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Como se “redescobre” um músico com mais de 40 anos de carreira?

Ele viveu o céu e o inferno que o sucesso pode proporcionar. E não necessariamente nesta ordem.
Ele viveu o céu e o inferno que o sucesso pode proporcionar. E não necessariamente nesta ordem.

O goiano, que começou a compor aos 17 anos e aos 19 já gravava seu primeiro disco, também tocou em inferninhos e dormiu na rua; foi criticado pela igreja e censurado pelo regime militar. Emplacou dezenas de hits nas rádios, vendeu milhões de discos. Mas também viu portas se fecharem e o sucesso minguar.

Odair José, artista de números expressivos - são 35 discos gravados e 400 composições, passou um bom tempo no ostracismo e fazendo música, segundo ele, sem muita disciplina. Nos últimos 10 anos, contudo, a carreira teve um reaquecimento gradual e atualmente Odair comemora os bons frutos dessa nova fase.

Nos dias 19 e 20 de dezembro lança o box Quatro Tons – Odair José no Sesc Pompeia, oportunidade para quem quer relembrar grandes sucessos da década de 1970 ou conhecer o supra-sumo do trabalho deste que foi chamado de “Bob Dylan Brasileiro”. O músico diz estar muito feliz por voltar ao no Sesc Pompeia.“Toquei lá pela última vez há uns três anos, com o Zeca Baleiro. Quando meu produtor falou do Sesc Pompeia para os shows de lançamento, respondi: claro! Topei na hora. Acredito que vai ser muito bom”, conta sem esconder a expectativa.

A coletânea integra a série Tons, da Universal Music, responsável também pelo relançamento de trabalhos de Maysa, Rita Lee, Carlos Lyra, Fafá de Belém, Alceu Valença, entre outros. Em Quatro Tons – Odair José estão reunidas as composições de quatro álbuns fundamentais de sua discografia – todos da década de 1970, quando o artista, um dos mais populares na época, viveu seu auge: Assim Sou Eu... (1972), Odair José (1973), Lembranças (1974) e Odair (1975). Odair, que não participou da escolha dos discos, confessa que se surpreendeu com a qualidade do trabalho: “gostei da seleção. E a qualidade ficou muito boa. Tá lá a melhor parte [de suas músicas].”

“Assim Sou Eu...” (1972) apresentou a novidade: em vez de ter Roberto Carlos como referência principal, o som bebia em fontes do rock internacional, como Neil Young, George Harrison e Paul McCartney. A mesma cartilha guiou “Odair José” (1973), “Lembranças” (1974) e “Odair” (1975). O sucesso foi estrondoso. Odair emplacou, um atrás do outro, dezenas de hits nacionais (...)”, explica o jornalista Marcus Preto, que dirigiu a seleção.

Vários destes sucessos são conferidos nos shows que ele fará no Pompeia, entre eles “Essa Noite Você Vai Ter que Ser Minha”, “Deixe Essa Vergonha de Lado”, “Cadê Você?”, “Eu, Você e a Praça”, “A Noite Mais Linda do Mundo (Felicidade)” e “Uma Vida Só (Pare de Tomar a Pílula)”.

O cantor será acompanhado por Conrado Ruther (guitarra), Marcos Henrique Motta (teclado), Caio Mancini (bateria) e seu filho Odair José Jr. (baixo).

Por mera coincidência os discos escolhidos para reedição têm títulos que parecem remeter à ideia de resgate, reafirmação, validação - exatamente o que vem acontecendo com a obra de Odair recentemente.

Muito se tem escrito acerca de sua “retomada” a partir do lançamento do livro Eu Não Sou Cachorro Não (2004 – editora Record), de Paulo César Araújo. Na última década o compositor tem visto suas canções renovadas em cantorias ao vivo em bares e no repertório de músicos ou bandas tão diversificados como Zeca Baleiro, Nando Reis, Otto, Filipe Catto e Jumbo Elektro; apenas para citar alguns.

Mas ele credita o momento atual a outro episódio, de 2006: a gravação do disco Vou Tirar Você Desse Lugar (título de uma de suas composições mais conhecidas). O CD reuniu diferentes gerações de artistas do cenário musical pop brasileiro, num tributo ao compositor goiano. Além da música que dá nome ao disco (interpretada pelo Titã Paulo Miklos), estão lá as clássicas setentistas Que Saudade de Você (Terminal Guadalupe), Cadê Você? (Sufrágio), Deixe Essa Vergonha de Lado (Mundo Livre S/A), Uma Vida Só – Pare de Tomar a Pílula (Artur de Faria & Seu Conjunto) e Ela Voltou Diferente (Mombojó). Pouco tempo depois Odair dividiu palco com os mineiros da independente Dead Lover’s Twisted Heart em dois festivais. “Todo mundo fala que foi o livro, mas eu não acho que foi. É claro que ele foi muito importante. Mas o tributo de 2006 foi o que chamou a atenção da moçada para a minha música, principalmente a dos jovens (...) O jovem tem a mente mais leve, sem conceitos e preconceitos”, analisa o compositor.

Sim, é fato: a obra de Odair vem recebendo a atenção de outros artistas e da mídia. Mas como se “redescobre” um compositor com mais de 40 anos ininterruptos de carreira, cerca de 400 composições e a marca de um disco por ano? Bem, em 1977, depois doo sucesso alcançado por suas músicas junto às camadas mais populares, com milhões de discos vendidos, ele decidiu ousar num álbum mais conceitual: uma “ópera popular” com 24 músicas. Foi quando lançou o controvertido disco O Filho de José e Maria. Houve, ali, um revés em sua carreira.“Quando fiz ‘O Filho de José e Maria’, todo mundo foi contra: do meu pai ao padre, às gravadoras... Me brecaram, quando na verdade era um projeto, não era pra sempre. Não entenderam a proposta, que era pop. Fiquei decepcionado, pois acreditava muito no trabalho.”, desabafa. A partir dali, ele se desinteressou, como diz, e ficou desatento com a carreira: “não fiz discos com a mesma disciplina. Fiz bons discos, mas não geniais”.

Seu último trabalho foi lançado em 2012. Em Praça Tiradentes, o 35º de sua carreira, Odair não só trouxe composições inéditas, mas gravou, pela primeira vez, músicas de outros autores. Lançado pela Saravá Discos, selo do amigo, incentivador e músico Zeca Baleiro – que participou e também assinou a produção do álbum –,no Auditório Ibirapuera, o disco contou com composições de Arnaldo Antunes e Carlinhos Brown ("Vou Sair do Interior"), Zeca Baleiro ("Como Um Filme") e Chico César ("Você Tem Me Ensinado"). Além de Baleiro, Paulo Miklos também dividiu os vocais com Odair em algumas faixas. Uma curiosidade: o título do disco é bem pessoal, pois remete ao jovem Odair, que aos 17 anos saiu do interior de Goiás para viver no Rio de Janeiro, inicialmente na Praça Tiradentes.

De lá pra cá muita coisa aconteceu. E na gangorra incerta do sucesso, hoje Odair José celebra os muitos tons que embalaram casais, irritaram governantes e, agora, figuram no repertório das novas gerações. Vale a pena conferir (ou “redescobrir”) Odair José.

o que: Odair José
quando:

19 e 20/dezembro

onde:

Sesc Pompeia

 

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