

− Fui adotada? Ou sou uma alienígena? Uma alien adotada?! Ei, vocês aí do outro mundo, onde vocês estão?!

Durante duas semanas eu fiquei trancada no quarto. Depressiva e sem vontade de viver. Quase não comia. Proibi a entrada de Astra e Lucca. Quando estava quase sem forças, numa noite limpa e estrelada, uma luz ofuscante entrou pela janela. Eu comecei a ter umas visões… Estava alucinando?!

Vi uma enorme esfera brilhante e em seu interior outras duas esferas. De dentro dessas esferas menores saíram outras duas esferas menores ainda. Elas se uniram e formaram uma terceira, como numa reação química.

De repente, eu estava flutuando em direção à praia. Do jeito que os meus pais haviam comentado no diário. Eu era a terceira esfera que flutuava suavemente através da luz. Quando percebi, eu já estava no líquido amniótico. Eu tinha me transformado em um bebê, e estava conectada àquele ser humano pelo cordão umbilical. Senti uma paz profunda, um aconchego que nunca tinha sentido antes.

Então, tudo o que meus pais escreveram era verdadeiro? Eu sou mesmo uma alienígena… Existe um Portal que une uma civilização a outra? Posso ir e voltar? Qual a minha missão aqui? Mil perguntas assombravam minha mente, e acabei adormecendo.

No dia seguinte, meus pais estavam meio ansiosos. Será que eles tiveram a mesma visão? Eu finalmente saí do quarto. Nos cumprimentamos formalmente e sentamos pra tomar o café da manhã. Um silêncio sepulcral. Até que minha mãe perguntou se eu queria alguma explicação. Quase engasgando com o leite, eu perguntei:

− Vocês viram a luz de ontem?

− Sim! O Portal − responderam os dois ao mesmo tempo.

− Agora tudo se encaixa. Sempre me senti meio deslocada, minha intuição dizia que algo iria acontecer − desabafei. − Meu corpo estava se modificando, eu experimentava sensações estranhas. Não me sentia normal perto das outras adolescentes.

− Sim, filhota, no início queríamos contar tudo, mas recebemos instruções do seu povo para aguardar o momento certo − disse minha mãe. − Foi bem difícil guardar esse segredo.

Meu pai emendou:

− Esta era a nossa briga, a polêmica secreta, que você tanto presenciou. Contar ou não contar para o mundo, para os amigos e familiares… Desculpe-nos pelas discussões, foi bem difícil pra nós também.

− E agora, o que faremos? − eu perguntei. − Tenho tantas dúvidas… Posso voltar para o meu planeta? Como acesso o Portal?

Meus pais silenciaram e ficaram estranhos, amuados.

− Eu sabia que, quando descobrisse, ela iria nos abandonar − Lucca disse para Astra, com lágrimas nos olhos. − Com certeza, quem quer ficar neste mundo caótico?

Com os olhos também marejados, Astra comentou:

− Infelizmente o seu povo tem toda a razão. Na verdade, não sei se podemos confiar nesses Visitantes… Qual será sua intenção? Mas é certo que nós, humanos, ainda não estamos prontos para tal revolução. Ainda somos ignorantes e primitivos, só queremos explorar e destruir. − Essa era minha mãe, a cientista pragmática. − Seu pai e eu tomamos uma grande decisão. Percebemos que não conseguiríamos ficar longe de você. E assim, decidimos: aonde você for, nós iremos. Se você nos quiser por perto, é claro.

Confusa, eu abracei os dois e respondi que iria pensar.

Alguns dias se passaram. Vieram novos fachos de luz. O meu povo me mostrou como acessar o Portal. Eu finalmente poderia retornar e relatar tudo o que aprendi nestes dezoito anos na Terra. Mas os Visitantes, infelizmente, não permitiram que meus pais adotivos fossem comigo.

Sim, todos estes anos… Sinto muito carinho e amor por eles. Gratidão imensa por terem guardado nosso segredo. Ficamos muito tristes, mas eu disse que, quando recebesse autorização e aprendesse a usar o Portal, eu poderia visitá-los sempre que sentisse saudades.

Mas alguma coisa não estava bem, e eu não conseguia descobrir o que era. Minha gata cor de fogo, a Nelly (cujo significado é “a que ilumina qualquer escuridão”), xereta como ela só, acabou descobrindo uma minúscula câmera de vídeo plantada em nossa casa. Eu sabia que havia algo errado, minha intuição não falhava.

Um espião… Seria alguém do Instituto?! Meus pais e eu procuramos e encontramos outras câmeras secretas, e as desativamos.

*   *   *

Noite da partida… Lua cheia.

A praia.

Voltamos ao local onde eu fui concebida, para nos despedirmos, e lá estava o fantástico Portal esférico, me aguardando.

− Filha… Chegou a hora − Astra disse, me abraçando.

− Mãe… Pai…

Eu também estava comovida. Nelly miou alto. Não devia estar entendendo nada.

Nessa hora, muitas luzes intensas ofuscaram nossa visão. Mas não eram luzes alienígenas. Eram humanas. Perigosas. Infelizmente estávamos sendo monitorados pelo Instituto. E pelo governo. Era um pequeno grupo especial de militares fortemente armados, auxiliados por robôs e drones.

Fomos cercados em poucos minutos. Então o Portal desapareceu! Houve uma grande explosão, e uma grande nuvem de fumaça branca cercou a praia… Olhei em volta e vi os corpos fardados boiando no mar.

*   *   *

− Whµt•th3•Fµ©k! Morremos? − gritou Lucca, apavorado. − Onde vocês estão?

− Aqui ao seu lado − eu e Astra respondemos, pegando em suas mãos.

Para nossa surpresa, agora éramos quatro lindas esferas que flutuavam no interior da esfera maior. A minha gata, contrariadíssima, veio conosco. Outras esferas vieram nos dar boas-vindas.

“O Futuro e a Paz estejam presentes!”

Em breve iríamos descobrir se os Visitantes realmente mereciam nossa confiança.

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Tereza Yamashita nasceu em São Paulo, entre chuvas e arranha-céus. Adora brincar com as palavras (literatura), o papel (origami) e o barro (cerâmica). Em 2016 ganhou o Prêmio Jabuti, em segundo lugar na categoria Livro Digital, com Mãos mágicas, lançado pela SESI-SP Editora. Recebeu uma bolsa do Programa de Ação Cultural (ProAC), para escrever o livro Troca de pele, publicado pela editora Hedra. Tem outros livros publicados em coautoria, pelas editoras Saraiva-Atual, Scipione e Biruta. Participou da antologia Retratos Japoneses no Brasil: literatura mestiça (Annablume). Outros contos publicados: revistas Continente, Et Cetera, Gueto e Brasil Nikkei Bungaku, jornais Rascunho e Cândido. Participou das antologias Hocus pocus high tech e Hiperconexões: sangue e titânio (Patuá), Realidades voláteis & vertigens radicais (Alink), Antologia ruínas (Patuá) e Mundo-vertigem (Alink).

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Entrevista com a autora

 

 

Resenha - por Luiz Bras