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Ambiência: espaços vivos que promovem saúde

texto: Carina Flosi fotos: Flavita Valsani

Os locais onde moramos e trabalhamos não são feitos apenas de paredes, pisos e tetos, mas também de pessoas que neles se relacionam e se transformam

Na década de 40, o médico René Spitz descobriu que crianças criadas sem a presença da mãe, desvinculadas de qualquer laço afetivo, inclusive das pessoas que cuidavam delas, de modo totalmente impessoal, sofriam de perturbações físicas e mentais. Muitas adoeciam e morriam. O especialista chamou esse fenômeno de hospitalismo: situação na qual afetos, desejos, sonhos e energia não mantêm, em um espaço, integração suficiente para acolher e gerar bem­estar. Ou seja, promover saúde. Ele concluiu que a energia ficava retida, estagnada, comprimida, produzindo as mais va­riadas doenças.

Com o passar das décadas, a pes­quisa de Spitz ganhou dimensão e levou profissionais da saúde, arqui­tetos e empresários a repensarem a importância do meio como fator fundamental para a promoção e manutenção da qualidade de vida das pessoas, sejam elas crianças ou adultos. Formou­se, então, o con­ceito chamado ambiência, que é o uso coletivo dos espaços em transformação constante.

Para a arquiteta Mirela Pilon Pes­sati, consultora da Política Nacional de Humanização (PNH) do Ministério da Saúde, a saúde se adquire e se mantém através de práticas que levam em con­sideração não apenas as pessoas, in­dividualmente, mas os contextos em que vivem, uma vez que o meio é fun­ damental tanto na produção da saúde quanto do mal­estar. “Por meio de ofi­cinas de ambiência entre as comu­nidades e funcionários das unidades de saúde, demonstramos que os es­paços não estão lá para serem con­templados, mas para serem usados e transformados”, explica.

Após as oficinas, os espaços são reformados para acolher, incluir e alterar todos os processos de atendi­mento de pacientes e acompanhantes. “A ideia é que as pessoas sintam-­se pertencentes ao lugar. Além de pro­mover espaços saudáveis e confortá­ veis, é premissa da PNH é a valorização da ambiência como mudança das rela­ções de trabalho”, acrescenta.

Na avaliação da coordenadora do Programa de Saúde do SESC São Paulo, Adriese Castro Pereira, a instituição já aplica a ambiência em todas suas uni­dades, seguindo a tendência da pro­ moção do bem­estar. “No SESC apenas estamos dando nome para algo que já fazemos. Olhamos o espaço como um local apropriado para as pessoas se en­ contrarem e trocarem experiências de uma forma descontraída e acolhe­ dora”, afirma.

No ambiente corporativo, muitos empresários já orientam seus ges­tores de recursos humanos e de ou­tras áreas a serem guardiões de uma ambiência favorável à produtividade e à manifestação da potencialidade dos profissionais. “A saúde dos funcioná­ rios é a saúde da organização da qual participam e estão intrinsecamente ligadas”, explica a consultora de ne­gócios Beia Carvalho.

Construções sustentáveis

Neste Dia Mundial da Saúde, algumas questões sobre a falta de espaços para as pessoas escutarem e comparti­lharem os sentimentos pessoais e pro­fissionais ganharam evidência.

O Engenheiro Ambiental Henrique Ferreira Ribeiro, diretor geral da Am­ biência Soluções Sustentáveis, explica que a aplicação dos conceitos de sus­ tentabilidade e ambiência nas constru­ções beneficia, diretamente, a saúde das pessoas que vivem ou trabalham nesses locais. “Nossas construções não utilizam materiais prejudiciais à saúde humana, como COV’s (Compostos Orgânicos Voláteis) e amianto. Além disso, criamos espaços arquitetônicos que exploram ao máximo a ventilação e insolação natural, ingredientes que contribuem para a redução dos riscos à saúde e para a melhoria da qualidade de vida das pessoas”, explica.

A criação de condições favoráveis a uma ambiência de trabalho que esti­mula o desempenho dos empregados, assegurando o envolvimento e o com­prometimento com os resultados em­presariais desejados foi tema de uma pesquisa da Associação Nacional de Arquitetura Bioecológica.

Segundo a ANAB Brasil, as pessoas que freqüentam construções sustentá­veis têm alterações positivas de com­portamento. Uma pesquisa divulgada pela associação revelou que 16% das pessoas tiveram melhoria da produ­ tividade no trabalho. Já as vendas nos locais com iluminação natural aumen­ taram 40%, comparadas às realizadas em locais fechados. E para cada U$ 1 investido na construção de edifícios sustentáveis, houve retorno de U$ 11 relacionados à saúde e produtividade.

Ambiência em centros urbanos

A ausência de espaços acolhedores e a relevância deles para a saúde dos moradores dos centros urbanos que convivem em espaços degradados in­centivaram a fonoaudióloga e especia­lista em saúde pública Lourdes D’Urso e o profissional de educação física e consultor em saúde e lazer Marcos Warschauer a participarem do pro­grama “Caminhando para a Saúde”, que teve início em 2003 em Santo André, no ABC. “O conceito que nor­teou o grupo de caminhada foi o de promoção da saúde. Nosso objetivo foi melhorar a qualidade de vida da população incorporando hábitos sau­dáveis ligados a práticas corporais, além de incentivar a sociabilidade”, diz Lourdes.

Mesmo enfrentando dificuldades para encontrar locais adequados à prá­tica da caminhada, pelo fato de muitas ruas serem movimentadas e aciden­tadas, o resultado da aplicação da am­biência em grupos de caminhada surpreendeu a especialista. “Conseguimos ir além dos conteúdos da atividade física e do monitoramento físico, incentivando a formação de um grupo social, priorizando a solidarie­dade e a comunicação entre as pes­soas”, enfatiza.

“Nossa experiência aponta que não basta pensarmos na criação de espaços bonitos, arborizados e seguros se não criarmos condições favoráveis para que as pessoas usufruam desses lo­ cais”, completa Warschauer.

Outro ponto importante de des­taque foi a construção de ações ligadas à promoção da saúde, como passeios, palestras, debates, oficinas de alimen­tação saudável e encontros em par­ques públicos.

“No caso da caminhada, a ambi­ência favoreceu os relacionamentos pessoais, o cuidado com o outro, a res­ponsabilidade mútua, a comunicação e o estímulo à solidariedade, como na ajuda ao atravessar uma rua ou em si­tuações cotidianas.”

 

O que é ambIência?

O termo designa o espaço físico, social, profissional e de relações interpessoais em sintonia com projetos voltados à atenção acolhedora, resolutiva e humana. A ambiência é orientada por três eixos principais:

1) O espaço que visa o conforto É importante conceber ambiências confortáveis e acolhedoras, de modo a favorecer a privacidade e individualidade dos usuários do serviço e trabalhadores que usam o espaço; valorizando a utilização de componentes do ambiente que interagem com as pessoas, em especial, a cor, a luz, as texturas, os sons, os cheiros e a inclusão da arte nas suas mais diferentes formas de expressão. Esses componentes atuam como qualificadores e modificadores do espaço, estimulando a percepção ambiental e quando utilizados com equilíbrio e harmonia, criam ambiências acolhedoras que podem contribuir no processo de produção de saúde e de espaços saudáveis.

2) O espaço como facilitador do processo de trabalho A ambiência isoladamente não altera o processo de trabalho, mas pode ser usada como uma ferramenta que contribua para as mudanças, através da coprodução dos espaços aspirados pelos profissionais de saúde e pelos usuários, com funcionalidade, possibilidades de flexibilidade, garantia de biossegurança relativa à infecção hospitalar, prevenção de acidentes biológicos e com arranjos que favoreçam o processo de trabalho.

3) O espaço de encontros entre os sujeitos O modo de produção coletiva dos espaços se relaciona ao método da inclusão adotado pela PNH (Política Nacional de Humanização) como um dispositivo de transformação, que propicie a criação de espaços coletivos (oficinas, rodas) para discussão e decisão sobre as intervenções que se fazem necessárias no espaço físico dos serviços de saúde.

Dicas para se implantar um projeto de ambiência 

- Crie um espaço coletivo para discussão e decisão sobre as intervenções no espaço. Pode ser por meio de uma oficina de ambiência ou uma roda de discussão onde estejam incluídos gestores do serviço, trabalhadores, representantes dos usuários, profissionais de arquitetura e engenharia.

- Pense em uma dinâmica de trabalho com o grupo que inclua a presença de um apoiador/ facilitador.

- Promova discussão sobre o espaço atual e os processos de trabalho que acontecem ou acontecerão no lugar que passará por reforma, descrevendo esses processos por meio de fluxogramas analisadores, diagramas ou outro instrumento que o grupo achar mais adequado.

- Verifique o que a normatização prevê de características, instalações e dimensões do espaço a ser reformulado. Esse processo e seu produto será o subsídio para os profissionais de arquitetura e engenharia desenvolverem um ótimo projeto para a intervenção no espaço físico, garantindo a participação dos usuários do espaço.

Fontes: Política Nacional de Humanização do Ministério da Saúde, arquitetos e especialistas