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"Sobreposições" de Marcos Gorgatti ocupa o Sesc Belenzinho

'Ocupação Gráfica', com o trabalho 'Sobreposições' de Marcos Gorgatti<br>Foto: Raul Lorenzeti/Sesc
'Ocupação Gráfica', com o trabalho 'Sobreposições' de Marcos Gorgatti
Foto: Raul Lorenzeti/Sesc

A EOnline conversou com o artista gráfico Marcos Gorgatti sobre sua obra no paredão ao lado da Comedoria, parte do projeto "Ocupação Gráfica" do Sesc Belenzinho, exposta até 08/dezembro

Quem visita o Sesc Belenzinho não fica imune ao paredão de 140m², ao lado da Comedoria, que se estende até as quadras e a pista de corrida.

O que pouca gente sabe é que o espaço é parte do projeto "Ocupação Gráfica", pensado pelo Núcleo da Imagem e da Palavra, para redesenhar a área com intervenção gráfico-pictórica planejada para o local. Marcos Gorgatti assina a terceira edição do projeto que já contou com a artista gráfica Mariana Zanetti e o coletivo Base V.

A EOnline conversou com Gorgatti sobre como é ser artista no Brasil e a obra no Belenzinho que, em dias polêmicos sobre mobilidade urbana, apresenta novas leituras a cada olhar. "Fazer arte pra mim é mais uma postura de interromper os fluxos automáticos que reproduzem a própria sociedade e de propor novas formas de lidar com ela do que reafirmar a estrutura em que ela está inserida", explicou o artista. Confira esses e outros trechos a seguir:

EOnline: A sua formação enquanto artista se deu em quais âmbitos?
Marcos Gorgatti: Na virada do milênio, quando ainda estudava ciências sociais, arrumei um emprego de arrumador de atelier no MAM-SP. Duas exposições lá me marcaram bastante: uma do Cildo Meireles e outra a da coleção do Adolfo Leirner, que era basicamente de arte concreta brasileira, elas mudaram os meus rumos. Eu fiz também, "ilegalmente", uma série de aulas como ouvinte na pós-graduação da USP que foram importantes. Depois disso morei um tempo na Inglaterra, o que permitiu olhar pra minha cultura e pra minha produção com um distanciamento crítico.

EOnline: A intervenção em espaços abertos faz parte da sua pesquisa?
M. G.: Não especificamente. Eu tenho um interesse pessoal em trabalhar com materiais e situações com que nunca trabalhei antes, e tanto o uso do estêncil quanto fazer "arte de rua" foram uma novidade para mim. Isso acontece com frequência porque eu nunca sei a priori com que tipo de espaço e de técnica tal ideia inicial se relaciona melhor.

EOnline: Fale um pouco sobre sua trajetória enquanto artista. Fazer arte no Brasil é algo que vem da elite para a elite?
M. G.: Eu trabalhei como educador em diversos museus e institutos pela cidade e essa experiência me ensinou a sempre pensar nos dois lados, ou seja, na pessoa que vem ver a exposição e no que está exposto. Isso me fez ter uma visão relativista dos fatos, no sentido de que, muitas vezes, numa visita com um grupo, eu achava mais importante falar sobre conceitos básicos de cidadania do que sobre conceitos básicos de arte moderna, por exemplo. Eu era mais um incentivador da experiência de um modo mais amplo do que um "ensinador" de arte. Muitos visitantes vinham pela primeira vez a uma instituição de arte e muitos destes tinham saído pela primeira da periferia da cidade. Me lembro de sempre insistir em dizer que os espaços de arte, de certa forma, pertenciam à eles e que eles não eram só muito bem-vindos alí, mas que o espaço de exposição dependia da presença deles para continuar existindo.

Sobre a sua segunda pergunta, eu vejo por aí diversos tipos de arte. O tipo de arte que eu faço dialoga com as instituições de arte das quais o próprio Sesc faz parte. Eu acho que fazer arte está mais ligado a uma proposta de construir algo que vá contra as tendências produtivas e utilitaristas da sociedade do que a uma coisa elitista que seja determinada pelas condições materiais de existência. Me explico melhor: fazer arte pra mim é mais uma postura de interromper os fluxos automáticos que reproduzem a própria sociedade e de propor novas formas de lidar com ela do que reafirmar a estrutura em que ela está inserida.


EOnline:
O painel do Belenzinho está ocupado com um 'amontoado' de carros e esse motivo ocupa um espaço fora da unidade também. Existe diferença na crítica e abordagem do tema num espaço 'privado' e outro público?
M. G.: Não, inclusive eu acabo de montar uma instalação numa galeria comercial com o mesmo "assunto". Nessa instalação, chamada "Projeto para Calçada", eu transformei a tradicional calçada com mapa de São Paulo num engarrafamento de carros. (foto)

EOnline: Recentemente um editorial do jornal O Estado de S. Paulo chamou de demagogia da mobilidade às políticas de transporte público em detrimento ao transporte individual. Pode-se dizer que a sua obra dialoga com essa questão?
M. G.: Definitivamente sim. Para mim é óbvio que as cidades precisam de políticas que incentivem deliberadamente o transporte público em total detrimento do transporte privado. O trabalho nos muros do Sesc, que se chama "Sobreposições", tem um caráter ambíguo que me interessa: por um lado ele apresenta cores e formas sobrepostas e justapostas de forma lúdica, e por outro, quando visto de certa distância, ele apresenta, como você mesmo diz, um amontoado de carros que se aproxima mais do excesso vertiginoso e de uma interrupção de fluxo de vida do que de uma composição harmoniosa de formas coloridas.

EOnline: Grafite, intervenção, pixo: a cidade deve ser ocupada também nesse sentido?
M. G.: Eu tendo a ver tanto o pixo quanto o grafite como manifestações absolutamente legítimas dos sentimentos das pessoas em relação às vidas que elas levam nas cidades.

o que: Ocupação Gráfica | Marcos Gorgatti
quando:

de 20/setembro a 8/dezembro

onde:

Sesc Belenzinho

 

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