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Episódio, verídico, com um Silva

Há dez anos, no dia 4 de novembro de 2003, Hélio Cícero fez a leitura dramática deste texto do contista, cronista e jornalista brasileiro, Lourenço Diaféria, durante o  Encontro Anual do Mesa Brasil SESC São Paulo, que aconteceu no Teatro Anchieta, no Sesc Consolação

 

crônica de Lourenço Diaféria

O que vou contar é real. É um fato fugaz que aconteceu numa distante madrugada urbana. Tinha chegado em casa bem tarde vindo do serviço. Sobre o fogão de quatro bocas, desligado, repousavam as panelas com comida para requentar. Ia ser a janta. Acendo o gás, ligo o exaustor. O cheiro de tempero chega à rua. Enquanto espero aquecer o arroz, o feijão, o bife e uma verdura, alguém preme a campainha junto ao portão de ferro. Na época, o portãozinho já diferenciava casa de prédio de apartamentos. Quem tocara a campainha fora o Silva. Estava acordado. E com fome.

Nunca soube se o Silva tivera nome quando criança, se fora moleque, possuíra carteira de identidade, título de eleitor, ou outro documento que as pessoas carregam enquanto respiram. O Silva era simplesmente Silva. Vivia nas ruas educado pelo relento. Não se vestia de andrajos. No inverno conseguia sempre descolar uns agasalhos. No verão usava camisetas. Nas garoas protegia a cabeça com chapéu ou boné. E nos dias de chuva dava no pé, desaparecia por completo. Gastos e esfolados os sapatos mantinham sinais de que tinham pertencido a pés abonados. Enfim, mesmo com a imagem dissimulada de pobreza, o Silva distinguia-se da miséria coberta de jornais, folhas de papelão e trapos de mendigos. Se não fosse andarilho de barba, o Silva seria confundido como um cidadão comum. Na pior, mas quase comum.

Atraído pelo cheiro de comida o Silva premera a campainha. Trazia nas mãos uma lata de leite em pó sem rótulo, vazia, limpa. Confiando na sinceridade da fome solicitou como direito adquirido:

- Uma janta, por favor.

De madrugada todo estômago vazio desmaia ou tem insônia. Silva estava com sorte. Conseguiu encher metade da lata com comida quente. Não disse muito obrigado, nem muito agradecido. Antes de virar as costas e se afastar do portãozinho, levantou a lata com as duas mãos, ergueu os olhos para o céu sem estrelas, sem lua, sem vaga-lumes, e disse apenas esta coisa simples:

- Deus é grande.

Fosse esta história coisa inventada, poderia terminar aqui com final feliz. Ocorre que a vida não é novela. A realidade não tem script. Por motivos nunca sabidos, o Silva morou na rua apenas mais três dias. Na manhã de sol, foi encontrado caído na sarjeta, fulminado por uma síncope. Foi enterrado como indigente. A lápide de madeira não teve nem apelido. Só um número. De modo que ninguém ficou sabendo do gesto amigo que recebera na madrugada esquecida. Supõe-se que em algum lugar devem ficar registrados os pormenores da vida. Dizem que os atos de misericórdia não se apagam nunca, mesmo que tenham outro nome: justiça, solidariedade, compaixão, benevolência.

Hoje existem cada vez mais formas de explicar a fome no planeta. Mas a desculpa mais cômoda e cruel para não combatê-la chama-se indiferença. Há mais de vinte séculos uma pequena multidão de cinco mil pessoas foi convidada a sentar-se na relva em pequenos grupos para dividir cinco pães e dois peixes que um menino levava no farnel. O alimento foi distribuído sem desvios. Todos comeram. Todos se saciaram. Dizem que se recolheram depois doze cestos de sobras. Como o excesso também deve ter sido dado a quem faltava, embora não escrita essa parece ter sido a segunda parte do milagre. Milagre depende de fé, e de crer que o ser humano pode abrir a porta ao ouvir soar a campainha. Foi o caso do falecido Silva.


O Encontro Anual do Mesa Brasil SESC São Paulo homenageia as empresas e os voluntários que, em parceria com o SESC, participam desse programa de segurança alimentar, cujo lema é a luta contra o desperdício. Organização, mobilização, compromisso e seriedade têm consolidado esse movimento que, a cada dia, conquista repercussão social maior e mais transformadora nas várias esferas em que se realiza.

Em 2002, durante o encontro, o evento foi dedicado à memória de Josué de Castro, retratada no documentário de Sílvio Tendler, cuja projeção realizada no CINESESC, integrou a programação.

O encontro deste ano foi realizado no Teatro SESC Anchieta, em 04 de novembro, com a apresentação do documentário sobre o programa Mesa Brasil SESC SP; o debate “450 anos - Sociedade e solidariedade em São Paulo” – com Danilo Santos de Miranda, diretor regional do SESC SP e Jorge Caldeira, historiador convidado – e a leitura dramática da crônica de Lourenço Diaféria, feita pelo ator Hélio Cícero.


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