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A literatura como forma de compreender o seu tempo

A EOnline conversou com Juliano Pessanha, autor da trilogia "Certeza do agora", "Sabedoria do nunca" e "Ignorância do sempre", na ocasião do encerramento do projeto "Estante Viva" de 2013, que expõe na unidade, até o final de novembro, livros selecionados pelo autor, para consulta. Após a exposição, os livros estarão disponíveis para empréstimo.

A literatura, para Juliano Pessanha é instrumento de questionamento. "A literatura sempre foi o asseguramento do direito de um homem dizer tudo, independentemente das representações e reivindicações de grupos ou espelhamentos sociais de um tempo e lugar".

Em Ignorância do Sempre, ele escreve:

"Diante dos olhos
a luz-agulha da verdade:
em sua atrevida nudez vomita
como o ventre bilioso de um vulcão".

Convidado a escolher os livros do último "Estante Viva" de 2013, o escritor falou com a EOnline sobre literatura, filosofia e suas concepções de mundo enquanto autor. Confira, a seguir, os principais trechos da conversa.

EOnline: Os livros de sua autoria misturam diferentes abordagens literárias e, de certa forma, podemos ver isso na sua lista para o "Estante Viva", mesclando Cioran, Nietzsche, a Dostoiévski e Clarice Lispector, por exemplo. Como se deu a sua formação enquanto leitor/escritor e o que o levou à predileção pelo ensaio e a poesia? (assumindo, é claro, que haja esta predileção, exposta nas suas obras publicadas)
Juliano Pessanha:
Não tenho predileção por um gênero específico. Li indistintamente poesia, ensaio, ficção, filosofia e psicanálise. Acredito que meus livros, ainda que de um modo não programático, desfazem e rompem essas fronteiras. Como escritor, comecei escrevendo diários. Aliás, uma curiosidade: nestes diários copiei de próprio punho Notas do subterrâneo de Dostoiévski e O homem sem qualidades, de Robert Musil. Neste último, acrescentei comentários ao longo da cópia.

EOnline: Há na sua lista, talvez, uma constância "temática" que perpassa todas as obras selecionadas? É possível dizer que são títulos que versam especialmente sobre a condição humana enquanto vontade de entender e apreender um espírito do seu tempo?
J.P.:
Sim, há isso. Basicamente a tentativa de me compreender no mundo em que vivo.

EOnline: Poucos escritores nacionais e alguns filósofos na sua lista: você possui uma formação em filosofia e isso claramente se traduz tanto nas obras selecionadas, quanto nas suas obras publicadas. Você poderia falar sobre o papel da filosofia para formação de um leitor mais crítico e menos "distraído"?
J.P:
Para mim, o texto filosófico implica em um momento menos distraído, já que atinge um alto grau de explicitação conceitual das questões. Eu, apesar de ter lido bastante literatura e poesia, adquiri uma coluna vertebral com a leitura de Nietzsche e Heidegger. Em certo sentido, eles me empobreceram, pois esclareceram cedo demais algumas questões cujo desconhecimento teriam me provocado e condenado a escrever em busca de uma resposta que via eles, e Blanchot, já estava “dada”. Há um grande perigo em saber demais sobre aquilo que nos leva a escrever... O perigo de ser silenciado.

EOnline: Lê-se/consome-se pouca literatura no Brasil, um país de dimensões continentais e ainda ocupado, em sua maioria, na costa, no 'leste maravilha'.

Assumindo o entendimento de Gramsci sobre sociedade, no qual a mesma é tratada como um campo estratégico de lutas por hegemonia entre blocos que não estão isolados ou dicotomizados em classes, no qual a cultura é também espaço de articulação de conflitos; quais seriam, na sua opinião enquanto autor, as grandes disputas no campo literário brasileiro? É possível dizer que estas disputas se dão de forma a "travar" as relações dentro deste campo?
J.P:
Há disputas refletidas no campo literário. Creio que nele a minha posição é minoritária, pois para mim a literatura sempre foi o asseguramento do direito de um homem singular dizer tudo independentemente das representações e reivindicações de grupos ou espelhamentos sociais de um tempo e lugar.

Enquanto alguns disputam uma fatia de poder no mundo, eu formulava uma questão anterior: o que é estar dentro ou fora do mundo? É possível encontrar-se numa situação de exclusão mais radical que as de natureza econômica e social? Minha questão, semelhante à de Kafka (escritor austríaco), pensava que a grande reivindicação era a de um dia poder estar no mundo. Por isso trabalhei mais com a noção de identidade negativa (aquele que não consegue se determinar, um não nascido), do que com a de um sujeito constituído. Como é que um homem rasgado vai ter bandeira já que ele próprio não sabe o que é? Quando o mundo é perplexidade, a posição é de fronteira.

EOnline: Recentemente, na abertura da Feira de Frankfurt, na qual o Brasil foi o país homenageado, Luis Ruffato fez um discurso alinhavando a sua trajetória de transformação pela literatura às mazelas que ainda assolam o país. Você teve acesso ao discurso? O que achou? Acredita no poder transformador da literatura, como foi pontuado? Sobre a feira: acredita que o investimento feito está em consonância com o poder transformador da literatura ou atende a outros poderes, transformadores em menor escala e eficácia?
J. P.:
Não li o discurso de Ruffato. Ouvi alguns comentários. Concordo que o Brasil é um país extremamente injusto e que nele ainda esperamos uma melhor distribuição de renda e dos bens culturais. Mas por que a literatura precisaria estar a serviço do progresso da civilização e de um ajuste de contas? Talvez ela deva questionar exatamente isso. A literatura mostra o embate do homem com aquilo que muitas vezes ele não transforma e do incontornável de cada um. A modernidade vive do mito da transformação e da autotransformação infinitas. Ao acreditar nisso se perde o enigma que nutria a literatura, e a palavra vira um mero instrumento realizador.

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