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Com mais de 40 anos de carreira, o percussionista, baterista e compositor João Parahyba participou de momentos decisivos da MPB. Em 1969, formou o Trio Mocotó, com Nereu Gargalo e Fritz Escovão e, em parceria com Jorge Ben Jor, criou o samba rock. Desenvolveu trabalhos importantes de música eletrônica, com reprocessamento de timbres acústicos e uso de loops e samples, nos anos de 1990, ao lado do produtor sérvio Mitar Subotic (Suba).

Parahyba se apresenta, desde 2009, com o João Parahyba Sexteto, com o qual foi gravado seu último CD, O Samba no Balanço do Jazz. Lançado pelo Selo Sesc, o disco – uma homenagem à geração de instrumentistas brasileiros dos anos de 1960 –, originou shows nos dias 4 e 5 de novembro, no Sesc Consolação. Em depoimento à Revista E, o músico fala sobre criações, tecnologia e mercado musical. “Vai demorar talvez uma geração ou duas para nós termos o que precisamos – um público com mais conhecimento na área musical para poder escolher melhor. Isso é fundamental”, diz. A seguir, trechos. 


Efervescência cultural dos anos de 1960

O CD [O Samba no Balanço do Jazz] é um sonho antigo de poder retribuir tudo o que aprendi com as pessoas com quem convivo desde os anos de 1960. O samba jazz é consequência de um amadurecimento da música brasileira dos anos de 1940 e 1950, com toda a influência americana que houve no Brasil.

Os anos de 1960 foram muito importantes para o Brasil, primeiro com a bossa nova. A partir daí surgiram os trios, quartetos e quintetos de música instrumental que usavam os standards [composições musicais amplamente conhecidas pelos jazzistas empregadas como base de improvisação] e criavam músicas com essa mesma harmonização e a liberdade de improviso que o jazz americano tinha.

A gente começou a criar uma identidade com o Jongo Trio, Tamba Trio, Zimbo Trio, que virou o que é hoje: uma característica do Brasil – uma música instrumental muito sofisticada. E eu cresci dentro desse caldeirão. Ao mesmo tempo em que o jazz deu a raiz harmônica europeia americanizada, o Brasil assumiu seu lado afro com Baden Powell, Vinicius [de Moraes] e Carlos Lyra. Assim como a bossa nova foi um marco na evolução da letra e música brasileira, o samba jazz foi um passo a mais para a nossa música.

Surgimento do samba rock

O Trio Mocotó criou uma identidade com o Jorge Ben [Jorge Ben Jor], mesmo dentro de um contexto político que era duro para gente. Ao mesmo tempo em que a gente era contra a ditadura, a gente cantava “Moro num país tropical abençoado por Deus e bonito por natureza”, mas isso não queria dizer que estava tudo bem. O samba rock é mais uma criação da mídia do que um estilo nos anos de 1970.

Existia a soul music, o sambalanço, mas não existia o samba rock. Talvez a relação do Jorge com o iê-iê-iê é que tenha relacionado o rock com o samba e se criou o samba rock. Quando a gente começou a cantar gritando pra fora, tocando mais alto, colocando guitarra, órgão e piano elétrico no samba e com uma postura roqueira na música, isso chamou a atenção.

E o rhythm and blues, a black music, o boogie, o rockabilly, foram coisas que colocamos no samba. Nós acabamos criando o samba rock por brincadeira e criatividade. Gostávamos de ouvir música black americana. Então, pensávamos: Aquele órgão tal, vamos colocar em uma música? Aquela guitarra com distorcedor, vamos colocar nesta aqui? Foi muito mais como concepção estética do que pensando em estilo.

Mercado musical

O Brasil melhorou muito, do ponto de vista teórico, com a criação de faculdades de música popular. Quando eu comecei na música, só existiam faculdades de música erudita. Agora que a gente está começando a estudar Tom Jobim, Carlos Lyra, Vinicius [de Moraes]. A lei de obrigação de música nas escolas foi regulamentada, mas ainda não tem nem professor para dar essas aulas.

Vai demorar talvez uma geração ou duas para nós termos o que precisamos, que é um público com mais conhecimento na área musical para poder escolher melhor. Isso é fundamental. O nosso mercado começa na escola, na formação. O Brasil não tem um mercado musical. O Brasil tem hoje um grande caldeirão no qual eu, com 40 anos de música, estou competindo com um garoto que está no terceiro ano da faculdade e faz um disco em casa.

Ele toca no mesmo bar que eu, que, pelo meu conhecimento, exijo uma série de coisas para a minha banda. Ele chega lá e fala: Se você me der bebida e eu puder trazer minhas amigas aqui, está tudo bem. A gente ainda não tem um mercado consumidor, nem de instrumentos, nem de faculdades, nem de bares, a gente está começando isso agora no Brasil.

Música eletrônica

Quando comecei a querer montar um trabalho com composições eu não tinha instrumento harmônico. Apareceram os primeiros teclados eletrônicos, os primeiros ritmos Midi [Musical Instrument Digital Interface, tecnologia de comunicação entre instrumentos musicais e equipamentos eletrônicos que permite executar e alterar composições] e eu tinha uma bateria eletrônica que comprei para estudar.

Meu primeiro disco foi composto nela. Depois que arrumei um teclado e harmonizei aquilo, coloquei a introdução, fiz um arranjo, mas comecei fuçando numa bateria eletrônica. Logo em seguida, arrumei um computador Atari e fazia músicas nele, tudo o que eu precisava estava nele. Isso me ajudou muito a abrir a cabeça do ponto de vista tecnológico.

Essa evolução da tecnologia musical foi muito importante para democratizar e abrir espaço para qualquer músico. Então, eu já tinha um conceito musical eletrônico quando conheci o Suba [músico sérvio Mitar Subotic, viveu de 1961 a 1999], só que eu vinha de uma escola mais formal.

E o Suba chegou pra mim e disse: Não é nada disso não, você não tem obrigação de fazer musiquinha com comecinho, meio e fim, você pode pegar o fim e colocar no começo. Joga tudo num balaio, mistura bem e faz outra coisa. Você gosta de bater em lata? Então vamos transformar esta lata num som. Foi ele quem desorganizou minha cabeça, no bom sentido.

“Nós acabamos criando o samba rock por brincadeira e criatividade. Gostávamos de ouvir música black americana. Então, pensávamos: aquela guitarra com distorcedor, vamos colocar nesta música? Foi muito mais como concepção estética do que pensando em estilo”